O CASO BANCO MASTER E A CRISE DO CAPITALISMO RENTISTA NO BRASIL: Financeirização, corrupção estrutural e socialização dos prejuízos

O CASO BANCO MASTER E A CRISE DO CAPITALISMO RENTISTA NO BRASIL:

Financeirização, corrupção estrutural e socialização dos prejuízos


*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa o escândalo envolvendo o Banco Master como expressão concreta da crise do capitalismo rentista no Brasil, articulando-o à dinâmica estrutural da financeirização contemporânea. A partir de uma abordagem crítico-dialética, fundamentada em autores como Karl Marx, István Mészáros, François Chesnais, Ricardo Antunes e Ruy Mauro Marini, o texto sustenta que o caso não constitui um desvio pontual, mas um fenômeno orgânico da lógica de acumulação baseada na renda financeira e no capital fictício. Demonstra-se que a atuação do Banco Master evidencia a captura do Estado, a socialização dos prejuízos privados e a degradação das instituições democráticas, elementos centrais da crise estrutural do capital em sua fase rentista.


Palavras-chave: capitalismo rentista; financeirização; capital fictício; Banco Master; crise do capital.


Introdução


A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, revelou um complexo esquema de fraudes financeiras, pressões políticas e disputas institucionais que ultrapassam o âmbito de um caso isolado de corrupção bancária. Em que o episódio expôs as contradições estruturais do capitalismo contemporâneo, particularmente em sua forma rentista e financeirizada, na qual a acumulação de capital se desloca da produção material para a apropriação de rendas financeiras e ativos fictícios.

Este artigo parte da hipótese de que o caso Banco Master constitui uma manifestação concreta da crise estrutural do capital, conforme analisada por Mészáros (2011), e da hegemonia do capital financeiro, discutida por Chesnais (1996). Ao articular a análise empírica do escândalo com o referencial marxista e dependentista, busca-se compreender como a financeirização aprofunda a instabilidade econômica, intensifica a captura do Estado e transfere os custos da crise para a classe trabalhadora.


Capitalismo rentista, capital fictício e financeirização


Em O Capital, Livro III, Marx (2017) identifica no capital portador de juros a forma mais fetichizada da relação capitalista, na qual o dinheiro aparenta gerar dinheiro independentemente do processo produtivo. Essa forma alcança centralidade no capitalismo contemporâneo, marcado pela expansão do capital fictício — títulos, derivativos e créditos desvinculados da produção real de valor.

Enquanto François Chesnais (1996) define a financeirização como um regime de acumulação no qual os mercados financeiros e os grandes grupos bancários assumem papel dominante na coordenação da economia. E, nesse regime, a rentabilidade financeira torna-se o principal critério de decisão econômica, subordinando políticas públicas, empresas e Estados nacionais.

Para Ricardo Antunes (2018), ele destaca que a financeirização intensifica a precarização do trabalho e a superexploração da força de trabalho, ao mesmo tempo em que amplia a instabilidade sistêmica.

Somando a Antunes, Mészáros (2011) interpreta esse movimento como expressão da crise estrutural do capital, caracterizada pela incapacidade do sistema de resolver suas contradições fundamentais sem recorrer à destruição social e ambiental.


O Banco Master e a lógica da acumulação fictícia


As investigações sobre o Banco Master indicam a constituição de um esquema de acumulação baseado na criação de ativos fictícios, por meio de carteiras de crédito inexistentes ou infladas artificialmente, fundos de investimento interligados e operações de compra de ativos de baixo valor real por preços superfaturados. Tal dinâmica corresponde ao que Marx denomina capital fictício, cuja valorização depende da expectativa de rendas futuras e da confiança institucional.

No entanto, a tentativa de venda dessas carteiras ao Banco de Brasília (BRB), instituição financeira estatal, revela o momento crítico do processo rentista: a busca pela transferência de prejuízos privados ao Estado. Esse movimento evidencia a tendência estrutural à socialização das perdas, característica recorrente das crises financeiras contemporâneas.


Estado, instituições e dependência


O envolvimento de instituições como o Banco Central (BC), o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Banco Master, revela não apenas disputas jurídicas, mas a profundidade da captura do Estado pelo capital financeiro. Na perspectiva da Teoria Marxista da Dependência, desenvolvida por Ruy Mauro Marini (2005), tal captura é agravada em formações sociais periféricas, nas quais a burguesia local atua de forma associada ao capital internacional e à financeirização global.

Segundo Marini, a dependência estrutural intensifica a vulnerabilidade do Estado às pressões do capital rentista, convertendo bancos públicos, fundos de previdência e orçamentos estatais em mecanismos de sustentação da acumulação fictícia. Em que o caso Master exemplifica como a financeirização reforça a subordinação do interesse público à lógica privada da valorização financeira.


Ideologia, hegemonia e legitimação da financeirização


A atuação de influenciadores digitais pagos para defender o Banco Master e atacar o Banco Central evidencia a dimensão ideológica da financeirização. Conforme Mészáros (2011), a reprodução do capital em crise exige a construção permanente de mecanismos de legitimação, capazes de naturalizar a transferência de recursos públicos e deslegitimar qualquer tentativa de regulação.

Isso porque essas estratégias comunicacionais funcionam como aparelhos privados de hegemonia, atualizando formas de dominação que combinam capital financeiro, mídia e política.

Por isso, a financeirização, assim, não se sustenta apenas por meios econômicos, mas por um complexo aparato ideológico que molda percepções sociais e políticas.


A crise do capitalismo rentista


O caso Banco Master revela os limites históricos do capitalismo rentista. Incapaz de gerar valor suficiente na esfera produtiva, o sistema recorre à expansão de ativos fictícios, à especulação e à captura institucional pública. E é nesse processo que se aprofunda a instabilidade econômica, corrói a legitimidade democrática e transfere os custos da crise para a classe trabalhadora.

Segundo Mészáros (2011), trata-se de uma crise estrutural, que não pode ser resolvida por ajustes regulatórios pontuais. Enquanto Antunes (2018) acrescenta que a financeirização intensifica a barbárie social, ao mesmo tempo em que fragiliza os mecanismos de proteção social e os direitos do trabalho.


Considerações Finais


Como já dito e fundamentado, o escândalo financeiro do Banco Master constitui uma expressão concreta da crise do capitalismo rentista no Brasil, articulando financeirização, corrupção estrutural e captura do Estado.

Entretanto, longe de representar um episódio excepcional, o caso revela a lógica normal de funcionamento de um sistema baseado na valorização fictícia do capital e na socialização dos prejuízos.

Portanto, a superação dessa crise exige mais do que reformas institucionais ou maior eficiência regulatória. Implica, por conseguinte, na necessidade de uma ruptura com a lógica rentista e a construção de um projeto econômico centrado na produção socialmente necessária, no trabalho e no interesse público, conforme apontam as tradições críticas do marxismo e da teoria da dependência.


Referência Bibliográfica


ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.

CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Petrópolis: Vozes, 2005.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro III. São Paulo: Boitempo, 2017.

MÉSZÁROS, István. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. São Paulo: Boitempo, 2011.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).

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