O TRABALHO SOB O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO E O ESGOTAMENTO DA CLASSE TRABALHADORA: ALIENAÇÃO, PRECARIZAÇÃO E ADOECIMENTO NO CONTEXTO BRASILEIRO
O TRABALHO SOB O CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO E O ESGOTAMENTO DA CLASSE TRABALHADORA:
ALIENAÇÃO, PRECARIZAÇÃO E ADOECIMENTO NO CONTEXTO BRASILEIRO
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa o trabalho sob o capitalismo contemporâneo a partir da teoria marxista, enfatizando os processos de alienação, exploração e esgotamento da classe trabalhadora. Parte-se da concepção ontológica do trabalho em Marx como atividade fundante da vida social, contrapondo-a às formas historicamente determinadas que o trabalho assume no modo de produção capitalista. Em seguida, examinam-se as transformações recentes do trabalho no capitalismo financeirizado, destacando a precarização, a intensificação produtiva e o adoecimento mental. O artigo aprofunda o recorte brasileiro, articulando as contrarreformas trabalhistas, a uberização e a política de conciliação de classes do governo Lula, à luz da Teoria Marxista da Dependência. As contribuições de Lukács, Mészáros e Byung-Chul Han permitem compreender a reificação das relações sociais, a crise estrutural do capital e a auto exploração subjetiva como elementos centrais do esgotamento contemporâneo do trabalho. Conclui-se que o adoecimento da classe trabalhadora expressa uma contradição estrutural do capitalismo, recolocando a necessidade histórica de superação do trabalho alienado.
Palavras-chave: Trabalho; Alienação; Capitalismo contemporâneo; Precarização; Burnout; Brasil.
Introdução
O trabalho ocupa posição central na tradição marxista enquanto categoria ontológica fundamental da existência social. É por meio do trabalho que os seres humanos produzem seus meios de vida e, simultaneamente, produzem a si mesmos enquanto seres sociais. Contudo, sob o modo de produção capitalista, essa atividade fundante assume uma forma historicamente específica, marcada pela alienação e pela exploração da classe trabalhadora, assim como pela subordinação da vida humana à lógica da valorização do capital.
No capitalismo contemporâneo, caracterizado pela financeirização, pela mundialização das cadeias produtivas e pela revolução tecnológica, as contradições do trabalho se aprofundam. A flexibilização das relações laborais, a intensificação produtiva e a dissolução das fronteiras entre tempo de trabalho e tempo de vida produzem um processo generalizado de esgotamento da classe trabalhadora, expresso de forma crescente no adoecimento físico e mental.
No Brasil, país periférico do capitalismo internacional, essas tendências assumem contornos específicos, dada a condição dependente do capitalismo nacional, a superexploração estrutural da força de trabalho e a fragilidade histórica dos direitos sociais. Por conseguinte, as contra reformas trabalhistas, a expansão da informalidade e da uberização, bem como a política de conciliação de classes do governo Lula, evidenciam os limites das respostas institucionais frente à crise do trabalho.
Este artigo tem como objetivo analisar o trabalho no capitalismo contemporâneo, articulando a teoria marxista clássica e contemporânea às transformações recentes do mundo do trabalho e ao recorte brasileiro, com ênfase no esgotamento da classe trabalhadora.
Metodologia
A pesquisa possui caráter teórico-crítico, fundamentada no método materialista histórico-dialético. Parte-se da categoria trabalho em Marx, compreendida como mediação ontológica da vida social, articulando-a com as contribuições marxistas clássicas e contemporâneas, bem como com autores brasileiros e latino-americanos.
Utiliza-se revisão bibliográfica de obras de Karl Marx, György Lukács, István Mészáros e Byung-Chul Han, além de Ricardo Antunes, Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra. Complementarmente, são analisados dados institucionais sobre adoecimento laboral e Previdência Social, interpretados como expressões objetivas das contradições do capitalismo contemporâneo.
O trabalho como categoria ontológica em Marx
Para Marx, o trabalho é a atividade humana consciente de mediação entre o homem e a natureza. Trata-se de uma prática teleológica, na qual o resultado é idealizado antes de ser realizado, distinguindo-se da atividade instintiva dos animais. Em que o trabalho constitui, assim, condição universal da existência humana e fundamento da vida social (MARX, 2013).
Como já dito, no capitalismo, o trabalho é a fonte exclusiva de criação de valor. Entretanto, essa centralidade assume forma contraditória: o trabalho produz riqueza social, mas o controle sobre essa riqueza é apropriado privadamente pelo capital. Essa contradição inaugura o fenômeno do trabalho alienado, no qual a atividade vital do trabalhador se converte em força que o domina.
Alienação, reificação e exploração no capitalismo
Marx identifica quatro dimensões fundamentais da alienação: alienação em relação ao produto, ao processo de trabalho, à essência humana (Gattungswesen) e aos outros homens (MARX, 2004). Nesse sentido, o trabalhador não se reconhece no que produz, não controla sua atividade e se relaciona com os demais sob a lógica da concorrência e da exploração.
Um outro pensador, György Lukács, aprofunda essa análise ao desenvolver a categoria de reificação, demonstrando que, no capitalismo, as relações sociais assumem a forma de coisas, regidas por leis aparentes e naturalizadas (LUKÁCS, 2003). Então, a reificação atinge não apenas a produção material, mas também a consciência, fragmentando a percepção das relações de exploração.
Sendo que a base material da alienação e da reificação é a exploração da força de trabalho, expressa na categoria de mais-valia. No capitalista apropria-se do valor excedente produzido além do necessário à reprodução do trabalhador, seja pela ampliação da jornada e da intensidade do trabalho (mais-valia absoluta), seja pelo aumento da produtividade via tecnologia (mais-valia relativa).
O trabalho no capitalismo contemporâneo:
precarização e nova morfologia
Sabe-se que no capitalismo contemporâneo a financeirização subordina a produção às exigências do capital fictício, impondo metas de rentabilidade incompatíveis com a preservação da força de trabalho; em que a flexibilização das relações laborais resulta na precarização estrutural do emprego.
Com Ricardo Antunes (2018), identifica-se a emergência de uma nova morfologia do trabalho, marcada pela terceirização, informalidade, intermitência e uberização. Essas formas fragmentam os vínculos trabalhistas, enfraquecem a organização coletiva e ampliam a exploração.
A partir da intensificação produtiva, potencializada pelas tecnologias digitais, dissolve-se as fronteiras entre trabalho e vida pessoal, ampliando a jornada real de trabalho e aprofundando o desgaste físico e mental da classe trabalhadora.
Crise estrutural do capital, autoexploração e adoecimento
István Mészáros (2011) interpreta o esgotamento do trabalho como expressão da crise estrutural do capital, de caráter global, permanente e sistêmico. Nessa crise, o capital intensifica a exploração do trabalho até limites destrutivos, corroendo as bases da reprodução social.
A partir de Byung-Chul Han (2015) compreende-se -, contribui ao analisar a forma subjetiva contemporânea da exploração -, a chamada sociedade do desempenho, em que o trabalhador passa a se explorar a si mesmo, internalizando a lógica da produtividade e da auto superação permanente. Nesse caso, a exploração assume a forma de autoexploração, dissolvendo a percepção do conflito de classes.
O resultado é muito cruel: a proliferação de patologias como ansiedade, depressão e burnout; que devem ser compreendidas não como fenômenos individuais, mas como expressões sociais da alienação, da reificação e da crise estrutural do capital.
O recorte brasileiro:
dependência, superexploração e conciliação de classes
No Brasil, o capitalismo assume a forma de capitalismo dependente, conforme analisado por Florestan Fernandes (2005). Já na Teoria Marxista da Dependência, desenvolvida por Marini (2011) e Bambirra (2015), demonstram que a superexploração da força de trabalho é elemento estrutural das economias dependentes, ocorrendo pela intensificação do trabalho, prolongamento da jornada e remuneração abaixo do valor da força de trabalho.
Com a Reforma Trabalhista de 2017 institucionalizou a precarização, ampliando a terceirização, o trabalho intermitente e a flexibilização da jornada. Nesse caso, avanço da uberização radicaliza a reificação do trabalho, submetendo o trabalhador ao controle algorítmico e à instabilidade permanente.
Por conseguinte, o governo Lula, embora reconheça discursivamente a centralidade do trabalho, mantém uma política de conciliação de classes que não enfrenta as bases estruturais da precarização. Isto porque não promoveu a revogação da reforma trabalhista e os limites na regulação das plataformas digitais, assim, evidenciam a subordinação das políticas trabalhistas às exigências do capital.
Fez-se com que o crescimento acelerado dos afastamentos por transtornos mentais e a pressão sobre a Previdência Social revelassem que os custos da reprodução da força de trabalho adoecida são socializados, enquanto os lucros permanecem privatizados.
Considerações Finais
O trabalho sob o capitalismo contemporâneo revela uma contradição central: embora continue sendo a base da produção da riqueza social, é submetido a formas cada vez mais intensas de exploração, alienação e desgaste. O esgotamento da classe trabalhadora, expresso no adoecimento físico e mental, não constitui um desvio, mas um resultado necessário da lógica da valorização do capital.
No Brasil, essa dinâmica é agravada pela condição dependente, pela superexploração estrutural da força de trabalho e pelos limites impostos pela conciliação de classes. As respostas institucionais, restritas a ajustes regulatórios, mostram-se incapazes de enfrentar as raízes do problema.
Portanto, a superação do esgotamento do trabalho exige a ruptura com o trabalho alienado e com o próprio modo de produção capitalista, recolocando o trabalho como atividade humana livre, consciente e socialmente orientada às necessidades coletivas.
Referência Bibliográfica
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
________. Capitalismo pandêmico. São Paulo: Boitempo, 2020.
BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2015.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2005.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
LUKÁCS, György. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.
_____. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2011.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).
Comentários
Postar um comentário