Eleições, Estado Burguês e Democracia Liberal no Brasil Dependente: os partidos na reprodução da ordem capitalista

Eleições, Estado Burguês e Democracia Liberal no Brasil Dependente:

os partidos na reprodução da ordem capitalista


*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa o papel das eleições no Brasil enquanto mecanismo central de reprodução do Estado burguês em um país de capitalismo dependente e periférico. Partindo da tradição marxista e do pensamento crítico latino-americano, sustenta-se que o processo eleitoral, longe de promover transformações estruturais, opera como instrumento de legitimação da dominação de classe, da gestão privada do fundo público e da estabilidade da ordem capitalista. Argumenta-se, portanto, que os partidos de amplo espectro ideológico, o presidencialismo de coalizão e a corrupção estrutural conformam uma democracia liberal restrita, funcional à acumulação do capital e à subordinação ao imperialismo. Cuja fontes da pesquisa, foram constituídas pela metodologia teórico-bibliográfica, com base em autores clássicos e contemporâneos do marxismo, articulados à realidade brasileira.


Palavras-chave: Estado burguês; eleições; democracia liberal; capitalismo dependente; partidos políticos.


Introdução


A análise das eleições no Brasil, enquanto país de capitalismo dependente e periférico ao sistema imperialista, exige compreendê-las não apenas como um mecanismo formal de escolha de agentes políticos, mas como parte constitutiva do funcionamento do Estado burguês em um regime capitalista. Sob a aparência de uma ordem democrática plural e competitiva, o processo eleitoral opera como instrumento de legitimação da dominação de classe, assegurando a reprodução das relações de produção capitalistas e a gestão do fundo público em favor do capital privado.

No contexto brasileiro, as eleições convertem-se em um grande negócio político, econômico e institucional. Isto porque, o que está em disputa, é a administração de um fundo público trilionário, cuja apropriação mobiliza partidos de amplo espectro ideológico, coalizões pragmáticas e agentes políticos comprometidos menos com projetos societários e mais com a ocupação do aparelho estatal.

Assim, o objetivo deste artigo é analisar criticamente o papel das eleições e dos partidos políticos na reprodução da ordem capitalista no Brasil, articulando a teoria marxista do Estado com a crítica do capitalismo dependente.


Metodologia


A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de caráter teórico-bibliográfico, fundamentada na tradição marxista clássica e em autores do marxismo ocidental e latino-americano. Para isso, foram mobilizadas contribuições de Karl Marx e Friedrich Engels sobre o Estado e a democracia burguesa; de Vladimir I. Lenin acerca do Estado como instrumento de dominação de classe; de Nicos Poulantzas sobre o Estado capitalista; de Antonio Gramsci a respeito da hegemonia e dos aparelhos privados; e de István Mészáros sobre a crise estrutural do capital.

Enquanto que no campo da interpretação da realidade brasileira e latino-americana, o artigo dialoga com Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra, especialmente no que se refere ao capitalismo dependente, à burguesia associada e aos limites estruturais da democracia liberal na periferia do sistema.

Para a análise busca articular teoria e realidade concreta, compreendendo o processo eleitoral como mediação histórica da luta de classes no Brasil.


Estado Burguês, Política e Eleições


Na tradição marxista, o Estado não se apresenta como um árbitro neutro acima das classes, mas como uma forma histórica de organização do poder político que expressa e garante os interesses da classe dominante. Marx e Engels, por sua vez, demonstraram que o Estado moderno é o comitê executivo da burguesia, responsável por assegurar as condições gerais da reprodução do capital.

No capitalismo, o Estado burguês preserva a propriedade privada, a exploração do trabalho e a estabilidade da ordem social. Então, as eleições, nesse quadro, cumprem um papel estratégico: permitem a alternância controlada de governos sem que se alterem as estruturas fundamentais do poder econômico e social.

Por isso é que a democracia representativa liberal funciona, assim, como uma mediação institucional da luta de classes, canalizando conflitos sociais para o terreno eleitoral e neutralizando sua potência transformadora.


Eleições como Negócio e Gestão do Fundo Público


No Brasil, o processo eleitoral está profundamente associado à disputa pela gestão do fundo público. No Brasil, são orçamentos bilionários, emendas parlamentares, fundos partidário e eleitoral, empresas estatais e cargos estratégicos que transformam as eleições em um mercado político altamente lucrativo.

Quando os agentes políticos eleitos, em grande medida, não se orientam pela implementação de políticas públicas voltadas às necessidades da classe trabalhadora, mas pela administração desses recursos em benefício privado, de grupos aliados ou de frações do capital. Essa dinâmica expressa um patrimonialismo estrutural, atualizado pelas práticas de financeirização do Estado e pela captura do orçamento público.

Nesse processo, a cidadania política é esvaziada. Ao mesmo tempo em que parcelas da população depositam expectativas nas eleições como via de mudança, são frequentemente levadas a comercializar o voto direta ou indiretamente, perdendo direitos materiais e simbólicos em troca de benefícios imediatos e precários.


Partidos Políticos de Amplo Espectro Ideológico


A estrutura partidária brasileira é marcada pela predominância de partidos de amplo espectro ideológico, frequentemente caracterizados como catch-all parties. Esses partidos apresentam baixa coerência programática, reduzido enraizamento social e forte orientação eleitoralista.

Mais do que representar projetos ideológicos distintos, tais partidos funcionam como aparelhos privados de hegemonia, nos termos de Gramsci, voltados à conquista de votos, à negociação de cargos e ao acesso a recursos estatais. A ideologia cede lugar ao pragmatismo, e a política se converte em técnica de governabilidade e sobrevivência institucional.

Nesse cenário, o chamado “centrão” desempenha papel central, atuando como fiel da balança do sistema político. Entende-se que essas agremiações é que garantem sustentação a diferentes governos, independentemente de sua coloração ideológica, desde que sejam preservados seus interesses materiais e seu acesso ao aparelho de Estado.


Presidencialismo de Coalizão e Estabilidade da Ordem


O presidencialismo de coalizão constitui uma das engrenagens fundamentais da democracia burguesa no Brasil. Isto porque a fragmentação partidária obriga o Executivo a formar amplas alianças parlamentares baseadas em concessões orçamentárias, cargos e influência política.

Por conseguinte, esse arranjo político-institucional assegura a estabilidade do Estado burguês, ao mesmo tempo em que bloqueia reformas estruturais que ameacem os interesses das classes dominantes nacionais e internacionais. E é isso que garante a governabilidade, quando impõe-se como valor supremo, subordinando a política pública às exigências da conciliação interburguesa.


Ética Política, Corrupção Estrutural e Dependência


Longe de ser um desvio moral individual, a corrupção assume caráter estrutural no interior do Estado burguês dependente. Porque ela expressa a forma concreta de organização das relações políticas institucionais, baseadas no clientelismo, na troca de favores e na apropriação privada do público.

O sociólogo brasileiro, Florestan Fernandes, demonstra que a burguesia brasileira, historicamente associada ao capital internacional, construiu uma democracia restrita, que é incapaz de universalizar direitos. Enquanto Marini e Bambirra evidenciam que essa dinâmica está vinculada à condição dependente do capitalismo latino-americano, no qual o Estado opera como mediador da superexploração do trabalho.


Legitimação, Aparatos Ideológicos e Domesticação da Luta de Classes


Afirma-se que as eleições funcionam como um poderoso aparato ideológico. Isto porque "produzem" a aparência de participação popular e igualdade política, enquanto ocultam as desigualdades materiais que condicionam o processo eleitoral, seja na seleção de candidaturas como no seu financiamento eleitoral.

Além disso, a institucionalização da disputa política contribui para a domesticação de setores da esquerda, incorporados à lógica do jogo eleitoral e afastados de perspectivas rupturistas. Conforme analisa Mészáros, a democracia liberal tende a proteger o capital contra a democracia substantiva, restringindo a ação política aos limites do seu sistema.


Considerações Finais


As eleições no Brasil funcionam predominantemente como um mecanismo de reprodução do Estado burguês e da ordem capitalista dependente. Enquanto se constituem os partidos de amplo espectro ideológico, coalizões pragmáticas e uma ética política baseada na apropriação do fundo público, conformam um sistema voltado à gestão da dominação, e não à emancipação social.

Mas, é sob a aparência da democracia liberal, que perpetuam-se a subordinação da classe trabalhadora, a concentração de poder das "elites" dominantes e a integração subordinada do país ao sistema imperialista.

Portanto, compreender criticamente esse funcionamento é condição necessária para a construção de estratégias políticas que ultrapassem os limites da democracia burguesa e enfrentem, de forma estrutural, a lógica do capital.


Referência Bibliográfica


BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.

ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. São Paulo: Boitempo, 2019.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2006.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

LENIN, Vladimir I. O Estado e a revolução. São Paulo: Boitempo, 2017.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Expressão Popular, 2005.

MARX, Karl. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

_____; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.

MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2002.

POULANTZAS, Nicos. O Estado, o poder, o socialismo. São Paulo: Paz e Terra, 2000.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Pr)

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