A Filosofia: Pensamento Filosófico e Filosofar na Perspectiva Crítica

A Filosofia:

Pensamento Filosófico e Filosofar na Perspectiva Crítica


*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa a Filosofia, o pensamento filosófico e o ato de filosofar a partir de uma perspectiva crítica, articulando a tradição clássica da Filosofia com a concepção marxista do materialismo histórico-dialético. A partir dela parte-se da compreensão da Filosofia como uma atividade racional, crítica e sistemática, surgida na Grécia Antiga em oposição ao pensamento mítico, para, em seguida, aprofundar o sentido do filosofar enquanto atitude de questionamento radical da realidade. Na sequência, discute-se a relação dialética entre Filosofia, senso comum e ciência, evidenciando sua função formativa e crítica. Por fim, examinam-se os fundamentos da Filosofia marxista, com destaque para os conceitos de materialismo histórico, materialismo dialético, práxis, trabalho, alienação, ideologia e luta de classes, enfatizando a função social da Filosofia como instrumento de emancipação humana. Por fim, conclui-se que a Filosofia crítica não se limita à interpretação do mundo, mas constitui-se como prática teórica orientada à transformação das condições sociais concretas.


Palavras-chave: Filosofia; Filosofia crítica; Filosofar; Materialismo histórico-dialético; Emancipação humana.


Introdução


A Filosofia, desde seu surgimento na Grécia Antiga, no século VI a.n.e., constitui-se como uma forma específica de investigação racional da realidade, orientada pelo questionamento radical, pelo rigor conceitual e pela recusa às explicações dogmáticas.

Mas, mais do que um conjunto de doutrinas, a Filosofia é uma atitude crítica diante do mundo, da sociedade e do próprio pensamento. Posto que, na tradição crítica — particularmente na concepção marxista —, a Filosofia não se limita a interpretar a realidade, mas assume um compromisso histórico com sua transformação.

Por conseguinte, este trabalho tem como objetivo analisar a Filosofia, o pensamento filosófico e o ato de filosofar a partir de uma perspectiva crítica, articulando a tradição clássica da Filosofia com a concepção marxista do materialismo histórico-dialético.

Além disto, busca-se demonstrar como o filosofar crítico se constitui como instrumento de desnaturalização do senso comum, de compreensão das contradições sociais e da emancipação humana.


O que é a Filosofia: origem, significado e natureza


Etimologia e significado

A palavra Filosofia origina-se do grego philia (amor, amizade) e sophia (sabedoria), significando, literalmente, “amor à sabedoria”. Tal definição expressa o caráter não dogmático da Filosofia, isto porque o filósofo não é aquele que possui a verdade, mas aquele que a busca incessantemente.


Origem histórica da Filosofia

A Filosofia surge na Grécia Antiga, por volta do século VI a.n.e., a partir da superação progressiva das explicações mítico-religiosas do mundo (mythos) em favor de explicações racionais (logos). Processo esse de desmistificação, que esteve associado a transformações sociais, políticas e econômicas, como o surgimento da pólis, da escrita alfabética e do debate público.

Sendo Tales de Mileto, considerado tradicionalmente o primeiro filósofo, ao buscar um princípio racional (arché) para explicar a totalidade da realidade, identificando-o na água.

A partir desse gesto inaugural, a Filosofia passa a investigar a natureza, o ser humano, o conhecimento, a moral e a política por meio da razão.


Natureza e áreas da Filosofia

A Filosofia caracteriza-se como uma atividade intelectual crítica, sistemática e reflexiva, voltada à construção de conceitos e à fundamentação racional do conhecimento.

Suas principais áreas incluem:

  • Metafísica (ou ontologia): estudo da realidade e do ser;

  • Epistemologia: investigação do conhecimento e da verdade;

  • Lógica: análise das formas válidas do raciocínio;

  • Ética: reflexão sobre a moral e a ação humana;

  • Estética: estudo da arte e da beleza;

  • Filosofia Política: análise do poder, do Estado e da justiça.


O filosofar como atitude crítica


O filosofar não se confunde com a simples aprendizagem da História da Filosofia. Trata-se, mais do que tudo, de uma prática ativa, marcada pelo questionamento radical, pelo rigor argumentativo e pelo espanto diante do mundo.

Por conseguinte, o filosofar é uma atitude de romper com a zona de conforto intelectual, colocando em dúvida certezas estabelecidas e investigando seus fundamentos.

Foi Immanuel Kant (1724-1804) quem diferencia o “aprender filosofia” do “aprender a filosofar”. Para ele, filosofar é o uso autônomo e crítico da razão, não a repetição passiva de sistemas prontos. Essa concepção reforça a dimensão formativa da Filosofia, voltada à construção da autonomia intelectual.

Entre as principais características do ato de filosofar destacam-se:

  • a disposição para duvidar e questionar;

  • a análise crítica do que é considerado banal ou óbvio;

  • a identificação de preconceitos e pressupostos ocultos;

  • o uso rigoroso de conceitos e argumentos racionais.


Filosofia crítica e a relação com o senso comum


A Filosofia mantém uma relação dialética com o senso comum. Este último constitui um conhecimento prático, fragmentado e acrítico, baseado na experiência cotidiana, nas tradições e nas emoções.

Embora seja funcional para a vida diária, o senso comum tende a naturalizar desigualdades e reproduzir preconceitos.

Já a Filosofia parte do senso comum como ponto de partida, mas não se limita a ele. Ao questioná-lo, promove uma ruptura crítica, transformando crenças aparentemente evidentes em problemas filosóficos. Essa atitude de desnaturalização consiste em perguntar: “O que é isso, realmente?” e “Por que isso é assim?”.

Enquanto o senso comum é subjetivo e imediato, a Filosofia busca uma compreensão objetiva, sistemática e fundamentada da realidade.


Filosofia e Ciência: distinção e complementaridade


Historicamente, Filosofia e Ciência estiveram unidas. Até o século XVIII, a chamada Filosofia natural abrangia o estudo racional dos fenômenos da natureza. Com o desenvolvimento do método experimental, as ciências se autonomizaram, concentrando-se na investigação empírica do “como” os fenômenos ocorrem.

Enquanto a Filosofia, por sua vez, passou a interrogar os fundamentos, os métodos, os limites e as implicações éticas do conhecimento científico.

No seu desdobramento, a Filosofia da ciência analisa a racionalidade científica, os critérios de verdade e o impacto social das descobertas, sem substituir o trabalho empírico das ciências.

Nesse sentido, Filosofia e ciência mantêm uma relação de complementaridade: a ciência fornece dados e explicações específicas, enquanto a Filosofia investiga o significado, o alcance e as condições de possibilidade desse saber.


Fundamentos da Filosofia marxista


A Filosofia marxista, desenvolvida por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), constitui uma ruptura com o idealismo filosófico e com as concepções abstratas do ser humano. Conhecida como materialismo histórico-dialético, ela compreende a Filosofia como uma prática teórica comprometida com a transformação da realidade social.


Materialismo Histórico

O Materialismo Histórico sustenta que a base econômica da sociedade — o modo de produção, as forças produtivas e as relações de produção - condiciona a superestrutura jurídica, política, ideológica e cultural -, que se intercalam dialeticamente. Assim, não é a consciência que determina o ser social, mas o ser social que determina a consciência.


Materialismo Dialético

O Materialismo Dialético é o método de análise da realidade, percebendo-a em constante movimento e transformação.

Sendo que a realidade social é compreendida como um processo contraditório, marcado por conflitos internos, que impulsionam as mudanças históricas.

Diferentemente da lógica formal, a dialética enfatiza a contradição, a totalidade e a historicidade.


A inversão materialista da dialética de Hegel


Marx reconhece em G. F. Hegel (1770-1831) o mérito de ter desenvolvido a dialética como lógica do movimento. Contudo, critica seu caráter idealista.

Isto porque, para Hegel, a realidade resulta do desenvolvimento da Ideia ou do Espírito. Enquanto Marx afirma ter colocado a dialética hegeliana “de cabeça para cima”, ao situar a base material da vida social como fundamento do pensamento.

Assim, as ideias não criam o mundo; elas são reflexos das condições materiais concretas na consciência humana.


Conceitos centrais da Filosofia marxista


Práxis

A práxis é o conceito central da Filosofia marxista. Porque ela designa a ação humana consciente, histórica e transformadora, que articula teoria e prática.

Por isso que a Filosofia torna-se, assim, uma Filosofia da práxis.


Trabalho

O trabalho é a mediação fundamental entre o ser humano e a natureza, constituindo o homem como ser social.

Entretanto, no capitalismo, o trabalho assume uma forma alienada.


Alienação

A alienação ocorre quando o trabalhador perde o controle sobre o produto e o processo de seu trabalho, que passam a confrontá-lo como forças estranhas e dominadoras.


Ideologia

A ideologia corresponde a um conjunto de ideias que tende a mascarar as contradições sociais, apresentando os interesses da classe dominante como interesses universais.


Luta de classes

A luta de classes é o motor da história.

Quando, no capitalismo ocorre o antagonismo de classes: burguês e proletário; devido a essa estrutura, forja-se a contradição entre classes dominantes e dominadas, que, na sua estrutura, dá-se os conflitos sociais, que impulsiona as transformações históricas.


A função social da Filosofia


A Filosofia marxista busca superar a separação entre teoria e vida real.

Marx sintetiza esse objetivo na 11ª Tese sobre Feuerbach: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transformá-lo”.

Por conseguinte a Filosofia assume, assim, uma função social emancipatória, orientada para a superação da exploração, da alienação e das desigualdades de classe, tendo como horizonte a construção de uma sociedade sem classes.


Considerações Finais


A Filosofia, compreendida criticamente, é uma prática de investigação radical que questiona os fundamentos do pensamento, da sociedade e da existência. Ao articular o filosofar clássico com a tradição marxista, evidencia-se que a Filosofia não é um saber abstrato ou meramente contemplativo, mas uma atividade histórica, crítica e transformadora.

Portanto, filosofar é desnaturalizar o mundo, desmontar o óbvio e compreender as estruturas que sustentam a realidade social.

Nesse sentido, a Filosofia permanece atual e necessária como instrumento de formação da autonomia intelectual e de luta pela emancipação humana, especialmente em contextos marcados por desigualdades, alienação e dominação ideológica.


Referência Bibliográfica


ARISTÓTELES. Metafísica. São Paulo: Loyola, 2002.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2012.

ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. São Paulo: Boitempo, 2015.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 2014.

KANT, Immanuel. Crítica da Razão Pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

MARX, Karl. Teses sobre Feuerbach. In: MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

_____. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

_____; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

SEVERINO, Antônio Joaquim. Filosofia. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2011.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná)

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