As Lutas Antiimperialistas nas Nações da Periferia e Dependentes do Capitalismo Imperialista
As Lutas Antiimperialistas nas Nações da Periferia e Dependentes do Capitalismo Imperialista
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa as lutas antiimperialistas nas nações da periferia e dependentes do capitalismo, compreendendo o imperialismo como uma estrutura histórica e contemporânea da acumulação capitalista. A partir da tradição marxista, especialmente de Marx, Lênin, Marini e Chesnais, examina-se o contexto da dependência estrutural, os mecanismos de dominação imperialista, suas contradições socioambientais e econômicas e, por fim, as possibilidades de lutas populares antiimperialistas no século XXI. Argumenta-se que não há soberania nacional efetiva, nem desenvolvimento autônomo, nas formações sociais periféricas sem o enfrentamento da dependência estrutural e da lógica do capitalismo imperialista.
Palavras-chave: Imperialismo; Dependência; Soberania nacional; Luta de classes; América Latina.
Introdução
O imperialismo constitui uma categoria central para a compreensão do capitalismo em sua dimensão histórica e global. Longe de representar um fenômeno superado ou restrito ao colonialismo clássico, o imperialismo contemporâneo expressa a forma atual de organização do capital em escala mundial, marcada pela financeirização, pela internacionalização da produção e pela dominação das nações centrais sobre os países da periferia do sistema.
Nas formações sociais dependentes, essa dominação se traduz em subordinação econômica, tecnológica e política, limitando a soberania nacional e bloqueando projetos autônomos de desenvolvimento. Nesse contexto, as lutas antiimperialistas assumem caráter estratégico, articulando a luta pela autodeterminação dos povos à luta de classes e à superação do capitalismo.
O objetivo deste artigo é analisar as lutas antiimperialistas nas nações da periferia do capitalismo, abordando: o contexto geral do imperialismo e da dependência; os mecanismos de dominação imperialista; as contradições estruturais do imperialismo; e, as possibilidades de organização e resistência popular no século XXI.
O contexto geral do imperialismo e das nações da periferia e dependentes do capitalismo
As nações da periferia do capitalismo caracterizam-se por uma inserção subordinada na divisão internacional do trabalho, baseada na exportação de commodities, na reprimarização produtiva e na dependência tecnológica e financeira. Conforme Marx (2013), a expansão do capital para além das fronteiras nacionais constitui uma necessidade inerente ao processo de acumulação, especialmente quando as contradições internas limitam a valorização do capital.
Lênin (2012) define o imperialismo como a fase superior do capitalismo, marcada pela concentração e centralização do capital, pela fusão entre capital bancário e industrial e pela exportação de capitais. Embora formulada no início do século XX, essa concepção permanece atual, ainda que adaptada às novas formas de dominação financeirizada.
No século XXI, o imperialismo atua de forma combinada: por meio da coerção militar direta ou indireta e, sobretudo, pela dominação econômica, expressa na dívida externa, no controle tecnológico e na subordinação produtiva. A atual transição geopolítica, envolvendo Estados Unidos, União Europeia, China e os BRICS, não altera, por si só, a condição periférica dos países dependentes, que correm o risco de apenas substituir uma dependência por outra.
A soberania nacional, nesse sentido, está diretamente relacionada à estrutura de classes internas. Como aponta Marini (2005), as burguesias nacionais nas economias dependentes tendem a se associar ao capital internacional, reproduzindo a dependência e aprofundando a superexploração do trabalho.
A dominação imperialista: guerras, espoliação e exploração
O imperialismo contemporâneo perpetua a espoliação de recursos naturais e a exploração da força de trabalho nas nações periféricas por meio de múltiplos mecanismos; como as guerras de intervenção, justificadas por discursos de “democracia”, “direitos humanos”, ataques ao narcotráfico e ao terrorismo, que cumprem o papel de reorganizar territórios e garantir o controle de recursos estratégicos.
Entretanto, como destaca Chesnais (1996), a financeirização tornou-se o eixo central da dominação imperialista; através de sanções econômicas, bloqueios comerciais, dívida externa e condicionalidades impostas por organismos multilaterais, que funcionam como instrumentos de coerção, transformando países formalmente soberanos em economias dependentes.
Mecanismos esses que produzem a transferência permanente de valor da periferia para o centro do sistema, confirmando que o imperialismo não é um desvio do capitalismo, mas uma de suas formas históricas de reprodução ampliada.
Contradições estruturais do imperialismo:
destruição da natureza, miséria social e subdesenvolvimento
A atual lógica do imperialismo baseia-se na superexploração do trabalho e na financeirização dos recursos naturais, transformando a destruição ambiental e a miséria social em elementos funcionais à acumulação de capital. Conforme Marini (2005), a superexploração constitui o fundamento da dependência, permitindo a ampliação da taxa de lucro nas economias centrais.
Enquanto a marca do subdesenvolvimento, portanto, não representa atraso natural, mas um processo histórico ativo de transferência de valor. Com a devastação ambiental, a precarização do trabalho e a privatização de bens comuns criam condições favoráveis à expansão do capital imperialista, especialmente nas regiões periféricas.
Outro fator são as dívidas externas e os programas de ajuste estrutural, impostos pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial, que operam como mecanismos de transferência de soberania, subordinando as políticas econômicas e sociais dos Estados dependentes aos interesses do capital financeiro internacional.
Lutas populares antiimperialistas: táticas e estratégias no século XXI
As lutas antiimperialistas contemporâneas exigem a articulação entre soberania nacional e soberania popular. Do ponto de vista tático, a unidade de ação contra o imperialismo é fundamental, mas não pode se confundir com alianças estratégicas com frações da burguesia dependente.
A frente antiimperialista deve estar enraizada na classe trabalhadora, nos movimentos populares, camponeses, indígenas e na juventude. Do ponto de vista estratégico, a superação da dependência econômica e tecnológica é condição indispensável para qualquer projeto de desenvolvimento soberano.
O internacionalismo constitui dimensão central dessas lutas, uma vez que o imperialismo opera em escala global. Como afirmava Marx (2011), a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores, em cada país e internacionalmente.
Considerações Finais
As lutas antiimperialistas, nas nações da periferia e dependentes do capitalismo, expressam a contradição central do capitalismo contemporâneo. Não há soberania nacional efetiva sem enfrentamento da dependência estrutural, nem democracia real sem protagonismo popular.
A superação do imperialismo exige organização política, consciência de classe, integração regional solidária e a construção de um projeto histórico alternativo ao capitalismo imperialista, orientado pela autodeterminação dos povos e pela justiça social.
Referência Bibliográfica
CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996.
LÊNIN, Vladimir Ilich. O imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2012.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. In: TRASPADINI, Roberta; STEDILE, João Pedro (org.). Ruy Mauro Marini: vida e obra. São Paulo: Expressão Popular, 2005.
MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
______; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2011.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná)
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