Quem educa o educador?: reflexão sobre a educação escolar para o início do ano letivo de 2026

Quem educa o educador?:

reflexão sobre a educação escolar para o início do ano letivo de 2026


*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo investiga a clássica questão marxiana — quem educa o educador? — a partir da III Tese sobre Feuerbach (1845), articulando-a às contribuições de Marx e Engels sobre práxis revolucionária, educação e transformação social. Em diálogo com autores contemporâneos como Arroyo, Caldart e Mészáros, analisa-se a educação como processo dialético, inseparável da luta de classes e das experiências históricas da classe trabalhadora, com especial atenção ao contexto latino-americano e ao início do ano letivo de 2026. Sustenta-se que o educador se forma e se transforma na prática social coletiva, especialmente nas lutas emancipatórias que tensionam e superam a lógica do capital.


Palavras-chave: Educação; Práxis revolucionária; Marx e Engels; Trabalho; Movimentos sociais.


Introdução


A pergunta “quem educa o educador?” atravessa o debate crítico sobre a educação desde o século XIX e mantém plena atualidade neste início do ano letivo de 2026, marcado pela intensificação das contrarreformas educacionais, pela precarização do trabalho docente e pela subordinação crescente da escola à lógica do capital.

Em Marx, essa questão não se limita a um problema pedagógico, mas expressa uma crítica radical às concepções idealistas e iluministas que separam educação e transformação social.

Ao formular a III Tese sobre Feuerbach, Marx rompe com o materialismo passivo e afirma a centralidade da práxis revolucionária como chave para compreender a formação humana.

E a educação, nessa perspectiva, não é um ato neutro nem um processo unilateral, mas parte constitutiva da luta histórica pela emancipação humana.


A crítica ao materialismo passivo e a educação


Na III Tese sobre Feuerbach, Marx afirma que:


A teoria materialista sobre a modificação das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador precisa ser educado. (MARX, 2007, p. 533-534).


Essa crítica dirige-se às concepções que compreendem os indivíduos como simples produtos das circunstâncias sociais. Se assim fosse, o educador apareceria como alguém situado acima da sociedade, dotado de uma consciência esclarecida capaz de educar os demais.

Porém, Marx denuncia esse dualismo, que divide a sociedade em duas partes — uma educadora e outra educada — e que, no limite, legitima relações de dominação. Isto porque, para Marx e Engels, os seres humanos são, simultaneamente, produtos e produtores das condições históricas.

Tanto o ser, o estar e o agir humanos são condicionados pelas circunstâncias, mas não determinados mecanicamente por elas. Isto porque, ao mesmo tempo em que são formados, os sujeitos transformam as condições que os formam.


Educação como práxis revolucionária


O núcleo da III Tese reside na afirmação de que:


A coincidência entre a alteração das circunstâncias e a atividade ou automodificação humanas só pode ser apreendida e racionalmente entendida como prática revolucionária. (MARX, 2007, p. 534).


A educação, portanto, não se realiza plenamente nos limites da sala de aula ou dos sistemas escolares formais. Ela acontece, de modo radical, na práxis social, isto é, na ação consciente e coletiva voltada à transformação das relações sociais. E é nesse movimento que o educador se educa: ao participar das lutas que visam modificar as circunstâncias históricas que moldam sua própria existência.

Essa concepção rompe com a ideia de neutralidade pedagógica e afirma o caráter político da educação; posto que educar é tomar parte, de forma consciente, na disputa entre projetos societários antagônicos.


Trabalho, movimentos sociais e formação humana


As reflexões de Arroyo (2014) e Caldart (2000) aprofundam essa perspectiva ao evidenciar que os processos educativos mais potentes emergem das experiências concretas de trabalho e das lutas sociais. São nas lutas pela terra, contra o trabalho escravizado, pela emancipação do trabalho explorado e nas lutas identitárias étnicas, raciais e de gênero, em diversos coletivos que se constituem como sujeitos sociais, éticos, culturais e políticos.

Esses processos formativos revelam que a educação emancipa quando se vincula à denúncia dos modos desumanos de vida produzidos pelo capitalismo e ao anúncio de práticas alternativas, portadoras de um horizonte emancipatório.

Já na experiência latino-americana, destacam-se práticas educativas radicais, de natureza anticapitalista, que se erguem contra todas as formas de opressão econômico-culturais.

Como a pedagogia desenvolvida no interior do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), por exemplo, evidencia que a escola é mais do que escola: é espaço de organização, de luta e de produção coletiva de consciência crítica (CALDART, 2000).


Para além do capital: educação e emancipação


Mészáros (2011) contribui decisivamente para esse debate ao afirmar que uma educação verdadeiramente emancipadora não pode se limitar à reprodução das formas sociais do capital. Isto porque, educar para além do capital implica compreender a realidade como uma totalidade histórica, produzida pelos próprios seres humanos e, portanto, passível de transformação.

Nesse sentido, práticas educativas que apenas adaptam os sujeitos às exigências do mercado de trabalho reproduzem e recriam as condições que os oprimem.

Enquanto a educação crítica, ao contrário, forma sujeitos capazes de compreender as raízes estruturais da exploração e de desenvolver ações individuais e coletivas orientadas para sua superação.


Revolução, automodificação humana e desafios contemporâneos


A referência à Revolução Cubana ilustra a ideia de prática revolucionária como processo de automodificação humana radical. Pois sabe-se que a revolução não é um evento pontual, mas uma tarefa histórica permanente. Como apontam os debates sobre organização e participação popular, o desafio central consiste em manter viva, permanente e criativa uma revolução socialista.

Transpondo essa reflexão para o campo educacional no início do ano letivo de 2026, a pergunta que se impõe é:


como construir práticas educativas que não apenas resistam à ofensiva do capital, mas que contribuam para a formação de sujeitos capazes de reinventar, cotidianamente, projetos emancipatórios?


Considerações Finais


Para Marx e Engels, o educador não se forma fora da história nem acima da sociedade. Ele se educa na práxis, isto é, na participação ativa e coletiva nos processos de transformação social. Assim, a educação, entendida como momento da luta de classes, adquire sentido emancipatório quando se vincula às experiências concretas da classe trabalhadora em sua luta por libertação.

No contexto atual, retomar a pergunta: quem educa o educador?, significa afirmar que a formação docente crítica depende do engajamento nas lutas sociais, sindicais e populares.

Mas, é nesse terreno que se produz uma educação capaz de contribuir para a superação das relações sociais capitalistas e para a construção de novos modos de vida.


Referência Bibliográfica


ARROYO, Miguel G. Outros sujeitos, outras pedagogias. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.

CALDART, Roseli S. Pedagogia do Movimento Sem Terra: escola é mais do que escola. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

MARX, Karl. Ad Feuerbach. In: MARX, K.; ENGELS, F. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846). São Paulo: Boitempo, 2007. p. 533-535.

MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2011.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).

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