A MORAL RELIGIOSA COMO FUNDAMENTO DA ÉTICA POLÍTICA CONSERVADORA EM SANTA CATARINA

A MORAL RELIGIOSA COMO FUNDAMENTO DA ÉTICA POLÍTICA CONSERVADORA EM SANTA CATARINA

*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa os fundamentos morais e religiosos que estruturam a ética política de segmentos sociais identificados com a ideologia de direita no estado de Santa Catarina, Brasil. Parte-se da hipótese de que a cultura política regional articula elementos históricos, religiosos e socioeconômicos que produzem uma forma específica de conservadorismo. A pesquisa combina referências da sociologia da religião, da teoria política e da tradição marxista para compreender como valores cristãos, ética do trabalho, meritocracia e anticomunismo compõem uma moral pública aplicada ao comportamento eleitoral e legislativo. Conclui-se que a moral conservadora catarinense não se reduz a crença privada, mas constitui uma ética prática que orienta posições políticas, especialmente em temas de educação, família, segurança e propriedade.


Palavras-chave: conservadorismo; religião; política; Santa Catarina; moral social.


Introdução


Santa Catarina apresenta, nas últimas décadas, um dos comportamentos eleitorais mais consistentemente, estando alinhados à direita no Brasil. Tal fenômeno não pode ser explicado apenas por fatores econômicos ou partidários - por estar na essência (escondidos), da realidade-; outrossim, exigindo uma análise cultural e moral, do que compõe a sociedade.

Por conseguinte, o objetivo deste artigo é investigar como a moral religiosa — predominantemente cristã — estrutura uma ética política conservadora regional.

Desta forma, sustenta-se que a ideologia política não emerge apenas de interesses materiais imediatos, mas de uma cosmovisão moral sedimentada historicamente pela estrutura de poder dominante.


Formação histórica da identidade conservadora


A formação social catarinense resultou da combinação entre litoral açoriano e interior colonizado por imigrantes europeus (alemães e italianos empobrecidos). À essa estrutura, produziu-se comunidades com forte organização comunitária, disciplina social e valorização do trabalho, perpassadas pelo controle moral religioso.

No século XX, por conseguinte, movimentos como o integralismo encontraram no estado um terreno fértil, articulando espiritualismo, anticomunismo e ordem social. Mas, não se trata de continuidade direta, sim de permanência simbólica de repertórios morais: “Deus, pátria, família” e autoridade, como timoneiro da coletividade.

Assim, o conservadorismo regional possui raízes históricas profundas, anteriores às disputas partidárias contemporâneas, como é destacado em diversas pesquisas acadêmicas.


Religiosidade e a moral pública


A estrutura religiosa catarinense caracteriza-se por predominância cristã - católica historicamente - e, mais recentemente, com crescimento evangélico.

Parte-se da compreensão de que a religião opera como organizadora do senso comum moral. Segundo Marx (1844), a religião é expressão da realidade social concreta e do sofrimento humano; não apenas crença abstrata, mas forma de interpretar o mundo. Já Gramsci (1999) entende a religião como componente do senso comum que estrutura a hegemonia cultural.

Nesse contexto, a moral cristã funciona como código normativo cotidiano, definindo:

  • papéis familiares;

  • autoridade parental;

  • comportamento sexual;

  • limites do aceitável socialmente.

E, nesse sentido, a política passa então a ser interpretada em termos morais e não apenas de gerenciamento público, à serviço dos interesses do capital.


Ética do trabalho e meritocracia


Um elemento central do conservadorismo catarinense é a valorização do trabalho disciplinado. Essa ética aproxima-se do que Weber (2004) descreve como ethos moral do trabalho: entendido como a vocação moral de todo “homem responsável”, estabelecido no patriarcado.

Com isso, a partir dessa base, derivam duas consequências políticas:

  1. A desigualdade é interpretada como resultado do esforço individual.

  2. Políticas redistributivas tendem a ser percebidas como injustas.

Assim, a meritocracia assume caráter moral — não apenas econômico — constituindo critério de justiça social, como condição de liberdade do indivíduo na coletividade.


Anticomunismo, antipetismo e identidade política


Constata-se que a identidade política conservadora local frequentemente se organiza por oposição simbólica. Por sua vez, a esquerda passa a ser percebida como ameaça moral à família, religião e propriedade.

Enquanto o anticomunismo histórico converte-se, no contexto contemporâneo, em antipetismo. Posto que o conflito político adquire forma moralizada: não apenas disputa de projetos, mas disputa entre valores.

Sendo que tal processo - sempre - transforma eleições em plebiscitos “morais” e, - nunca - em disputa ideológica de poder entre classes em lutas.


Moral religiosa e políticas públicas


A moral conservadora manifesta-se concretamente na defesa de determinadas agendas, como:

  • combate à chamada “doutrinação ideológica” na escola;

  • oposição a políticas de gênero;

  • rejeição a cotas raciais;

  • defesa rigorosa da propriedade privada;

  • políticas de segurança punitivas.

Quando a escola torna-se um espaço central de disputa, porque define a formação moral das futuras gerações.

Isto porque a moral privada converte-se, portanto, em moral legislativa.


Ética política conservadora como prática social


Tendo em vista que a moral religiosa não permanece no plano abstrato; mas, ela orienta:

  • voto;

  • mobilização política;

  • produção legislativa;

  • percepção do Estado.

Sendo assim, está se configurando uma ética política prática baseada em quatro pilares:

  1. ordem social;

  2. família tradicional;

  3. propriedade privada;

  4. mérito individual.

Por sua vez, essa ética organiza o comportamento político cotidiano de parte significativa da população.


Considerações Finais


A análise demonstra que o conservadorismo catarinense não pode ser reduzido à conjuntura eleitoral recente. Posto que trata-se de uma formação histórica na qual religião, cultura do trabalho e memória política estruturam uma moral pública.

Enquanto que a ideologia de direita no estado emerge como ética social aplicada, em uma forma de compreender justiça, autoridade e cidadania. Já a religião fornece a linguagem moral; o trabalho fornece legitimação social; e, a política, institucionaliza esses valores. Que favorece o mesmo campo social.

Conclui-se, portanto, que, em Santa Catarina, a disputa política é também disputa moral, na qual diferentes projetos de sociedade competem pela definição legítima do bem comum. Posto que a moral se transformou em ideologia dominante.


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*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).

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