ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE ARISTÓTELES E MARX SOBRE A TEORIA DO VALOR

ANÁLISE COMPARATIVA ENTRE ARISTÓTELES E MARX SOBRE A TEORIA DO VALOR

Luiz Antonio Sypriano¹


RESUMO

O presente artigo analisa a relação entre Aristóteles e Karl Marx no que concerne à teoria do valor, destacando o reconhecimento marxiano do filósofo grego como o primeiro pensador a identificar a problemática da forma de valor. A partir da leitura do Livro I d' O Capital, demonstra-se que Aristóteles percebeu a necessidade de igualdade e comensurabilidade na troca de mercadorias, mas não pôde determinar sua substância histórica devido às limitações da sociedade escravocrata grega. Marx, por sua vez, identifica o trabalho humano abstrato socialmente necessário como fundamento do valor, superando o limite aristotélico por meio da análise das relações sociais do capitalismo. O estudo evidencia que a compreensão científica do valor depende das condições históricas que universalizam o trabalho como mercadoria, revelando a articulação entre ontologia social, economia política e método dialético.


Palavras-chave: Teoria do Valor; Aristóteles; Karl Marx; Trabalho Abstrato; Forma-Mercadoria.


INTRODUÇÃO


A teoria do valor ocupa posição central na tradição da economia política. Entre seus antecedentes mais remotos encontra-se Aristóteles (384-322 a.C.), cuja reflexão sobre a troca na Ética a Nicômaco antecipou a problemática da equivalência entre bens distintos. Karl Marx (1818-1883), no Livro I de O Capital, reconhece explicitamente essa contribuição, afirmando que o filósofo grego foi o primeiro a analisar a forma de valor, embora limitado pelas condições históricas da Antiguidade.

Este artigo investiga a relação teórica entre Aristóteles e Marx, examinando: a descoberta aristotélica da igualdade na troca; os limites históricos dessa análise; a superação marxiana mediante a teoria do valor-trabalho; e, o papel do método dialético na compreensão da forma-mercadoria.


ARISTÓTELES E A DESCOBERTA DA IGUALDADE NA TROCA


Na Ética a Nicômaco, Aristóteles analisa a justiça distributiva e corretiva, incluindo a justiça nas trocas. O pensador afirma que “não há troca sem igualdade, nem igualdade sem comensurabilidade” (ARISTÓTELES, 1991). Tal formulação demonstra que o filósofo percebeu a necessidade de uma medida comum que tornasse comparáveis mercadorias qualitativamente distintas.

Ao examinar a troca entre uma casa e uma cama, por exemplo, Aristóteles identifica que bens diferentes devem ser equiparados para que a permuta ocorra. Essa percepção constitui, segundo Marx, uma intuição genial da forma de valor: para que haja troca, é necessário que os objetos assumam uma relação de equivalência.

Contudo, Aristóteles não identificou a substância dessa igualdade. Ele reconheceu a forma, mas não determinou seu fundamento social.


O LIMITE HISTÓRICO DA SOCIEDADE ESCRAVOCRATA


Segundo Marx (2013), o limite aristotélico deriva do contexto histórico da pólis grega. Isto porque a sociedade escravocrata baseava-se na desigualdade natural entre homens livres e escravos, o que impedia a concepção do trabalho como categoria universal.

Posto que na Antiguidade:

  • O trabalho manual era atividade servil.

  • Não existia a generalização da forma mercadoria.

  • A igualdade jurídica entre produtores era inexistente.

Por isto que Marx afirma que Aristóteles não pôde descobrir que, na expressão de valor, “todos os trabalhos são reduzidos a trabalho humano igual” (MARX, 2013). Por conseguinte, a ausência dessa categoria histórica impossibilitou a formulação da teoria do valor-trabalho.


MARX E A DESCOBERTA DA SUBSTÂNCIA DO VALOR


Em O Capital, Marx demonstra que a substância do valor é o trabalho humano abstrato socialmente necessário. Diferentemente de Aristóteles, ele identifica que a igualdade na troca decorre da redução das diversas formas concretas de trabalho a uma mesma medida social.

Sendo que o trabalho abstrato socialmente necessário, para Marx, é o dispêndio de energia humana (cérebro, músculos, nervos) desprovido de suas características específicas, servindo como a substância que cria o valor das mercadorias no capitalismo. Ele representa a média de tempo socialmente exigida para a produção, tornando trabalhos concretos diferentes comparáveis e intercambiáveis no mercado.

Por conseguinte, a teoria do valor-trabalho em Marx estabelece que:

  • O valor não é propriedade natural da mercadoria.

  • O valor é relação social historicamente determinada.

  • O tempo médio de trabalho socialmente necessário mede a magnitude do valor.

Essa descoberta só se torna possível no capitalismo, onde o trabalho assalariado se generaliza e os produtores aparecem formalmente como iguais no mercado.


MEDIAÇÃO FILOSÓFICA: HEGEL E FEUERBACH


A superação marxiana também depende de sua formação filosófica. O método dialético herdado de Georg Wilhelm Friedrich Hegel permite compreender a mercadoria como unidade de contrários (valor de uso e valor). Já o materialismo de Ludwig Feuerbach contribui para a crítica ao idealismo abstrato.

Marx, por sua vez, reelabora esses referenciais ao inserir a análise das relações sociais concretas de produção. Assim, a forma-mercadoria é entendida não como categoria lógica pura, mas como forma social historicamente constituída.


ANÁLISE COMPARATIVA:


Elemento


Aristóteles


Marx

Troca:

Proporcionalidade justa

Forma social do valor

Igualdade:

Percebe a equivalência

Identifica o trabalho abstrato

Trabalho:

Atividade servil

Substância do valor

Contexto:

Escravidão

Capitalismo

Alcance:

Intuição formal

Explicação científica



CONCLUSÃO


A relação entre Aristóteles e Marx evidencia uma continuidade crítica na história do pensamento. Enquanto Aristóteles identificou o problema fundamental da troca — a necessidade de igualdade — mas não pôde descobrir sua substância. Em Marx, apoiado nas condições históricas do capitalismo e no método dialético, revelou que essa igualdade se fundamenta no trabalho humano abstrato.

Dessa forma, a teoria do valor só pode ser plenamente compreendida quando as condições sociais tornam o trabalho uma mercadoria universal.

Nesse sentido, a análise demonstra que as categorias econômicas são historicamente determinadas e que sua inteligibilidade depende do desenvolvimento concreto das relações sociais.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fenomenologia do Espírito. Petrópolis: Vozes, 2002.

FEUERBACH, Ludwig. A essência do cristianismo. Petrópolis: Vozes, 2007.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo, 2013.

_____. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Boitempo, 2004.


¹(Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia e Filosofia da Educação).

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