ANÁLISE CRÍTICA SOBRE A MORAL DOS OPRIMIDOS: RESSENTIMENTO, IDEOLOGIA E ADESÃO DA CLASSE TRABALHADORA À ORDEM SOCIAL

ANÁLISE CRÍTICA SOBRE A MORAL DOS OPRIMIDOS:

RESSENTIMENTO, IDEOLOGIA E ADESÃO DA CLASSE TRABALHADORA À ORDEM SOCIAL


*Luiz Antonio Sypriano


RESUMO

O presente artigo analisa por que setores empobrecidos da classe trabalhadora frequentemente aderem à moral dos grupos dominantes em vez de orientarem sua ação política para a transformação social. A partir de referenciais do materialismo histórico, da teoria da hegemonia e da sociologia da moral, demonstra-se que a dominação contemporânea opera menos pela coerção direta e mais pela produção de consentimento simbólico. As características desses, como a humilhação cotidiana, o ressentimento social, a moral religiosa, a distinção simbólica e a aporofobia são convertidos em mecanismos de legitimação da desigualdade. Argumenta-se que a ideologia dominante desloca o conflito estrutural de classe para conflitos morais individuais, produzindo punição entre iguais e protegendo as relações de exploração. Conclui-se que a adesão à ordem não decorre de ignorância individual, mas de um sistema complexo de internalização ideológica que transforma sofrimento social em identidade moral.


Palavras-chave: ideologia; hegemonia; ressentimento; classe trabalhadora; religião; aporofobia.


INTRODUÇÃO


A adesão política de setores empobrecidos da classe trabalhadora a projetos conservadores constitui um dos fenômenos centrais da sociologia política contemporânea. Em vez de se reconhecerem como sujeitos coletivos de transformação social, tais grupos frequentemente defendem valores morais e programas econômicos que reproduzem sua própria subordinação.

Através da tradição marxista, já se apontava que “as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante” (MARX; ENGELS, 2007). Entretanto, a dominação contemporânea não opera apenas pela força material, mas pela internalização simbólica de valores, representando a ideologia dominante. Assim, a exploração econômica é mascarada por uma moral universalizada que transforma desigualdades estruturais em responsabilidades individuais.

Por conseguinte, o objetivo deste artigo é analisar os mecanismos sociais e ideológicos que produzem essa adesão à ordem, articulando contribuições de Marx, Gramsci, Bourdieu, Benjamin e debates recentes da sociologia brasileira.


IDEOLOGIA E NATURALIZAÇÃO DA DESIGUALDADE


A partir do materialismo histórico, constata-se que a ideologia não é simples erro cognitivo, mas forma social necessária. Parte-se da compreensão de que a estrutura econômica produz representações que tornam a dominação legítima. Dessa forma, a exploração aparece como mérito ou destino.

Para Marx e Engels (2007), a classe dominante não domina apenas materialmente, mas também intelectualmente. Isto posto, a ideologia converte relações históricas em natureza social. Desta forma, a pobreza deixa de ser produto do sistema produtivo e passa a ser interpretada como falha moral individual.

Essa inversão cria o fenômeno conhecido como falsa consciência, ou seja, quando o explorado interpreta o mundo segundo os interesses do explorador.


HEGEMONIA E PRODUÇÃO DE CONSENTIMENTO


Gramsci (2001) amplia essa análise ao demonstrar que o poder moderno depende da hegemonia cultural. Afirma ainda que o domínio não se mantém somente pela repressão estatal, mas pela formação de um senso comum.

Por conseguinte, as instituições como família, mídia e religião produzem consenso moral. Assim, a classe trabalhadora passa a interpretar a realidade com categorias da ordem dominante, como mérito, disciplina, obediência e punição.

Por isto, a luta de classes é deslocada para uma luta moral. Enquanto o conflito deixa de ser econômico e torna-se ético: bons contra maus, honestos contra corruptos, trabalhadores contra “imorais”.


HUMILHAÇÃO SOCIAL, RESSENTIMENTO E DISTINÇÃO


A experiência cotidiana das classes populares não é apenas privação material, mas desvalorização simbólica. Sendo assim, a humilhação social produz ressentimento. Contudo, esse ressentimento não se dirige necessariamente ao capital.

Segundo Bourdieu (2011), os indivíduos buscam distinção simbólica quando carecem de capital econômico. Posto que a moral rígida torna-se recurso de valorização social. Daí é que surge então a identidade do “pobre honesto”.

Essa identidade implica diferenciação interna: quando o trabalhador não se aproxima de sua classe, mas afasta-se do “pobre pior”. Ao fazer com que a solidariedade horizontal seja substituída pela hierarquia moral interna.


RELIGIÃO, CULPA E CAPITALISMO COMO MORAL


A religiosidade frequentemente opera como uma linguagem de reconhecimento e disciplina social. Em certos contextos de precariedade, ela oferece pertencimento e sentido. Contudo, pode também legitimar a desigualdade, ao valorizar a resignação e a recompensa futura.

Benjamin (2013) interpreta o capitalismo como religião permanente, isto porque não há redenção, apenas culpa infinita e dívida contínua. Ao afirmar que o sucesso torna-se prova moral; enquanto o fracasso, um pecado capital.

Assim, a exploração econômica assume forma moral, posto que o pobre não é explorado — ele falhou na sua condução moral.


A FALSA MORAL UNIVERSAL E A PUNIÇÃO COLETIVA


A ideologia dominante desloca a responsabilidade estrutural para os indivíduos desviantes. Posto que uma transgressão singular passa a justificar punição generalizada.

Por sua vez, forma-se a lógica do castigo social, ao combater o “imoral” substitui combater a exploração.

Esse mecanismo produz aporofobia (CORTINA, 2017), isto é, o pobre rejeita o próprio pobre para preservar sua dignidade simbólica. Sendo assim, o conflito de classe é transformado em guerra moral interna.


MEDO, INSEGURANÇA E REJEIÇÃO À TRANSFORMAÇÃO SOCIAL


A vida material precária gera sempre uma aversão ao risco. Ao se entender que a transformação radical aparece como ameaça maior que a injustiça permanente. Posto que a estabilidade, ainda que desigual, parece mais segura que a mudança.

Além disso, a fragmentação do trabalho contemporâneo impede experiências coletivas. Isto porque o trabalhador percebe-se como indivíduo concorrente, não como classe.

Desta forma, a ideologia dominante completa o processo, ao oferecer promessa de ascensão individual em lugar de emancipação coletiva.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A adesão de setores empobrecidos à moral dos opressores não é um paradoxo psicológico, mas o resultado de um sistema social coerente. Com isso, a dominação moderna combina exploração econômica com reconhecimento simbólico seletivo.

Ainda mais quando a humilhação gera ressentimento; ressentimento busca distinção; distinção produz moral punitiva; a punição protege a ordem.

Portanto, a ideologia transforma sofrimento estrutural em identidade moral individual. Dessa forma, a classe trabalhadora pode defender a ordem não apesar da exploração, mas precisamente por meio dos mecanismos simbólicos que a tornam suportável.

Considera-se que a transformação social exige, portanto, não apenas mudança econômica, mas ruptura da estrutura moral que converte desigualdade em virtude, para a verdadeira emancipação humana.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


BENJAMIN, Walter. O capitalismo como religião. São Paulo: Boitempo, 2013.

BOURDIEU, Pierre. A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2011.

CORTINA, Adela. Aporofobia, a aversão ao pobre: um desafio para a democracia. São Paulo: Contracorrente, 2017.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

_____. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).

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