A PLATAFORMIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA NO PARANÁ: CAPITALISMO DIGITAL, CONTROLE ALGORÍTMICO E DEPENDÊNCIA NO IMPERIALISTA RENTISTA
A PLATAFORMIZAÇÃO DA EDUCAÇÃO PÚBLICA NO PARANÁ:
CAPITALISMO DIGITAL, CONTROLE ALGORÍTMICO E DEPENDÊNCIA NO IMPERIALISTA RENTISTA
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa o processo de plataformização da educação pública no estado do Paraná, compreendendo-o como expressão da racionalidade do capitalismo na era digital, como expressão do imperialista rentista, das suas organizações. A partir da Teoria Crítica, do materialismo histórico-dialético e de contribuições da crítica latino-americana da dependência, investiga-se a digitalização compulsória do ensino como forma de privatização e submissão velada da escola pública, contribuindo para reestruturação do trabalho docente, do controle algorítmico das práticas pedagógicas e da inserção subordinada do sistema educacional brasileiro à economia imperialista de dados. O estudo se fundamenta em análise documental, dados do Portal da Transparência do Paraná, relatórios do Banco Mundial e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, bem como em pesquisas empíricas recentes sobre o ensino plataformizado. Argumenta-se que a digitalização do ensino, longe de promover autonomia pedagógica ou democratização do conhecimento, intensifica a lógica da exploração do trabalho cognitivo, reforça a dependência tecnológica dos países periféricos e contribui para a constituição de uma nova fração da classe trabalhadora: o infoproletariado.
Palavras-chave: Educação pública; Plataformização; Capitalismo digital; Capitalismo dependente; Paraná.
Introdução
Nas últimas décadas, a educação pública tem sido progressivamente reconfigurada pelas transformações estruturais do capitalismo em sua fase imperialista, financeirizada e digital. No Brasil, esse movimento assume contornos particularmente agudos em estados que se colocam como laboratórios de políticas neoliberais, como é o caso do Paraná. Com mais firmeza, sob a gestão do governo liberal de Ratinho Jr., observa-se uma aceleração do processo de plataformização do ensino público, sustentado por vultosos contratos com empresas privadas de tecnologia, majoritariamente estrangeiras, e legitimado por discursos de inovação, eficiência e modernização, sustentado pelo poder massivo midiático.
Por conseguinte, a digitalização do ensino, entretanto, não pode ser compreendida como um fenômeno meramente técnico ou pedagógico. Mas, trata-se de um processo político-econômico profundamente articulado à reestruturação produtiva contemporânea, à economia de dados e à nova morfologia do trabalho. Inserida nesse contexto, a educação passa a desempenhar papel estratégico na formação de uma força de trabalho adaptada às exigências do capitalismo digital, orientada por métricas, competências e habilidades demandadas pelo mercado.
Assim, este artigo tem como objetivo analisar criticamente a plataformização da educação pública no Paraná, evidenciando suas conexões com o neoliberalismo digital, com os organismos financeiros internacionais e com a condição dependente do capitalismo brasileiro. Busca-se, portanto, demonstrar que tal processo resulta na intensificação do controle social, na expropriação da autonomia docente, na privatização dos dados educacionais e na conformação de subjetividades ajustadas à lógica do capital.
Fundamentação teórica: tecnologia, capitalismo digital e dependência
Segundo Marx, o capital somente se realiza ao se materializar por meio de um processo que ocorre no espaço concreto da produção e circulação social de mercadorias. Portanto, parte-se do pressuposto de que a tecnologia não é neutra, mas expressão histórica das relações sociais de produção. No capitalismo contemporâneo, a digitalização do espaço social representa um momento avançado da totalização do que Milton Santos (2006 [1996]) denominou de meio técnico-científico-informacional, no qual ciência, técnica e informação tornam-se a própria substância do espaço geográfico.
Após a crise estrutural de 2008, o capitalismo intensificou sua dinâmica de destruição e reestruturação produtiva, avançando sobre novas esferas da vida social. Como assinala Antunes (2020a), esse processo altera profundamente a morfologia do trabalho, expandindo formas precarizadas, uberizadas e digitalizadas de exploração. É o que se denomina de Quarta Revolução Industrial, difundida pelo Fórum Econômico Mundial (Schwab, 2016), que expressa ideologicamente essa reconfiguração, apresentando a mediação digital da economia sob demanda como sinônimo de liberdade, autonomia e empreendedorismo.
Já no plano educacional, tais transformações reatualizam a teoria do Capital Humano (Schultz, 1971), deslocando a produção de valor da exploração de recursos naturais para a ativação permanente das capacidades cognitivas dos indivíduos (Paltrinieri, 2017). Enquanto a educação passa, assim, a ser concebida como investimento econômico e mecanismo de adaptação da força de trabalho às exigências do mercado imperialista.
Em relação aos países periféricos, esse processo se articula às dinâmicas da dependência. Conforme Marini e Bambirra, a inserção subordinada na economia mundial implica a internalização de formas avançadas de exploração que reproduzem a dominação externa. Pois, no contexto digital, essa dependência assume a forma do colonialismo de dados, no qual países da América do Sul consomem tecnologias produzidas nos países imperialistas, enquanto entregam informações estratégicas de sua população às grandes corporações.
Plataformização do ensino e neotecnicismo pedagógico
A plataformização pode ser compreendida como um processo de reconfiguração da própria Internet, intensificado a partir da década de 2010, quando plataformas digitais passaram a sobrepor-se à web aberta, organizando interações sociais, econômicas e cognitivas, segundo lógicas algorítmicas privadas (Israel, 2020). Esse movimento, inicialmente restrito às redes sociais e ao mundo do trabalho, estende-se atualmente aos ambientes educacionais.
No campo pedagógico, a plataformização dá origem a um neotecnicismo, em sintonia com correntes instrumentalistas e behavioristas. Conforme Saviani (2010), tais correntes deslocam o centro do processo educativo do professor e do aluno para as técnicas, os métodos e os instrumentos, com vistas à racionalização e à otimização do ensino. Em sua versão digital, esse neotecnicismo implica a captura das decisões pedagógicas pelas plataformas, configurando uma forma de privatização velada da escola pública.
O resultado é o confisco da autonomia docente: os conteúdos, os ritmos de aprendizagem e as formas de avaliação passam a ser definidos por sistemas algorítmicos, enquanto o trabalho do professor é reduzido à execução de tarefas previamente programadas. Posto que a educação deixa de ser um processo formativo integral para tornar-se um conjunto de atividades mensuráveis, monitoráveis e comparáveis.
O caso do Paraná: plataformização, controle e ingerência internacional
O estado do Paraná destaca-se como protagonista nacional na plataformização do ensino público. Entre os anos de 2021 e 2024, o governo estadual destinou aproximadamente R$153 milhões à contratação de plataformas educacionais privadas, conforme levantamento de Israel (2024). Entre elas, destacam-se Google Classroom (EUA), Microsoft Power BI (EUA), Education First (Suíça), Matific (Austrália) e Quizizz (EUA), além de parcerias sem custo direto, como a Khan Academy, associada a fundações empresariais.
Mas, a Secretaria de Estado da Educação do Paraná (Seed-PR) adota estratégias de ocultamento do caráter privado dessas plataformas, rebatizando-as com selos governamentais, como “Sala Virtual Paraná”. Na prática, os contratos configuram licenças temporárias de software como serviço (SaaS), reforçando a dependência tecnológica do Estado e a perda de soberania sobre os dados educacionais.
Enquanto o uso do Power BI, por exemplo, permite um controle multiescalar e em tempo real sobre professores, estudantes e escolas, estabelecendo metas cujo descumprimento pode resultar na destituição de direções escolares, interferindo nos processos democráticos internos. Soma-se a isso a introdução de tecnologias de reconhecimento facial e monitoramento emocional, denunciadas em relatórios recentes (Israel et al., 2023).
Assim, esse arranjo sociotécnico é impulsionado por programas financiados por organismos internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a exemplo do projeto Educação para o Futuro. Os documentos que fundamentam tais financiamentos enfatizam a necessidade de adequar a educação às demandas do mercado de trabalho digital, revelando a ingerência direta desses organismos na formulação das políticas educacionais estaduais.
Digitalização, trabalho docente e infoproletariado
Constata-se que a digitalização compulsória do ensino impacta diretamente o trabalho docente, intensificando sua precarização. No Paraná, mais de 27 mil professores atuam sob contratos temporários (PSS), em condições de instabilidade e vigilância permanente. Conforme denunciam docentes e entidades sindicais, as plataformas permitem à secretaria monitorar o uso dos recursos tecnológicos em sala de aula, transformando o professor em objeto de controle algorítmico.
Como destaca Antunes (2020a), a exploração contemporânea do trabalho não se limita mais à energia corporal, mas se estende às capacidades cognitivas e afetivas. No ensino plataformizado, o aprendizado em tempo real torna-se fonte de extração de valor, inserindo professores e estudantes na lógica do trabalho digital. Desse modo, a educação contribui para a formação do infoproletariado, classe trabalhadora submetida à exploração informacional e à vigilância contínua.
Considerações Finais
Afirma-se que a plataformização da educação pública no Paraná revela-se como uma estratégia central do capitalismo digital, articulando privatização, controle social e dependência tecnológica. Longe de representar um avanço democrático, a digitalização do ensino reforça a lógica do capital, subordina o processo educativo às exigências do mercado capitalista e aprofunda a expropriação do trabalho docente.
Ao se submeter às diretrizes de organismos financeiros internacionais e às soluções das big techs, o Estado paranaense abdica de sua soberania educacional e submete sua população a uma nova forma de colonialismo: o extrativismo de dados.
Portanto, resistir a esse processo implica reafirmar a educação pública como bem comum, fortalecer o trabalho docente e recuperar a centralidade da formação humana integral frente à racionalidade instrumental do capital.
Referência Bibliográfica
ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão. São Paulo: Boitempo, 2020.
ISRAEL, Carolina Batista. Do trabalho digital ao ensino plataformizado. Terra Livre, 2024.
_______ et al. Relatório sobre vigilância algorítmica na educação paranaense. 2023.
MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: Edusp, 2006.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. Campinas: Autores Associados, 2010.
SCHULTZ, Theodore. O valor econômico da educação. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.
SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. São Paulo: Edipro, 2016.
RIVERA CUSICANQUI, Silvia. Ch’ixinakax utxiwa. Buenos Aires: Tinta Limón, 2021.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná)
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