A CATEGORIA DA CONTRADIÇÃO NA INVESTIGAÇÃO DA REALIDADE CONCRETA E NA TÁTICA-ESTRATÉGIA REVOLUCIONÁRIA NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA CONTEMPORÂNEA

A CATEGORIA DA CONTRADIÇÃO NA INVESTIGAÇÃO DA REALIDADE CONCRETA E NA TÁTICA-ESTRATÉGIA REVOLUCIONÁRIA NO BRASIL E NA AMÉRICA LATINA CONTEMPORÂNEA

*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa a categoria da contradição no interior do materialismo dialético e histórico como fundamento da investigação científica da realidade concreta e como mediação entre teoria e práxis revolucionária. Parte-se da compreensão da sociedade capitalista como totalidade contraditória, com ênfase em sua fase rentista-imperialista, para que se possa articular a contradição como elemento central da tática e da estratégia revolucionária da classe trabalhadora no Brasil e na América Latina. Sustenta-se, por conseguinte, que a apreensão científica das contradições estruturais do capitalismo dependente é condição necessária para a passagem da classe trabalhadora da consciência em si à consciência para si, orientando a luta anticapitalista, anti-imperialista e socialista no contexto contemporâneo.


Palavras-chave: Contradição; Totalidade; Imperialismo; Práxis revolucionária; Socialismo.


Introdução


Parte-se da compreensão que a categoria da contradição ocupa posição central no marxismo enquanto fundamento ontológico da realidade social, princípio metodológico da investigação científica e base da práxis revolucionária. Diferentemente da lógica formal, aristotélica-tomista, que considera a contradição como erro, o materialismo dialético a compreende como expressão objetiva do movimento real da sociedade, constituindo o motor do desenvolvimento histórico.

Já no capitalismo contemporâneo, marcado pela hegemonia do capital financeiro, pela intensificação da dependência estrutural e pela ofensiva imperialista sobre os povos da periferia, a análise das contradições assume papel ainda mais decisivo. Enquanto no Brasil e na América Latina, tais contradições se expressam na combinação entre superexploração do trabalho, espoliação dos bens comuns, subordinação do Estado nacional e bloqueio histórico da soberania popular.

Portanto, este artigo tem como objetivo demonstrar que a categoria da contradição, ao mesmo tempo em que permite a investigação científica da realidade concreta, constitui-se em fundamento da tática e da estratégia revolucionária voltadas à superação do capitalismo dependente e à construção de uma sociedade socialista.


A Contradição como Categoria Científica da Realidade Concreta


Com fundamento no materialismo dialético, a contradição não é um produto do pensamento, mas uma determinação objetiva da realidade. Marx (2013) afirma que as categorias científicas são formas de ser socialmente determinadas, isto é, expressões teóricas das relações reais existentes; por isso que a contradição reflete o caráter histórico e transitório das formações sociais.

Por conseguinte, a investigação científica marxista parte do pressuposto de que a realidade - do modo de produção capitalista - é contraditória em sua estrutura e dinâmica. Destarte, o método dialético não busca eliminar as contradições; mas, apreendê-las em sua efetividade objetiva, identificando a unidade dos opostos que estrutura cada fenômeno social (ENGELS, 2015).

Dessa forma, a contradição torna-se chave para a compreensão da realidade concreta, permitindo superar análises fragmentadas e captar o movimento histórico da sociedade como um todo articulado.


Totalidade, Contradição e Capitalismo Rentista-Imperialista


Sendo que a categoria da totalidade é inseparável da contradição, no modo de produção capitalista. Para Lukács (2003), somente a apreensão da sociedade, como totalidade concreta, permite compreender o capitalismo como um sistema histórico específico, marcado por antagonismos internos insolúveis.

Na fase imperialista do capitalismo, definida por Lenin (2012) como o domínio dos monopólios e do capital financeiro, as contradições estruturais se aprofundam. Isto porque o capitalismo rentista subordina a produção às exigências da valorização financeira, intensificando a exploração do trabalho e a espoliação dos territórios periféricos.

Enquanto na América Latina, essa dinâmica assume a forma do capitalismo dependente, no qual a acumulação se realiza por meio da superexploração da força de trabalho, da transferência de valor para os centros imperialistas e da fragilização permanente da soberania nacional (MARINI, 2011; BAMBIRRA, 2013).


A Contradição como Fundamento da Tática Revolucionária


Afirma-se, peremptoriamente, que a contradição fundamental do capitalismo — entre capital e trabalho — manifesta-se, no plano social e político, como antagonismo de classes. Esse antagonismo não pode ser resolvido no interior da ordem capitalista, pois decorre de sua própria lógica de funcionamento.

Consta-se, a partir das epistemologias, que a análise científica dessas contradições fornece os elementos para a definição da tática revolucionária. Isto posto, verifica-se que a tática consiste na intervenção concreta sobre as contradições reais da conjuntura, explorando suas fissuras e potencializando a luta de classes.

Portanto, no Brasil e na América Latina, isso implica atuar sobre contradições como:

  • capital financeiro versus soberania nacional;

  • agronegócio e mineração versus povos originários e trabalhadores do campo;

  • privatização dos bens públicos versus direitos sociais;

  • autoritarismo de Estado versus democracia popular.

Para tanto, é preciso compreender que a tática revolucionária não se confunde com pragmatismo imediato, mas se orienta pela compreensão científica da realidade concreta, articulando lutas econômicas, políticas e ideológicas.


Contradição, Consciência de Classe e Práxis


É importante a compreensão de que a contradição desempenha papel central na formação da consciência de classe. Para isso, Marx distingue a classe em si — definida pela posição objetiva nas relações de produção — da classe para si, que se reconhece como sujeito histórico (MARX, 2008).

Com isso, a passagem da consciência em si à consciência para si não ocorre automaticamente, mas por meio da práxis social e política. Quando a vivência das contradições do capitalismo, mediada pela organização e pela teoria revolucionária, transforma a experiência imediata da exploração em consciência crítica e ação coletiva.

Portanto, a práxis, entendida como unidade entre teoria e prática, é o espaço em que a contradição deixa de ser apenas objeto de análise e se converte em força material de transformação social.


A Contradição como Estratégia da Construção Socialista


No plano estratégico, a contradição orienta a luta pela superação do capitalismo e pela construção de uma nova totalidade social. A revolução socialista não representa apenas a resolução de conflitos imediatos, mas a negação histórica da ordem capitalista e a criação de novas relações sociais.

Isto porque, no processo dialético de negação da negação, se expressa a superação do capitalismo por meio da construção consciente de uma sociedade fundada: na propriedade social dos meios de produção, na planificação democrática da economia e na centralidade das necessidades humanas.

Enquanto que, na América Latina, essa estratégia assume caráter anti-imperialista e anticolonial, articulando a luta socialista à defesa da soberania, da autodeterminação dos povos e da integração regional dos trabalhadores (QUIJANO, 2005; FERNANDES, 2006).


Considerações Finais


Como visto, a categoria da contradição constitui o núcleo da investigação científica marxista da realidade concreta e o fundamento da tática e da estratégia revolucionária contemporânea. Ao revelar o caráter histórico e contraditório do capitalismo rentista-imperialista, ela fornece os instrumentos teóricos e políticos para a ação consciente da classe trabalhadora.

Já no Brasil e na América Latina, onde o capitalismo dependente aprofunda a exploração e a dominação imperialista, a apreensão das contradições estruturais é condição indispensável para a construção de um projeto socialista. Assim, a contradição não é apenas uma categoria analítica, mas o princípio ativo da transformação revolucionária da realidade social.


Referência Bibliográfica


BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2013.

ENGELS, Friedrich. Anti-Dühring. São Paulo: Boitempo, 2015.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2006.

LENIN, Vladimir I. Imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2012.

LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.

MARX, Karl. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

_____. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber. Buenos Aires: CLACSO, 2005.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

NOTA POLÍTICA Contra o Sistema de Avaliação “Se Liga” e a Fraude Educacional na Rede Pública Estadual do Paraná

Análise da Campanha Salarial dos Servidores Docentes da Rede Pública Estadual do Paraná: Política de Valorização, Carreira e Equiparação Salarial - Disputa entre Governo e Sindicato com Prejuízos para a Categoria.

O SENTIDO DA PALAVRA NA LINGUAGEM PARA WITTGENSTEIN