A LUTA DE CLASSES NO MANIFESTO COMUNISTA E SUA ATUALIDADE NO MARXISMO LATINO-AMERICANO
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa o conceito de luta de classes tal como formulado por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto do Partido Comunista (1848), compreendendo-o como categoria central do materialismo histórico e fundamento do programa político revolucionário do proletariado. Em seguida, discute-se a atualização dessa concepção no marxismo latino-americano contemporâneo, considerando as especificidades históricas da dependência, do imperialismo e das formações sociais heterogêneas. Por fim, examina-se a contribuição de Nahuel Moreno, no interior do trotskismo, destacando a centralidade da classe operária, o papel do partido revolucionário e a teoria da revolução permanente. Conclui-se que a luta de classes permanece como chave interpretativa e estratégica para a compreensão das contradições do capitalismo contemporâneo e para a emancipação humana.
Palavras-chave: Luta de classes. Marx e Engels. Manifesto Comunista. Marxismo latino-americano. Nahuel Moreno.
Abstract
This article analyzes the concept of class struggle as formulated by Karl Marx and Friedrich Engels in the Communist Manifesto (1848), understanding it as the central category of historical materialism and the foundation of the proletariat’s revolutionary political program. It then discusses the updating of this conception in contemporary Latin American Marxism, considering the historical specificities of dependency, imperialism, and heterogeneous social formations. Finally, it examines the contribution of Nahuel Moreno within Trotskyism, highlighting the centrality of the working class, the role of the revolutionary party, and the theory of permanent revolution. The article concludes that class struggle remains a key interpretative and strategic category for understanding the contradictions of contemporary capitalism and for human emancipation.
Keywords: Class struggle. Marx and Engels. Communist Manifesto. Latin American Marxism. Nahuel Moreno.
Introdução
A luta de classes constitui o eixo estruturante da teoria social elaborada por Karl Marx e Friedrich Engels, adquirindo formulação clássica no Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848. Desde então, essa categoria tornou-se fundamental não apenas para a interpretação histórica do regime capitalista, mas também para a formulação de estratégias políticas orientadas à superação da exploração e da dominação de classe.
Apesar das transformações ocorridas no capitalismo desde o século XIX, a luta de classes mantém sua atualidade, manifestando-se sob novas formas, especialmente nas sociedades periféricas e dependentes.
O objetivo deste artigo é analisar a concepção de luta de classes presente no Manifesto Comunista e examinar sua atualização no marxismo latino-americano contemporâneo, com destaque para a contribuição de Nahuel Moreno.
Por conseguinte, busca-se demonstrar que, longe de constituir um conceito datado, a luta de classes permanece como categoria central para a compreensão das contradições do capitalismo globalizado, para a elaboração de um projeto emancipatório de toda a humanidade.
A luta de classes no Manifesto Comunista
No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels afirmam que “a história de todas as sociedades até hoje existentes é a história da luta de classes”. Tal afirmação sintetiza a concepção materialista da história, segundo a qual os processos históricos são determinados, em última instância, pelos conflitos entre classes sociais constituídas a partir das relações de produção.
Burguesia e proletariado
Na sociedade capitalista, os antagonismos de classe tendem a se simplificar, polarizando-se entre burguesia e proletariado. A burguesia define-se como a classe detentora dos meios de produção, enquanto o proletariado é a classe despossuída, que depende da venda de sua força de trabalho para sobreviver. Essa relação é estruturalmente contraditória, pois a acumulação de capital pressupõe a exploração do trabalho assalariado.
Marx e Engels destacam que a burguesia exerceu um papel historicamente revolucionário ao destruir as relações feudais e desenvolver forças produtivas sem precedentes. No entanto, ao fazê-lo, engendrou contradições insolúveis, expressas nas crises de superprodução e na incapacidade de controlar as forças sociais que ela própria colocou em movimento.
O proletariado como sujeito revolucionário
O Manifesto Comunista identifica o proletariado como a classe revolucionária por excelência. Diferentemente das classes oprimidas do passado, o proletariado não pode se emancipar sem abolir todas as formas de propriedade privada dos meios de produção e, consequentemente, todas as classes sociais.
Ao lutar por sua própria emancipação, o proletariado luta pela emancipação de toda a humanidade.
Com a concentração dos trabalhadores na grande indústria, a dissolução do isolamento individual e a formação de organizações coletivas criam as condições materiais para a tomada de consciência de classe.
Assim, a burguesia produz seus próprios “coveiros”, pois gera a classe social destinada a superar o capitalismo.
Estado, revolução e internacionalismo
Para Marx e Engels, o Estado moderno é um instrumento de dominação de classe, definido como um comitê para gerir os negócios comuns da burguesia.
Diante disso, a revolução proletária implica a conquista do poder político e a utilização do Estado como instrumento transitório para suprimir as bases materiais da sociedade de classes. E é com o desaparecimento das classes que o Estado perde seu caráter político.
Porém, dado o caráter mundial do capitalismo, a luta do proletariado assume necessariamente uma dimensão internacional, sintetizada na consigna “Proletários de todos os países, uni-vos”.
A luta de classes no marxismo latino-americano
O marxismo latino-americano retoma a concepção clássica da luta de classes, reinterpretando-a à luz das especificidades históricas da região.
Pois, marcada pela dependência econômica, pela herança colonial e por formações sociais heterogêneas, a América Latina apresenta particularidades que exigem uma análise concreta das relações de classe.
Dependência e superexploração do trabalho
Para Ruy Mauro Marini, ao formular a teoria da dependência, demonstra que a burguesia latino-americana se encontra estruturalmente associada ao capital imperialista.
Condição essa que gera a superexploração do trabalho, intensificando a luta de classes e aprofundando as desigualdades sociais. Ao mesmo tempo leva a transferência de valor para o centro do sistema capitalista mundial, que reforça a subordinação econômica e política da região.
Formações sociais heterogêneas
Autores como René Zavaleta Mercado e José Carlos Mariátegui enfatizam o caráter heterogêneo das formações sociais latino-americanas, nas quais coexistem relações capitalistas, pré-capitalistas e comunitárias.
Nesse contexto, a luta de classes envolve não apenas o proletariado urbano-industrial, mas também camponeses, povos indígenas e trabalhadores informais, segundo os autores, citados acima.
Atualidade da luta de classes
Contrariando teses que anunciam o desaparecimento das classes sociais, o marxismo latino-americano sustenta que a classe trabalhadora se diversificou, mas não deixou de existir.
Isto porque a precarização do trabalho, a informalidade e a chamada “uberização” expressam novas formas da exploração capitalista, reafirmando a centralidade da luta de classes na análise da realidade contemporânea.
Nahuel Moreno e a atualização da luta de classes
Nahuel Moreno (1924-1987), um dos principais teóricos do trotskismo latino-americano, desenvolveu uma interpretação da luta de classes que combina fidelidade aos fundamentos do Manifesto Comunista com a análise concreta das lutas do século XX.
Centralidade da classe operária e do partido
Moreno defende a centralidade da classe operária como sujeito revolucionário, mesmo diante das transformações do capitalismo. Para ele, a consciência de classe não surge espontaneamente, sendo necessária a atuação de um partido revolucionário capaz de intervir na luta de classes e orientar politicamente o proletariado.
Revolução permanente
Inspirado na teoria da revolução permanente de Leon Trotsky (1879-1940), Moreno argumenta que, nos países dependentes, a burguesia é incapaz de realizar tarefas democráticas e nacionais.
Pois, cabe ao proletariado assumir essa tarefa, avançando diretamente para a Revolução Socialista, sem etapas intermediárias.
Marxismo como método vivo
Para Moreno, o marxismo não é um conjunto de dogmas, mas um método vivo de análise da realidade. Sendo que a luta de classes deve ser observada empiricamente, nas revoluções, contrarrevoluções e processos de restauração capitalista, mantendo a teoria marxista em permanente diálogo com a prática política.
Considerações Finais
A análise da luta de classes no Manifesto Comunista e em suas releituras latino-americanas evidencia a atualidade dessa categoria para a compreensão das contradições do capitalismo contemporâneo.
Afirma-se que Marx e Engels forneceram os fundamentos teóricos da luta entre capital e trabalho; em que os marxistas latino-americanos e Nahuel Moreno aprofundaram sua aplicação às realidades concretas da periferia do sistema capitalista.
Assim, a luta de classes permanece não apenas como instrumento analítico, mas como programa político estratégico, orientando à emancipação humana e à construção de uma sociedade fundada na igualdade substantiva e na liberdade coletiva.
Referência Bibliográfica
LOWY, Michael. O marxismo na América Latina. São Paulo: Perseu Abramo, 1999.
MARIÁTEGUI, José Carlos. Sete ensaios de interpretação da realidade peruana. São Paulo: Expressão Popular, 2008.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1973.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2010.
MORENO, Nahuel. Método de interpretação da história argentina. São Paulo: Sundermann, 2004.
ZAVALETA MERCADO, René. Forma classe e forma multidão. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná)
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