O TRABALHO DOMÉSTICO NA PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO DO CAPITALISMO
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa o papel do trabalho doméstico desempenhado majoritariamente pelas mulheres na reprodução da força de trabalho e na acumulação capitalista, à luz da concepção marxista e do feminismo marxista. Parte-se da crítica à naturalização do trabalho reprodutivo como atividade privada e não produtiva, evidenciando sua centralidade para a produção de mais-valia. O texto dialoga especialmente com a obra O arcano da reprodução, de Leopoldina Fortunati, desenvolvida no contexto da campanha Wages for Housework, e com as contribuições de Silvia Federici e da Teoria da Reprodução Social. Discute-se ainda a crítica à igualdade formal no trabalho assalariado e as particularidades do capitalismo neoliberal e periférico. Conclui-se que a emancipação das mulheres está intrinsecamente vinculada à luta anticapitalista e à superação da divisão sexual do trabalho imposta pelo capital.
Palavras-chave: Trabalho doméstico. Reprodução social. Feminismo marxista. Capitalismo. Força de trabalho.
Introdução
No interior da crítica marxista ao capitalismo, o trabalho doméstico ocupa historicamente uma posição marginal, sendo frequentemente tratado como atividade natural, privada ou pré-capitalista. Contudo, a partir das contribuições do feminismo marxista e da Teoria da Reprodução Social, essa compreensão é profundamente questionada.
Atualmente se confirma que o trabalho doméstico e de cuidado, majoritariamente realizado por mulheres, revela-se como um dos pilares fundamentais da reprodução da força de trabalho e, consequentemente, da própria acumulação capitalista.
Nesse debate, destaca-se a obra O arcano da reprodução, da socióloga italiana Leopoldina Fortunati, publicada originalmente em 1981 e recentemente traduzida no Brasil. Desenvolvida no contexto das lutas feministas dos anos 1970, especialmente da campanha Wages for Housework (salários para o trabalho doméstico), a obra sustenta que o trabalho doméstico é produtivo em termos marxistas, pois gera valor ao capital, ainda que não seja remunerado diretamente.
Este artigo tem como objetivo analisar a concepção marxista do trabalho doméstico, articulando produção e reprodução como momentos indissociáveis do processo de acumulação capitalista, com ênfase nas contribuições de Fortunati, Silvia Federici e autoras da Teoria da Reprodução Social (TRS), situando o debate no contexto do capitalismo contemporâneo.
O trabalho doméstico e a reprodução da força de trabalho
Para Marx, a força de trabalho é uma mercadoria peculiar, pois consiste na capacidade viva de trabalhar, que precisa ser continuamente reproduzida para permanecer disponível ao capital. Essa reprodução envolve alimentação, descanso, higiene, cuidado físico e emocional, além da formação de novas gerações de trabalhadores.
Sendo que o trabalho doméstico desempenha, portanto, a função central de garantir que o trabalhador assalariado esteja apto a retornar diariamente ao processo produtivo. Por conseguinte, sem esse trabalho, a produção de mais-valia se tornaria inviável. Assim, embora não ocorra diretamente no espaço da fábrica, o trabalho doméstico constitui o fundamento material da produção capitalista.
Para a métrica de Marx, o valor da força de trabalho corresponde ao tempo de trabalho socialmente necessário para sua reprodução, expresso no salário (ORAN, 2023). Contudo, ao transferir grande parte desse custo para a esfera doméstica, o capitalismo reduz o valor pago pela força de trabalho, ampliando a taxa de exploração.
Leopoldina Fortunati e o “arcano” da reprodução
Em O arcano da reprodução, Fortunati (2023) aprofunda a crítica à separação entre produção e reprodução, argumentando que o trabalho doméstico é produtivo no sentido marxista, pois participa diretamente da valorização do capital. Para a autora, o caráter não remunerado desse trabalho não o torna improdutivo, mas, ao contrário, extremamente funcional ao sistema.
Para tanto, Fortunati demonstra que a divisão sexual do trabalho não é um resquício pré-capitalista, mas uma construção histórica que interessa ao capital, pois permite a existência de uma vasta quantidade de trabalho gratuito responsável pela reprodução da força de trabalho. Mas, a mulher, nesse processo, é concebida como “força natural”, e não como sujeito político ou integrante da classe trabalhadora.
Isto porque a autora desenvolveu sua tese em oposição ao operaísmo italiano, que, apesar de renovar aspectos do marxismo, manteve uma concepção restrita do sujeito revolucionário, centrada no operário industrial masculino. Entretanto, as mulheres, nesse contexto, eram vistas como auxiliares da luta de classes, e não como parte constitutiva dela.
Crítica à igualdade formal no trabalho assalariado
Uma das contribuições centrais de Fortunati consiste na crítica à ideia de que a emancipação das mulheres se daria por meio da simples inserção no trabalho assalariado. Para a autora, porém, essa proposta representa apenas uma igualdade na exploração, sem questionar as bases estruturais do capitalismo.
Essa concepção esteve presente, inclusive, em experiências socialistas do século XX, como a obrigatoriedade do trabalho assalariado na União Soviética, que partia do pressuposto de que o trabalho doméstico seria um atraso civilizacional.
Entretanto, Fortunati rejeita essa visão, argumentando que a libertação das mulheres não pode ocorrer pela assimilação acrítica ao modelo masculino de exploração capitalista.
Trabalho doméstico, valor de uso e invisibilização
Embora o trabalho doméstico não produza valor de troca diretamente, ele gera valores de uso indispensáveis à reprodução da força de trabalho. Essa distinção é fundamental para compreender sua invisibilização. Pois, ao ser naturalizado como expressão de afeto ou dever moral, esse trabalho deixa de ser reconhecido como trabalho socialmente necessário.
Ao contrário dessa teoria, Federici (2021) destaca que o trabalho doméstico envolve não apenas tarefas materiais, mas também o cuidado emocional e sexual da força de trabalho assalariada, além da criação das futuras gerações de trabalhadores.
Dessa forma, por trás de cada fábrica, escola ou escritório, existe o trabalho oculto de milhões de mulheres que sustentam a reprodução da vida sob o capitalismo.
Produção, reprodução e capitalismo contemporâneo
A Teoria da Reprodução Social (TPS) rompe com a separação entre fábrica e lar, compreendendo produção e reprodução como partes de um mesmo processo de acumulação. Enquanto no capitalismo neoliberal, essa dinâmica se intensifica com a privatização do cuidado e o desmonte de políticas públicas, ampliando a carga de trabalho doméstico sobre as mulheres.
Ainda mais, no capitalismo periférico, como o brasileiro, essa exploração articula-se às desigualdades raciais, uma vez que o trabalho doméstico remunerado é majoritariamente exercido por mulheres negras, evidenciando a intersecção entre classe, gênero e raça.
Feminismo e luta anticapitalista
Para Fortunati, o verdadeiro inimigo das mulheres é o capitalismo, e não os homens individualmente. Isto porque a emancipação feminina exige a unidade da classe trabalhadora em uma luta comum contra o sistema que estrutura a exploração. Essa perspectiva é reforçada em entrevista concedida à Folha de S. Paulo, na qual a autora afirma que a transformação social só é possível se homens e mulheres estiverem unidos na luta anticapitalista (BOLDRINI, 2024).
A autora também ressalta a necessidade de uma revisão radical da masculinidade, moldada historicamente pelos valores e pela disciplina do capital, sem a qual a opressão tende a se reproduzir mesmo no interior das lutas emancipadoras.
Considerações Finais
A análise marxista do trabalho doméstico evidencia que a exploração capitalista extrapola os limites da fábrica. Isto posto, o trabalho reprodutivo, majoritariamente feminino, constitui um pilar oculto da acumulação do capital, responsável por produzir e manter a força de trabalho como mercadoria.
Já a obra de Leopoldina Fortunati permanece atual ao demonstrar que não há emancipação feminina sem luta anticapitalista e que a dissociação entre feminismo e crítica ao capital conduz a projetos reformistas incapazes de superar a exploração estrutural.
Por conseguinte, em um contexto de aprofundamento das desigualdades, a centralidade da reprodução social mantém-se como um terreno estratégico de disputa política, em um regime capitalista, caracterizado pela exacerbação do antagonismo de classes.
Referência Bibliográfica
BOLDRINI, Angela. Inimigo das mulheres é o capitalismo, não os homens, diz feminista pioneira - Entrevista: Silvia Federici. Folha de S. Paulo, São Paulo, 2024. Disponível em: https://www.folha.uol.com.br. Acesso em: 31 jan. 2026.
FEDERICI, Silvia. O ponto zero da revolução: trabalho doméstico, reprodução e luta feminista. São Paulo: Elefante, 2021.
FORTUNATI, Leopoldina. O arcano da reprodução: dona de casa, prostituta, operário e capital. São Paulo: Boitempo, 2023.
ORAN, André. Marx e a força de trabalho. São Paulo: Autonomia Literária, 2023.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).
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