IMPERIALISMO ESTADUNIDENSE, PETRÓLEO, COLONIALIDADE E LUTA DE CLASSES NA AMÉRICA LATINA: A VENEZUELA SOB A OFENSIVA DO GOVERNO TRUMP

IMPERIALISMO ESTADUNIDENSE, PETRÓLEO, COLONIALIDADE E LUTA DE CLASSES NA AMÉRICA LATINA:

A VENEZUELA SOB A OFENSIVA DO GOVERNO TRUMP


*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa a ofensiva imperialista dos Estados Unidos sobre a Venezuela no contexto do governo Donald Trump, articulando os interesses estratégicos no petróleo, a crise estrutural do capitalismo, a destruição ambiental e as contradições da esquerda latino-americana. A partir do referencial marxista e da tradição crítica latino-americana — especialmente Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra, Eduardo Galeano e Aníbal Quijano — sustenta-se que a intervenção estadunidense constitui uma forma contemporânea de terrorismo de Estado e de negação da soberania nacional, inserida na lógica da divisão internacional do trabalho e da colonialidade do poder. Argumenta-se que as respostas baseadas na conciliação de classes revelam limites estruturais, sendo necessária uma estratégia de luta anti-imperialista articulada ao ecossocialismo, à democracia operária e ao protagonismo da classe trabalhadora.


Palavras-chave: Imperialismo; Venezuela; Dependência; Colonialidade; Luta de Classes; Ecossocialismo.


Introdução


A América Latina ocupa, historicamente, uma posição subordinada na economia mundial capitalista. Essa condição não resulta de um “atraso” interno, mas de um processo histórico de dominação colonial e imperialista que moldou suas estruturas econômicas, políticas e sociais. Conforme aponta Galeano (2010), o subdesenvolvimento latino-americano é a outra face do desenvolvimento capitalista das potências centrais.

No contexto contemporâneo, a Venezuela emerge como um dos principais focos da ofensiva imperialista dos Estados Unidos, em razão de sua centralidade energética e de suas tentativas de ampliar margens de soberania nacional. Sob o governo Donald Trump, a política externa estadunidense assumiu um caráter mais agressivo, reafirmando a Doutrina Monroe (1823) e intensificando sanções, bloqueios e ameaças diretas.

Este artigo analisa essa ofensiva a partir de uma perspectiva marxista e latino-americana, articulando imperialismo, dependência, colonialidade do poder e luta de classes.


Imperialismo, Dependência e Colonialidade do Poder


Lênin (2012) definiu o imperialismo como a fase superior do capitalismo, marcada pelo domínio dos monopólios e do capital financeiro. Na América Latina, essa dinâmica assume uma forma específica: a dependência estrutural, conceito desenvolvido pela teoria marxista da dependência.

De um lado Marini (2017) demonstra que as economias dependentes não apenas participam do capitalismo mundial, mas o fazem de maneira subordinada, por meio da superexploração do trabalho e da especialização produtiva primário-exportadora. Assim como Bambirra (2015) complementa essa análise ao destacar que o Estado dependente não é neutro, mas funcional à reprodução dessa subordinação, mesmo quando assume discursos nacionalistas.

Assim, Quijano (2005) aprofunda essa interpretação ao introduzir o conceito de colonialidade do poder, indicando que a dominação imperial não se limita à economia, mas estrutura hierarquias raciais, culturais e epistêmicas que persistem mesmo após o fim formal do colonialismo.

Por isso que a Venezuela, ao tentar reorientar o controle sobre o petróleo, confronta simultaneamente o imperialismo econômico e a colonialidade política que sustenta a hegemonia estadunidense na região.


Petróleo, Imperialismo e a Reprodução da Dependência


O petróleo ocupa posição estratégica na reprodução do imperialismo contemporâneo. Harvey (2014) demonstra que o controle de recursos energéticos é central para a acumulação por espoliação, mecanismo recorrente nas crises do capitalismo.

No caso venezuelano, a ofensiva imperialista visa reverter qualquer tentativa de controle soberano sobre o petróleo, recolocando-o sob a lógica do capital transnacional. Por sua vez, Galeano (2010) já advertia que os recursos naturais latino-americanos, historicamente, serviram ao enriquecimento externo, enquanto produziram miséria interna.

Essa dinâmica revela que o conflito não é apenas político, mas estrutural: trata-se de impedir qualquer ruptura, ainda que parcial, com a lógica da dependência.


Terrorismo de Estado, Guerra Híbrida e Soberania Nacional


As sanções econômicas, os bloqueios financeiros e as denúncias de sequestro de lideranças políticas devem ser compreendidas como instrumentos de guerra híbrida. Tais práticas configuram formas contemporâneas de terrorismo de Estado, destinadas a desorganizar economias, produzir instabilidade política e quebrar resistências populares.

É o que Florestan Fernandes (2009) analisa que, nas sociedades dependentes, a democracia burguesa é estruturalmente limitada e facilmente suspensa quando os interesses do capital internacional são ameaçados. Assim, o imperialismo não hesita em violar a soberania nacional sempre que for necessário para si.

Portanto, a ofensiva contra a Venezuela cumpre, nesse sentido, uma função exemplar: reafirmar os limites impostos à autodeterminação dos povos latino-americanos.


Conciliação de Classes e Crise da Esquerda Latino-Americana


A experiência recente da esquerda latino-americana revela os limites das estratégias baseadas na conciliação de classes. Fernandes (2009) já advertia que, nas formações dependentes, a burguesia nacional é incapaz de conduzir projetos efetivamente soberanos, pois está organicamente vinculada ao capital imperialista.

Já o chamado liberalismo de esquerda, ao restringir a política ao terreno institucional, perde a capacidade de compreender os antagonismos de classe e a natureza estrutural do imperialismo. Como resultado, entretanto, mostra-se impotente diante da ofensiva da extrema direita e do capital internacional. Como já visto em várias situações de conflitos.


Ecossocialismo, Anti-Imperialismo e Democracia Operária


A crise ambiental global evidencia outro limite estrutural do capitalismo. Por exemplo, Löwy (2014) argumenta que não há solução ecológica dentro da lógica da acumulação infinita; quando na América Latina, essa contradição manifesta-se de forma agravada, pois a dependência reforça a especialização extrativista, sem o desenvolvimento autossustentável, porque o capitalismo é predatório.

Assim, a luta anti-imperialista, portanto, deve articular-se a um projeto ecossocialista, baseado no controle social dos recursos naturais, na superação da matriz fóssil e na reorganização da produção conforme as necessidades humanas.

Para que a democracia operária emerja como alternativa histórica à democracia liberal dependente, colocando a classe trabalhadora como sujeito central da transformação social.


Considerações Finais


A ofensiva imperialista dos Estados Unidos sobre a Venezuela, intensificada sob o governo Trump, expressa a continuidade histórica da dominação imperial na América Latina. Tendo o petróleo, a dependência, a colonialidade do poder e a crise ambiental, que revelam os limites estruturais do capitalismo e da soberania formal.

Com isso, a superação dessa condição exige uma estratégia anti-imperialista articulada à luta de classes, ao ecossocialismo e à democracia operária, recolocando a autodeterminação dos povos como tarefa histórica da classe trabalhadora latino-americana.


Referência Bibliográfica


BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2015.

FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2009.

GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Porto Alegre: L&PM, 2010.

HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2014.

LÊNIN, Vladimir I. O imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2012.

LÖWY, Michael. Ecossocialismo: a alternativa radical à catástrofe ecológica capitalista. São Paulo: Cortez, 2014.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Expressão Popular, 2017.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. Revista Latinoamericana de Ciências Sociais, v. 13, n. 1, 2005.

WOOD, Ellen Meiksins. Império do capital. São Paulo: Boitempo, 2003.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual-Paraná).

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