Ideologia dominante, imperialismo e capitalismo dependente no Brasil contemporâneo
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa a ideologia dominante como elemento central da reprodução do capitalismo dependente e do imperialismo, com recorte específico no Brasil contemporâneo. Partindo do referencial marxista, o texto compreende a ideologia como falsa consciência que naturaliza a exploração, universaliza interesses de classe e bloqueia a percepção de alternativas históricas. Articulam-se as contribuições de Marx e Engels, Gramsci, Lukács, Althusser, Mészáros, Byung-Chul Han, Marilena Chauí, Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra, com destaque para a Teoria Marxista da Dependência. Argumenta-se que, no Brasil, a ideologia dominante opera na articulação entre Estado dependente, política de conciliação de classes e subordinação ao imperialismo estadunidense, legitimando a superexploração do trabalho (com uso excessivo e insustentável de um recurso - natural ou humano - que leva à sua exaustão), a democracia restrita e a contenção da consciência de classe. Conclui-se que a crítica dessa ideologia é condição necessária para a construção de um projeto soberano, anti-imperialista e emancipatório.
Palavras-chave: ideologia dominante; imperialismo; dependência; Brasil contemporâneo; marxismo.
Introdução
A ideologia dominante constitui um dos pilares centrais da reprodução do capitalismo, especialmente em sua fase imperialista e financeirizada. Longe de se reduzir a um conjunto de ideias falsas ou distorcidas, ela atua como força material e cultural que organiza visões de mundo, legitima relações de poder e limita o horizonte do possível. Já no capitalismo dependente latino-americano, essa função assume contornos ainda mais profundos, pois a ideologia não apenas oculta a exploração interna, mas também naturaliza a subordinação externa ao imperialismo.
Enquanto que no Brasil contemporâneo, a ideologia dominante se expressa de forma articulada ao Estado dependente, à política de conciliação de classes e à permanência da hegemonia imperialista estadunidense. Mesmo sob regimes democráticos formais e governos que se apresentam como progressistas, persistem estruturas de superexploração do trabalho, transferência de valor para o centro do sistema e bloqueio de alternativas soberanas.
Este artigo tem como objetivo analisar criticamente o papel da ideologia dominante nesse processo, articulando o marxismo clássico às contribuições da Teoria Marxista da Dependência e de autores críticos contemporâneos. Busca-se demonstrar, por isso, que a ideologia opera como visão de mundo dogmática, semelhante à fé, ao se apresentar como única racionalidade possível, invisibilizando a historicidade das relações sociais e a multiplicidade de alternativas.
Ideologia dominante e a falsa consciência no marxismo
Em Marx e Engels, a ideologia é compreendida como expressão das condições materiais de existência e dos interesses da classe dominante. Conforme esses afirmam em A ideologia alemã, “as ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias dominantes”. Como afirmam, a ideologia produz uma falsa consciência ao inverter a realidade social, fazendo com que relações históricas de exploração apareçam como naturais, universais e inevitáveis.
Essa falsa consciência atua por meio de diversos mecanismos: a universalização de interesses particulares; a naturalização da ordem social; a ocultação dos conflitos de classe; e a inversão entre causa e efeito, como no fetichismo da mercadoria, em que os produtos do trabalho parecem dotados de vida própria. Por conseguinte, a ideologia, assim, impede que a classe trabalhadora reconheça sua condição histórica e seus interesses objetivos.
Enquanto que no materialismo histórico, a ideologia integra a superestrutura e se apoia na infraestrutura econômica, sendo indispensável à reprodução das relações de produção. Entretanto, romper com a ideologia dominante é, por sua vez, condição necessária para o desenvolvimento da consciência de classe e para a transformação revolucionária da sociedade.
Hegemonia, reificação e aparelhos ideológicos
Pensadores marxistas, como Antonio Gramsci, amplia a análise marxista ao introduzir o conceito de hegemonia, demonstrando que a dominação burguesa se sustenta não apenas pela coerção, mas, sobretudo, pela direção intelectual e moral (ao utilizar-se da religião) da sociedade. Para o pensador, a classe dominante constrói consenso, fazendo com que as classes subalternas consintam com a ordem existente, ou seja, como na forma de servidão voluntária.
Já Georg Lukács, por sua vez, aprofunda a crítica ao evidenciar a reificação como forma típica da consciência no capitalismo. Isto porque as relações sociais aparecem como relações entre coisas, fragmentadas e desconectadas da totalidade histórica. Sendo que essa fragmentação impede a compreensão do capitalismo como sistema contraditório e bloqueia a passagem da consciência em si para a consciência para si.
Por sua vez, Louis Althusser contribui ao formular o conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs), como a escola, a família, a religião, a mídia e o sistema jurídico. Esses aparelhos reproduzem cotidianamente a ideologia dominante, interpelando os indivíduos como "sujeitos" alienados no seu comportamento e moldando-os para aceitar a ordem capitalista como natural.
Ideologia como metabolismo social e dominação subjetiva
Enquanto István Mészáros radicaliza a crítica ao afirmar que o problema central não é apenas o capitalismo, mas o sistema sociometabólico (que examina o impacto das atividades humanas - produção, consumo, descarte - nos ecossistemas e a dependência da sociedade em relação aos recursos naturais do planeta) do capital, que subordina todas as dimensões da vida à lógica da acumulação.
Por isso, afirma que a ideologia é parte constitutiva desse metabolismo, funcionando como mediação indispensável à sua reprodução ampliada.
Por sua vez, Byung-Chul Han -, ainda que não marxista -, oferece instrumentos relevantes para compreender as formas contemporâneas da ideologia.
No neoliberalismo, constata-se que o poder opera cada vez mais pela produção de subjetividades, promovendo a autoexploração, a positividade e a internalização da lógica do desempenho.
Diante disso, a dominação deixa de aparecer como imposição externa e passa a operar como escolha individual, aprofundando o caráter dogmático da ideologia dominante; levando o indivíduo às doenças psicossomáticas.
Teoria Marxista da Dependência e ideologia imperialista
A Teoria Marxista da Dependência, desenvolvida por Ruy Mauro Marini e Vânia Bambirra, demonstra que a dependência não é um atraso, mas uma forma específica de inserção das economias periféricas no sistema capitalista mundial. Enquanto que no capitalismo dependente, a reprodução do capital se baseia na superexploração da força de trabalho e na transferência sistemática de valor para o centro imperialista.
Se Marini evidencia que a superexploração — salários abaixo do valor da força de trabalho, intensificação do ritmo laboral e prolongamento da jornada — é condição estrutural da dependência. Cuja ideologia dominante atua ao ocultar esse processo, deslocando o debate para a eficiência, o mérito e o consumo.
Bambirra demonstra que a dependência assume formas históricas distintas, mas em todas elas a burguesia local atua como classe associada ao imperialismo. E, por isso, a ideologia dominante legitima essa associação ao apresentar a subordinação externa como modernização, integração ao mercado global ou escolha racional inevitável.
O Brasil contemporâneo:
Estado dependente, conciliação de classes e imperialismo
No Brasil contemporâneo, a ideologia dominante se articula à forma específica do Estado dependente, tal como analisada por Florestan Fernandes. No contexto, trata-se de um Estado brasileiro de dominação burguesa que combina legalidade institucional, coerção seletiva e hegemonia ideológica, resultando em uma democracia restrita e funcional à reprodução da dependência; ao excluir a participação popular.
Afirma-se, por conseguinte, que a política de conciliação de classes, recorrente na história brasileira, atua como forma de administração da luta de classes no capitalismo dependente. Concessões limitadas às classes trabalhadoras coexistem com a preservação dos pilares do neoliberalismo, como a prioridade ao capital financeiro, o pagamento da dívida pública e a subordinação às exigências do mercado internacional.
Pois, a relação com o imperialismo estadunidense se dá predominantemente por subordinação econômica, financeira, tecnológica e ideológica. Cuja ideologia dominante apresenta essa relação como parceria estratégica ou pragmatismo, enquanto criminaliza projetos soberanos, a integração latino-americana e alternativas anti-imperialistas.
Nesse contexto, a ideologia atua também no plano da subjetividade, promovendo a fragmentação da classe trabalhadora, a despolitização e a internalização da lógica neoliberal, o que contribui para a contenção da consciência de classe e para a reprodução ampliada da dependência.
Considerações Finais
A análise desenvolvida demonstra que a ideologia dominante é elemento central da reprodução do capitalismo dependente e do imperialismo no Brasil contemporâneo. Ao naturalizar a exploração, legitimar a conciliação de classes e apresentar a subordinação externa como inevitável, a ideologia constrói uma visão de mundo dogmática que bloqueia a percepção de alternativas históricas.
Portanto, desmascarar a ideologia dominante é tarefa fundamental da crítica marxista e da luta política, pois somente a ruptura com essa falsa consciência pode abrir caminho para a construção de um projeto soberano, anti-imperialista e emancipatório.
Enquanto que no capitalismo dependente brasileiro, tal ruptura implica enfrentar simultaneamente a exploração de classe, a dependência estrutural e a dominação ideológica.
Referência Bibliográfica
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Graal, 1978.
CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia? São Paulo: Brasiliense, 2008.
_____. Ideologia: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2016.
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. São Paulo: Globo, 2006.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.
___. Psicopolítica. Belo Horizonte: Âyiné, 2018.
LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. México: Era, 1973.
MARX, Karl. O Capital. São Paulo: Boitempo, 2013.
_____; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2002.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).
Comentários
Postar um comentário