Estudos 1 do Manifesto Comunista - I Burgueses e Proletários: Da Crise do Feudalismo à Luta Revolucionária do Proletariado
Estudos 1 do Manifesto Comunista - I Burgueses e Proletários:
Da Crise do Feudalismo à Luta Revolucionária do Proletariado
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
Este artigo analisa a Parte I do Manifesto do Partido Comunista (1848), intitulada “Burgueses e Proletários”, a partir da edição da Boitempo (2005), destacando a transição histórica do feudalismo ao capitalismo, o papel revolucionário da burguesia e a constituição do proletariado como sujeito histórico da superação do regime capitalista. Com base no materialismo histórico, o texto demonstra que o capitalismo é um sistema fundado em antagonismos de classe insolúveis, que produz suas próprias condições de crise e seus “coveiros”. A análise é articulada com contribuições de autores brasileiros, especialmente Florestan Fernandes, Dermeval Saviani e Ruy Mauro Marini, situando o debate marxista clássico nas formações sociais dependentes e no contexto educacional brasileiro.
Palavras-chave: Manifesto Comunista; Burguesia; Proletariado; Luta de Classes; Marxismo Brasileiro.
Abstract
This article analyzes Part I of The Communist Manifesto (1848), “Bourgeois and Proletarians”, based on the 2005 Boitempo edition. It examines the historical transition from feudalism to capitalism, the revolutionary role of the bourgeoisie, and the constitution of the proletariat as the historical subject of capitalism’s overthrow. Grounded in historical materialism, the article argues that capitalism is a class-antagonistic system that produces its own crises and its own “gravediggers”. The analysis is articulated with Brazilian Marxist thinkers such as Florestan Fernandes, Dermeval Saviani, and Ruy Mauro Marini, contextualizing the debate within dependent capitalist formations and educational structures in Brazil.
Keywords: Communist Manifesto; Bourgeoisie; Proletariat; Class Struggle; Brazilian Marxism.
Introdução
No Manifesto do Partido Comunista, Marx e Engels formulam uma das teses fundamentais do materialismo histórico: a história das sociedades humanas é a história da luta de classes. Na Parte I, “Burgueses e Proletários”, os autores analisam a emergência do capitalismo como resultado da dissolução do feudalismo e da ascensão da burguesia enquanto classe revolucionária. Contudo, demonstram também que o capitalismo engendra uma contradição estrutural entre capital e trabalho que não pode ser resolvida no interior do próprio sistema.
Este artigo tem como objetivo analisar essa dinâmica histórica e estrutural, destacando a centralidade da luta de classes e a constituição do proletariado como sujeito revolucionário. Além disso, busca articular essas formulações clássicas com a tradição marxista brasileira, especialmente nas interpretações de Florestan Fernandes sobre o capitalismo dependente, de Ruy Mauro Marini sobre a superexploração do trabalho e de Dermeval Saviani acerca das determinações de classe na educação.
A Crise do Feudalismo e as Condições Históricas da Transição
O feudalismo caracterizava-se pela centralidade da terra como meio de produção (de posse da nobreza e do clero), pela servidão e por relações pessoais de dominação. Entretanto, no desenvolvimento do comércio, das cidades e das forças produtivas, o feudalismo entrou em contradição com essas relações sociais.
Por conseguinte, segundo Marx e Engels (2005), quando as relações de produção deixam de corresponder ao nível alcançado pelas forças produtivas, tornam-se entraves históricos.
Portanto, essa contradição estrutural marca o início da crise do feudalismo; enquanto a expansão do mercado, a monetarização das trocas e o surgimento de novas formas de produção tornaram o regime feudal historicamente obsoleto.
Ao analisar a realidade da América Latina, Florestan Fernandes (2005) destaca que esse processo não se deu de forma homogênea, especialmente nas formações periféricas, onde a transição ao capitalismo ocorreu de modo dependente e subordinado ao mercado mundial.
A Burguesia como Classe em Ascensão
A burguesia não surge como uma classe externa ao feudalismo, mas como seu produto histórico. Originária das comunas urbanas e dos servos libertos, inicialmente aparece como classe oprimida sob o domínio da nobreza feudal. Progressivamente, consolida-se economicamente por meio do comércio e da manufatura e, politicamente, como o Terceiro Estado.
Marx e Engels (2005) enfatizam que cada etapa do desenvolvimento econômico da burguesia correspondeu a avanços políticos, culminando na conquista do poder estatal. Segundo Florestan Fernandes (1981), esse processo assume particularidades nas sociedades dependentes, onde a burguesia frequentemente se associa ao capital externo e ao Estado, revelando limites estruturais ao seu caráter revolucionário.
A Burguesia como Classe Revolucionária
Apesar de seus limites históricos, Marx e Engels reconhecem o papel revolucionário da burguesia. Ao destruir as relações feudais, ela rompeu com os vínculos patriarcais, corporativos e religiosos, substituindo-os por relações mercantis baseadas no “pagamento em dinheiro”.
Sendo assim, a burguesia revolucionou constantemente os meios de produção, criando forças produtivas inéditas na História. Esse processo conferiu ao capitalismo um caráter dinâmico e expansivo, responsável pela constituição do mercado mundial. Contudo, como destaca Marini (2011), essa expansão ocorre de forma desigual, produzindo dependência, superexploração do trabalho e aprofundamento das desigualdades nas economias periféricas.
O Capitalismo como Regime Antagônico e de Classes
O capitalismo se funda na propriedade privada dos meios de produção e na exploração do trabalho assalariado. Ele simplifica os antagonismos sociais, polarizando a sociedade entre as classes da burguesia e do proletariado. Nela, o trabalhador/a só vive enquanto encontra trabalho, e só encontra trabalho enquanto produz mais-valor para o capital.
Essa relação é estruturalmente antagônica. Saviani (2013), por sua vez, observa que essa lógica se estende à educação, que passa a desempenhar a função de formar força de trabalho ajustada às necessidades do capital, reproduzindo as desigualdades de classe sob a aparência de neutralidade pedagógica.
O Capitalismo como “Coveiro” de Sua Própria Destruição
Uma das teses centrais do Manifesto é a de que o capitalismo produz as condições de sua própria superação. Com as crises periódicas de superprodução revelam a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações de produção capitalistas.
Enquanto Marx e Engels (2005) afirmam que a burguesia produz seus próprios “coveiros” ao concentrar trabalhadores, ampliar sua comunicação e aprofundar a exploração. Afirmada por Marini (2011), ao complementar essa análise ao demonstrar que, nas economias dependentes, essa contradição se manifesta de forma ainda mais aguda por meio da superexploração do trabalho.
A Luta de Classes e o Proletariado como Sujeito Revolucionário
O proletariado é produto direto da indústria moderna. Sua luta inicia-se de forma dispersa, mas tende à organização coletiva e ao desenvolvimento da consciência de classe. O seu objetivo histórico de classe é derrubar a supremacia burguesa, conquistar o poder político e abolir as classes sociais.
Para Saviani (2013), a formação da consciência de classe passa necessariamente pela disputa no campo educacional, tornando a educação um espaço estratégico na luta de classes. Assim, o proletariado não é apenas uma classe econômica, mas um sujeito político e histórico.
Considerações Finais
A análise da Parte I do Manifesto Comunista demonstra que o capitalismo é um sistema historicamente determinado, marcado por contradições insolúveis e pela luta de classes. Aponta que a burguesia desempenhou um papel revolucionário ao destruir o feudalismo, mas tornou-se uma classe historicamente reacionária ao consolidar um regime baseado na exploração.
A articulação com Florestan Fernandes, Ruy Mauro Marini e Dermeval Saviani permite compreender como essas contradições se manifestam nas formações sociais dependentes e no campo educacional brasileiro.
Conclui-se que o proletariado - a classe trabalhadora -, enquanto sujeito histórico, permanece central na perspectiva de superação do capitalismo e na construção de uma nova sociabilidade.
Referência Bibliográfica
FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil. 5. ed. São Paulo: Globo, 2005.
MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2011.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução de Álvaro Pina. São Paulo: Boitempo, 2005. Disponível em: <file:///C:/Users/AdminUser/Downloads/MARX%3B%20ENGELS.%20Manifesto%20Comunista.pdf>.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 42. ed. Campinas: Autores Associados, 2013.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual - Paraná).
Comentários
Postar um comentário