Telas, Privação do Sono e Colapso Pedagógico nas Escolas Públicas: da indisciplina incontrolável ao pacto da mediocridade

 Telas, Privação do Sono e Colapso Pedagógico nas Escolas Públicas: da indisciplina incontrolável ao pacto da mediocridade

Luiz Antonio Sypriano¹


Resumo

O presente artigo analisa a indisciplina incontrolável de estudantes, da Educação Básica da Rede Pública, tratado como fenômeno biopsicossocial, pedagógico e político. Para tanto, parte-se da hipótese de que o comportamento disruptivo em sala de aula, não pode ser explicado apenas por categorias morais, como “falta de limites” ou “desinteresse”, mas deve ser compreendido a partir da articulação entre excesso de telas, privação crônica do sono, má alimentação, sofrimento psíquico, vulnerabilidade social e precarização das condições escolares. Com base em estudos sobre sono, saúde de adolescentes, uso de telas e desempenho escolar, argumenta-se que tais fatores afetam diretamente a atenção, a memória, o controle de impulsos e a regulação emocional dos estudantes. Como consequência, o trabalho docente é progressivamente inviabilizado, e a escola pública passa a operar sob uma lógica de rebaixamento das expectativas formativas, aqui denominada pedagogia do pacto da mediocridade. Conclui-se, portanto, que o enfrentamento da indisciplina exige políticas intersetoriais entre educação, saúde, assistência social e regulação do ambiente digital, bem como a defesa da Escola Pública como espaço de socialização do conhecimento, formação crítica e emancipação humana.


Palavras-chave: indisciplina escolar; telas; privação do sono; escola pública; trabalho docente; pacto da mediocridade.


Introdução

A indisciplina escolar tornou-se um dos maiores desafios da Educação Básica da Rede Pública contemporânea. Pesquisas apontam que, em muitas salas de aula, o professor já não enfrenta apenas conversas paralelas ou pequenas resistências ao estudo, mas situações recorrentes de descontrole comportamental, agressividade verbal, apatia extrema, uso clandestino de celulares, gritos, deslocamentos constantes, recusa sistemática das atividades e baixa tolerância à frustração. Por conseguinte, tal cenário compromete diretamente o processo de ensino-aprendizagem e esvazia a autoridade pedagógica do docente.

Entretanto, reduzir esse fenômeno à “falta de educação” dos estudantes ou à “fragilidade” dos professores é uma interpretação superficial. Isto porque a indisciplina atual precisa ser compreendida como expressão de uma crise mais ampla da formação humana em uma sociedade marcada pela hiperconectividade, pela precarização de convivência das famílias trabalhadoras, pela alimentação inadequada, pela ausência de políticas públicas de cuidado e pela baixa qualidade institucional da Escola Pública.

Nesse sentido, o problema que aparece na sala de aula começa, muitas vezes, antes da chegada do estudante à escola. Em que, na madrugada diante das telas, o sono insuficiente, o consumo de alimentos ultraprocessados, a ansiedade, o sedentarismo, a desorganização familiar e a ausência de acompanhamento social formam um conjunto de determinações que afetam o corpo, a mente e o comportamento. Assim, a indisciplina na sala de aula não é apenas um problema pedagógico: é também um sintoma social, sanitário e político.


Telas, Sono e Desregulação do Comportamento Estudantil

O uso excessivo de celulares, jogos eletrônicos, redes sociais e vídeos curtos, especialmente durante a madrugada, interferem diretamente na qualidade do sono de crianças e adolescentes. Posto que a exposição prolongada às telas, no período noturno, dificulta o desligamento psíquico, estimula o estado de alerta e retarda a rotina de descanso. Diante desses problemas, a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda limitar o tempo de telas e evitar que adolescentes “virem a noite” jogando ou navegando, além de orientar a desconexão uma ou duas horas antes de dormir.

Além disso, a Organização Mundial da Saúde também aponta que, em crianças e adolescentes, o excesso de comportamento sedentário, especialmente o tempo recreativo diante de telas, associa-se a piores indicadores de saúde, menor duração do sono e piores resultados comportamentais e pró-sociais.

Isto porque a privação de sono afeta dimensões fundamentais para a vida escolar: atenção sustentada, memória de trabalho, controle de impulsos, regulação emocional e disposição para tarefas cognitivas prolongadas. Diante disso, revisões sistemáticas indicam que o sono reduzido está associado a pior desempenho escolar, prejuízos cognitivos e dificuldades de aprendizagem em adolescentes. Outro estudo de revisão aponta que o sono inadequado na adolescência relaciona-se a problemas de saúde psicossocial, desempenho escolar e comportamentos de risco.

Portanto, o estudante privado de sono não chega à escola apenas “com preguiça” ou “sem interesse”. Ele chega fisiologicamente desorganizado. Pois sua capacidade de escutar, esperar, escrever, ler, abstrair e controlar impulsos está prejudicada. Assim, o comportamento disruptivo, nesse sentido, é também manifestação de um organismo exausto e de uma subjetividade hiperestimulada.


Má Alimentação, Ultraprocessados e Vulnerabilidade Biopsicossocial

A alimentação inadequada constitui outro elemento decisivo. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, PeNSE 2019 (IBGE, 2019), revelou que 97,3% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos consumiram pelo menos um alimento ultraprocessado no dia anterior à pesquisa IBGE Educa. Estudos baseados na PeNSE confirmam a relevância do consumo de ultraprocessados entre adolescentes brasileiros.

Constata-se que os alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, sódio, gorduras e aditivos, podem contribuir para oscilações de energia, irritabilidade, fadiga e dificuldade de concentração. Afirma-se que não se trata de uma causalidade mecânica entre alimentação e indisciplina, mas de reconhecer que a má nutrição agrava a desregulação corporal e emocional. Mas, quando combinada com privação de sono, sedentarismo e sofrimento psíquico, a alimentação inadequada amplia as dificuldades de permanência qualificada do estudante no processo educativo.

Nas Escolas Públicas, esse quadro assume contornos ainda mais graves, porque se articula à extrema desigualdade social vivida por sua população. Posto que muitos estudantes vivem em contextos de insegurança alimentar, ausência de rotina doméstica, trabalho precarizado dos seus responsáveis, moradias inadequadas e pouco acesso aos Serviços Públicos, principalmente à saúde. Por conseguinte, o comportamento escolar precisa ser lido dentro de um conjunto de determinações sociais, que ultrapassam a vontade individual do estudante.


Comorbidades, Sofrimento Psíquico e Diagnósticos Confundidos

A combinação entre excesso de telas, privação de sono, má alimentação e vulnerabilidade social pode produzir sintomas semelhantes aos de transtornos neuropsiquiátricos, como déficit de atenção, hiperatividade, ansiedade, depressão, oposição sistemática e irritabilidade. Diante disso, é necessário, contudo, evitar diagnósticos apressados. Por isso, percebe-se que nem todo estudante agitado possui TDAH; nem todo estudante agressivo possui transtorno opositor; e, nem todo estudante apático possui depressão clínica. Daí, um diagnóstico superficial leva aos tratamentos medicamentosos sem a devida necessidade.

O problema é que a Escola Pública recebe cotidianamente esses sintomas sem dispor, na maioria das vezes, de equipe multiprofissional suficiente. Nela, faltam psicólogos, assistentes sociais, profissionais de saúde, orientadores em número adequado, tempo institucional para acompanhamento e articulação efetiva com a rede de proteção. Por conseguinte, o professor, então, é obrigado a enfrentar sozinho fenômenos que exigiriam políticas públicas intersetoriais.

Para controlar o uso do celular em sala de aula é que se estabeleceu a Lei nº 15.100/2025 (Brasil, 2025), impondo restringir o uso de aparelhos eletrônicos pessoais nas escolas de Educação Básica, pelo fato de que se reconhece que o uso imoderado desse dispositivo pode afetar a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes; contudo, mesmo com a restrição escolar do celular - que se tornou quase impossível - é apenas uma parte do problema da instituição. À despeito dessa determinação, mesmo assim a madrugada digital permanece intocada para o estudante, enquanto a sala de aula continuará recebendo seus efeitos no dia seguinte.


A Inviabilização do Trabalho Docente

A indisciplina incontrolável atinge o núcleo do trabalho docente. Isto porque ensinar exige condições mínimas de escuta, atenção, continuidade, respeito coletivo e reconhecimento da autoridade pedagógica. Assim, quando essas condições desaparecem, o professor passa a gastar parte significativa da aula tentando conter comportamentos, interromper conflitos, recolocar estudantes em seus lugares, impedir o uso indevido do celular, lidar com provocações e administrar crises emocionais.

Com isso, o tempo pedagógico é destruído. Enquanto a aula deixa de ser espaço de mediação do conhecimento e passa a ser espaço de contenção de comportamentos inadequados à Escola. Por conseguinte, o professor deixa de atuar prioritariamente como intelectual do processo educativo e é empurrado para funções de vigilante, cuidador, agente disciplinar, psicólogo improvisado e gestor de conflitos. E a consequência é o adoecimento docente, a frustração profissional e o enfraquecimento da função social da escola.

Além disso, esse processo também prejudica os estudantes que desejam aprender. Pois, quando uma minoria desregulada impede o desenvolvimento da aula, o direito coletivo ao conhecimento é violado. Por isso é que a defesa da disciplina escolar, portanto, não deve ser confundida com autoritarismo. Mas, trata-se de defender as condições objetivas para que o ensino e a aprendizagem aconteçam.


A Pedagogia do Pacto da Mediocridade

Diante da impossibilidade cotidiana de ensinar com profundidade, muitas escolas acabam se adaptando ao fracasso. Essa adaptação pode ser chamada de pedagogia do pacto da mediocridade, que é um acordo tácito, não necessariamente consciente, no qual todos reduzem suas expectativas para sobreviver institucionalmente.

Acontece quando o estudante faz o mínimo, evita o esforço intelectual e busca apenas aprovação. E o professor, exausto e sem respaldo suficiente, reduz a exigência, simplifica atividades e evita conflitos. Isto porque a gestão escolar prioriza fluxo, estatísticas, frequência e aprovação, pelas determinações do sistema educacional, que celebra indicadores formais, mesmo quando a aprendizagem real é frágil. Por sua vez, a família, muitas vezes sobrecarregada ou ausente, transfere à escola responsabilidades que deveriam ser compartilhadas por políticas públicas mais amplas.

Nesse pacto, todos fingem que a educação acontece; o estudante finge que estuda; o professor finge que consegue ensinar em condições adversas; a gestão escolar finge que acompanha; e, o sistema finge que os dados representam aprendizagem. Entretanto, o resultado prático é a banalização da escola pública; e, social, é uma cidadania frágil e infuncional para a vida social e profissional.

Portanto, a escola deixa de ser espaço de apropriação do conhecimento científico, filosófico, artístico e histórico, e passa a funcionar como local de custódia social, certificação formal e administração da juventude pobre. Na qual, essa banalização atinge sobretudo os filhos da classe trabalhadora, que dependem da Escola Pública para acessar bens culturais historicamente negados.


Para Além do Moralismo: Responsabilizar o Sistema

A crítica à indisciplina não pode ser moralista; enquanto o estudante não deve ser tratado como inimigo da escola. Isto porque ele próprio é vítima de uma sociedade que mercantiliza sua atenção, precariza sua alimentação, enfraquece vínculos comunitários, abandona a saúde mental e transforma a tecnologia em instrumento de captura permanente da subjetividade.

Mas também não se pode romantizar a desorganização escolar. Visto que a indisciplina permanente impede o direito à aprendizagem. Assim, defender a Escola Pública exige defender também o direito ao silêncio, à concentração, ao estudo, à leitura, à escrita, ao pensamento abstrato e à convivência respeitosa.

Portanto, o enfrentamento do problema exige medidas articuladas: regulação efetiva do uso de celulares, campanhas sobre sono e saúde mental, formação para a responsabilidades das famílias, fortalecimento da alimentação escolar, ampliação das equipes multiprofissionais, redução da superlotação, valorização docente, acompanhamento de estudantes em sofrimento psíquico e responsabilização das redes de ensino.


Considerações Finais

A indisciplina incontrolável nas escolas públicas expressa uma crise profunda da formação humana contemporânea. Visto que o excesso de telas na madrugada, a privação do sono, a má alimentação, o sofrimento psíquico e a vulnerabilidade social produzem estudantes cada vez menos disponíveis para o estudo sistemático. E, ao chegar à escola, essa desregulação compromete a atenção, o comportamento, a convivência e a aprendizagem.

Enquanto o professor, sem as condições institucionais necessárias, passa a enfrentar sozinho um problema que é social, sanitário, tecnológico, familiar e político. Mas, quando o sistema responde a essa crise com aprovação artificial, redução de exigências e estatísticas burocráticas, instala-se a pedagogia do pacto da mediocridade.

Por isso, romper esse pacto exige recolocar o conhecimento no centro da escola pública. Mas, isso significa garantir condições reais de ensino, proteger o trabalho docente, enfrentar a dependência digital, cuidar da saúde dos estudantes e construir políticas públicas intersetoriais. Tendo em vista que a escola não pode ser reduzida a depósito de crianças e adolescentes desassistidos. Mas, ela deve ser espaço de formação, emancipação e acesso pleno ao patrimônio cultural da humanidade.


Referência Bibliográfica

BRASIL. Lei nº 15.100, de 13 de janeiro de 2025. Dispõe sobre a utilização de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais nos estabelecimentos de ensino da Educação Básica. Disponível em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/lei/l15100.htm>; Acesso em: <26-06-2026>.

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SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Manual de Orientação: Menos Telas, Mais Saúde. Disponível em: <https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24604c-MO__MenosTelas__MaisSaude-Atualizacao.pdf>; Acesso em: <26-06-2026>.

SHOCHAT, Tamar; COHEN-ZION, Mairav; TZISCHINSKY, Orna. Functional consequences of inadequate sleep in adolescents: a systematic review. Sleep Medicine Reviews, 2014.

SYPRIANO, Luiz Antonio. A EPIDEMIA SILENCIOSA DA PRIVAÇÃO DE SONO ENTRE ESTUDANTES DO PERÍODO VESPERTINO NAS ESCOLAS PÚBLICAS: CULTURA DIGITAL, DESREGULAÇÃO COMPORTAMENTAL E CRISE DO TRABALHO DOCENTE. Disponível em: <https://sypriano.blogspot.com/2026/06/a-epidemia-silenciosa-da-privacao-de.html>; Acesso em: <26-06-2026>.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política)

Comentários

  1. Nossas Escolas Públicas Estadual e Municipal são o reflexo da sociedade em que que vivemos no sistema do Capitalista vigente. Neste contexto da sociedade de classes o Estado é mínimo para todos da classe trabalhadora. Sendo assim qual deveria ser o Projeto para a Escola Pública ? O Estado mínimo tem seu projeto sempre de desmonte e precarização . A comunidade Escolar deveria ter o seu projeto construído coletivamente por todos os envolvidos. Os sindicatos e universidades deveriam contribuir e muito para este processo . O projeto de Emancipação da classe trabalhadora no chão das nossas Escolas Públicas.

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