A EPIDEMIA SILENCIOSA DA PRIVAÇÃO DE SONO ENTRE ESTUDANTES DO PERÍODO VESPERTINO NAS ESCOLAS PÚBLICAS: CULTURA DIGITAL, DESREGULAÇÃO COMPORTAMENTAL E CRISE DO TRABALHO DOCENTE

 A EPIDEMIA SILENCIOSA DA PRIVAÇÃO DE SONO ENTRE ESTUDANTES DO PERÍODO VESPERTINO NAS ESCOLAS PÚBLICAS: CULTURA DIGITAL, DESREGULAÇÃO COMPORTAMENTAL E CRISE DO TRABALHO DOCENTE

Luiz Antonio Sypriano¹


Resumo

O presente artigo analisa a crescente incidência da privação de sono entre crianças e adolescentes matriculados no período vespertino das escolas públicas, investigando suas relações com o uso intensivo de dispositivos digitais durante a noite, especialmente celulares, redes sociais e jogos eletrônicos. Parte-se da hipótese de que a redução da qualidade e da quantidade do sono constitui um dos fatores centrais para compreender o aumento dos comportamentos disruptivos observados no cotidiano escolar contemporâneo. Ao mesmo tempo sustenta-se que a chamada "epidemia silenciosa da privação de sono" produz efeitos neurocognitivos e emocionais que ultrapassam os limites tradicionais da indisciplina escolar, comprometendo os processos de aprendizagem, a convivência coletiva e o trabalho docente. Por meio de revisão bibliográfica e análise crítica da realidade das escolas públicas, discute-se a articulação entre hiperestimulação digital, déficit de atenção, desregulação emocional e precarização das condições pedagógicas. Conclui-se que a crise do sono dos estudantes constitui um problema educacional, sanitário e social que exige políticas públicas integradas entre educação, saúde e família.


Palavras-chave: Sono. Cultura Digital. Indisciplina Escolar. Adolescência. Trabalho Docente. Escola Pública.


INTRODUÇÃO

Nas últimas décadas, a expansão acelerada das tecnologias digitais transformou profundamente os modos de socialização, comunicação e lazer das novas gerações. Crianças e adolescentes passaram a conviver permanentemente com dispositivos eletrônicos conectados à internet, produzindo alterações significativas nos hábitos cotidianos, especialmente nos padrões de sono.

Paralelamente ao avanço das tecnologias digitais, observa-se nas escolas públicas brasileiras um crescimento dos comportamentos de agitação, impulsividade, dispersão, agressividade verbal e baixa tolerância à frustração. Frequentemente interpretados apenas como problemas disciplinares, tais fenômenos podem estar associados a uma variável muitas vezes negligenciada: a privação crônica do sono.

Uma situação que torna-se particularmente evidente entre estudantes do período vespertino das Escolas Pública em geral. Diferentemente dos estudantes do turno matutino, que necessitam acordar muito cedo para frequentar a escola, os alunos do turno da tarde tendem a desenvolver hábitos mais permissivos em relação ao horário de dormir. Como consequência, permanecem conectados até altas horas da madrugada, utilizando redes sociais, plataformas de vídeo, aplicativos de mensagens e jogos eletrônicos; e, por conseguinte, alimentando-se de ultraprocessados e ingerindo cafeína. Em muitos casos, com a anuência familiar.

Este artigo busca compreender como a privação de sono produz impactos diretos sobre o comportamento escolar, os processos de aprendizagem e as condições de trabalho docente, constituindo um dos desafios centrais da Escola Pública contemporânea.


A SOCIEDADE DIGITAL E A RECONFIGURAÇÃO DO TEMPO JUVENIL

A emergência da sociedade digital alterou radicalmente a experiência temporal das novas gerações. Se nas sociedades industriais a organização da vida cotidiana estava associada aos ritmos do trabalho, da escola e da convivência familiar, atualmente os algoritmos das plataformas digitais disputam permanentemente a atenção dos sujeitos.

Byung-Chul Han afirma que a sociedade contemporânea caracteriza-se pela hiperestimulação permanente dos indivíduos, produzindo excesso de informações, fragmentação da atenção e incapacidade crescente de contemplação e concentração.

Segundo o autor "A sociedade do desempenho produz sujeitos exaustos, incapazes de repousar, porque a própria liberdade converte-se em obrigação de produzir e permanecer conectado". (HAN, 2017).

Nesse contexto, o celular deixa de ser apenas uma ferramenta de comunicação e torna-se um dispositivo de captura contínua da atenção. Redes sociais, vídeos curtos, jogos online e sistemas de notificações produzem estímulos constantes que dificultam a interrupção voluntária do uso da tecnologia.

E, para crianças e adolescentes, cujo desenvolvimento neuropsicológico ainda está em curso, essa dinâmica possui consequências ainda mais graves, especialmente sobre a abstinência do sono.


PRIVAÇÃO DE SONO E DESENVOLVIMENTO NEUROCOGNITIVO

O sono constitui uma necessidade biológica fundamental para o desenvolvimento humano. Durante o repouso noturno ocorrem processos essenciais de consolidação da memória, reorganização neuronal, regulação hormonal e recuperação física e emocional.

Diversos estudos demonstram que adolescentes necessitam, em média, entre oito e dez horas de sono por noite para garantir o funcionamento adequado de suas capacidades cognitivas.

Entretanto, o uso noturno de telas interfere diretamente nesse processo. Isto porque a exposição prolongada à luz emitida pelos dispositivos eletrônicos reduz a produção de melatonina, hormônio responsável pela regulação do ciclo sono-vigília.

Além da interferência luminosa, os conteúdos consumidos nas redes sociais produzem intensa ativação emocional e dopaminérgica. E que os jogos competitivos, vídeos curtos, mensagens instantâneas e sistemas de recompensas variáveis mantêm o cérebro em estado de alerta prolongado, dificultando o relaxamento necessário para o adormecimento.

O resultado é a formação de um padrão de sono fragmentado, superficial e insuficiente.

Mas, mesmo quando o estudante permanece várias horas na cama, a qualidade do descanso encontra-se comprometida; pois, acaba gerando fadiga cognitiva, irritabilidade e dificuldade de autorregulação.


A ESPECIFICIDADE DO PERÍODO VESPERTINO

O fenômeno assume características particulares entre estudantes matriculados no turno vespertino.

Como a entrada na escola ocorre apenas no início da tarde, muitos adolescentes desenvolvem a percepção de que podem permanecer acordados até a madrugada sem consequências imediatas.

Forma-se, assim, um ciclo perverso:

  • utilização do celular durante a noite;

  • atraso progressivo do horário de dormir;

  • sono de baixa qualidade;

  • despertar tardio;

  • fadiga neurocognitiva persistente;

  • desregulação emocional durante o período escolar.

Ao contrário do que o senso comum entende, dormir até mais tarde não elimina os efeitos da privação de sono qualitativo. Por isso, o estudante chega à escola biologicamente cansado, emocionalmente instável e cognitivamente prejudicado.

O resultado manifesta-se diretamente na dinâmica da sala de aula, com seus vários problemas, impactando na organização do trabalho docente.


DA INDISCIPLINA À DESREGULAÇÃO COMPORTAMENTAL

Grande parte dos comportamentos observados atualmente nas escolas públicas, não podem ser explicados apenas pelas categorias clássicas da indisciplina escolar.

Por sua vez, Aquino (1998) argumenta que a indisciplina constitui um fenômeno relacional, social e institucional, não podendo ser reduzida a falhas morais individuais.

No contexto da privação de sono, observa-se algo ainda mais complexo, nos processos de desregulação emocional decorrentes do comprometimento das funções executivas do cérebro.

Entre os sintomas mais frequentes destacam-se:

  • impulsividade excessiva;

  • incapacidade de permanecer concentrado;

  • hiperatividade motora;

  • agressividade verbal;

  • intolerância à frustração;

  • instabilidade emocional;

  • alternância entre agitação extrema e apatia.

Isto porque, no córtex pré-frontal, responsável pelo controle dos impulsos, pela tomada de decisões e pela autorregulação comportamental, encontra-se particularmente vulnerável aos efeitos da privação de sono.

Consequentemente, muitos estudantes passam a apresentar comportamentos que extrapolam os limites tradicionais da indisciplina, aproximando-se de quadros de sofrimento emocional, ansiedade e exaustão neuropsicológica.


IMPACTOS SOBRE A APRENDIZAGEM

A aprendizagem depende diretamente da atenção, da memória e da capacidade de processamento cognitivo. Mas, quando o sono é insuficiente, ocorre redução significativa dessas capacidades.

Por conseguinte, os estudantes apresentam dificuldades para:

  • interpretar textos;

  • resolver problemas;

  • acompanhar explicações;

  • organizar raciocínios complexos;

  • manter atenção sustentada;

  • consolidar conhecimentos.

Esse fenômeno contribui para ampliar dificuldades já presentes na Escola Pública, especialmente em contextos marcados por defasagens acumuladas de alfabetização e letramento.

Posto que a privação de sono torna-se, portanto, um elemento adicional na produção do fracasso escolar.


O IMPACTO SOBRE O TRABALHO DOCENTE

A crise do sono dos estudantes também produz efeitos diretos sobre os professores.

Em vez de dedicar a maior parte de sua energia à mediação do conhecimento, o docente passa a atuar continuamente na contenção de conflitos, reorganização do ambiente escolar e gestão de comportamentos disruptivos.

A consequência é a intensificação do trabalho docente. Quando a aula torna-se fragmentada por interrupções constantes; o planejamento pedagógico perde continuidade; e, o desgaste emocional aumenta.

Nesses casos, muitos professores relatam sensação crescente de impotência diante de turmas permanentemente agitadas, dispersas ou emocionalmente instáveis.

Portanto, a crise do sono dos estudantes converte-se também em uma crise das condições objetivas de ensino, levando, também, ao adoecimento do docente.


A ESCOLA PÚBLICA DIANTE DE UM PROBLEMA SANITÁRIO E EDUCACIONAL

A privação de sono entre crianças e adolescentes deve ser compreendida como um problema de saúde pública, com repercussões educacionais profundas.

Entretanto, não se trata apenas de uma questão individual ou familiar.

Em que a cultura digital contemporânea, organizada por plataformas que disputam a atenção dos usuários vinte e quatro horas por dia, é quem produz condições estruturais para a deterioração dos hábitos de sono.

Em que, a Escola Pública isoladamente, não possui capacidade para enfrentar essa realidade.

Diante disso, torna-se necessária uma articulação entre:

  • políticas educacionais;

  • políticas de saúde;

  • orientação familiar;

  • regulação do uso de dispositivos digitais;

  • programas de educação para o uso consciente das tecnologias.

Além disso, a discussão sobre higiene do sono precisa integrar os projetos pedagógicos das escolas como tema transversal relacionado à saúde, à aprendizagem e à qualidade de vida.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A privação de sono entre estudantes do período vespertino constitui um dos fenômenos mais relevantes e menos debatidos na Escola Pública contemporânea.

Devido a expansão das tecnologias digitais, associada à ausência de limites para o uso noturno de celulares e redes sociais, pela família, tem produzido uma geração marcada pela hiperestimulação permanente, pela redução da capacidade de concentração e pela crescente desregulação emocional.

Assim, os efeitos desse processo manifestam-se diretamente no cotidiano escolar, por meio da agitação excessiva, da impulsividade, da agressividade, da dispersão e da queda do rendimento acadêmico.

Ao mesmo tempo, intensificam-se as dificuldades do trabalho docente e ampliam-se os desafios da organização pedagógica.

Dessa forma, compreender a relação entre cultura digital, privação de sono e comportamento escolar torna-se condição indispensável para qualquer projeto de reconstrução da Escola Pública como espaço efetivo de aprendizagem, desenvolvimento humano e emancipação social.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ADORNO, Theodor. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995.

AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Screen Time Affecting Sleep. 2023. 

AQUINO, Julio Groppa. Indisciplina na escola: alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus, 1998.

CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION. Sleep and Health; Sleep in High School Students. 2024.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber. Porto Alegre: Artmed, 2000.

GOVERNO FEDERAL. Crianças, Adolescentes e Telas: Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais. 2025.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública. São Paulo: Loyola, 2012.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Saúde de crianças e adolescentes na era digital. Rio de Janeiro: SBP, 2024.

UCCELLA, Silvia et al. Sleep deprivation and insomnia in adolescence. Journal of Clinical Medicine, 2023.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)

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