O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO EM KARL MARX E NAHUEL MORENO A Classe Trabalhadora como Sujeito Histórico da Revolução: uma análise comparativa e atualização contemporânea

O PROCESSO REVOLUCIONÁRIO EM KARL MARX E NAHUEL MORENO

A Classe Trabalhadora como Sujeito Histórico da Revolução: uma análise comparativa e atualização contemporânea


Luiz Antonio Sypriano¹


Resumo

O presente estudo realiza uma análise comparativa entre a concepção do processo revolucionário em Karl Marx e a elaboração teórico-política de Nahuel Moreno, inserindo o debate no contexto contemporâneo da luta de classes e das transformações do capitalismo global. Para tanto, parte-se do materialismo histórico-dialético para compreender a revolução como produto das contradições objetivas do modo de produção capitalista, articulando essa perspectiva com o debate sobre os fatores subjetivos, especialmente a organização, a consciência e a direção revolucionária. Em seguida, examina-se a problemática das chamadas revoluções objetivas, das situações revolucionárias e da centralidade da tomada do poder político pela classe trabalhadora. Por fim, analisa-se a atual configuração do proletariado, marcada pela precarização, uberização e fragmentação do trabalho, discutindo os desafios estratégicos da organização revolucionária no século XXI.


Palavras-chave: Karl Marx; Nahuel Moreno; luta de classes; revolução permanente; situação revolucionária; classe trabalhadora.


INTRODUÇÃO


A questão da revolução ocupa posição central em toda a tradição marxista. Desde o Manifesto do Partido Comunista (1848), Marx e Engels afirmam que a história das sociedades divididas em classes é a história da luta de classes, sendo o proletariado o único sujeito capaz de superar a exploração capitalista e inaugurar uma sociedade sem classes.

Entretanto, a experiência histórica do século XX e do início do século XXI impôs novos problemas à teoria revolucionária. Isto porque as Revoluções Russa (1917), Chinesa (1949), Cubana (1959), Vietnamita (1945) e Nicaraguense (1979), assim como as grandes rebeliões contemporâneas, suscitaram debates sobre a relação entre fatores objetivos e subjetivos, sobre a crise de direção revolucionária e sobre a possibilidade de processos revolucionários dirigidos por forças sociais distintas do proletariado organizado.

Nesse contexto, Nahuel Moreno (1924-1987) procurou atualizar criticamente a tradição marxista revolucionária, dialogando com Lenin e Trotsky, especialmente no que diz respeito às categorias de situação revolucionária, revolução permanente, partido revolucionário e revoluções objetivas.

O debate permanece atual diante das profundas crises do capitalismo contemporâneo, da expansão do imperialismo, da precarização do trabalho, do crescimento da extrema-direita e das múltiplas explosões sociais que atravessam o sistema mundial.


O MATERIALISMO HISTÓRICO E A TEORIA MARXIANA DA REVOLUÇÃO


A luta de classes como motor da história

Para Marx, as revoluções não decorrem da vontade individual nem de princípios morais abstratos, mas das contradições objetivas entre as forças produtivas e as relações sociais de produção.

Na famosa formulação do Manifesto Comunista, Marx afirma que "A história de toda sociedade até hoje existente é a história da luta de classes."

A despeito de sua hegemonia, a sociedade capitalista produz continuamente antagonismos entre burguesia e proletariado, concentrando riqueza de um lado e exploração de outro. Por outro lado, o desenvolvimento do capital cria simultaneamente as condições materiais e sociais para sua própria superação.


O proletariado como classe revolucionária

Marx identifica o proletariado como sujeito histórico universal porque sua emancipação implica a destruição das próprias bases da exploração capitalista.

Ao contrário das revoluções burguesas, cuja finalidade era substituir uma classe dominante por outra, a revolução proletária visa abolir a própria existência das classes sociais e a emancipação humana.

Na célebre formulação da Associação Internacional dos Trabalhadores (1864) Marx sintetiza esse princípio: "A emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores."

A partir desse conceito inaugura-se o princípio da independência política de classe, rompendo definitivamente com a ideia de que a burguesia poderia desempenhar qualquer papel progressista duradouro após 1848, o ano da Comuna de Paris.


As revoluções de 1848 e a ruptura histórica

No contexto das revoluções europeias de 1848, essas possuem papel decisivo na elaboração política de Marx.

Inicialmente, setores burgueses e proletários lutaram conjuntamente contra o absolutismo. Entretanto, quando as massas populares passaram a apresentar reivindicações próprias, a burguesia, por outro lado, alinham-se rapidamente às forças conservadoras.

Com a chamada Primavera dos Povos (1848), demonstrou-se que a burguesia havia deixado de ser uma classe revolucionária.

A partir desses acontecimentos, Marx  se utiliza deles para desenvolver os fundamentos da independência política do proletariado, posteriormente consolidados na Primeira Internacional (1864).

Na sua famosa metáfora da "velha topeira" (O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, 1852), que cava silenciosamente até fazer emergir as rupturas subterrâneas da sociedade. Marx afirma que a "velha topeira" representa as forças revolucionárias na relação com o desenvolvimento das contradições materiais do capitalismo; aponta que a revolução não é um evento repentino que surge do nada, mas um processo histórico objetivo que cava silenciosamente "no subsolo" da sociedade, acumulando forças e amadurecendo as condições necessárias até emergir e romper com a velha ordem.


MORENO E A ATUALIZAÇÃO TROTSKISTA DA TEORIA REVOLUCIONÁRIA


A herança de Lenin e Trotsky

Nahuel Moreno insere-se na tradição da Revolução Permanente elaborada por Leon Trotsky (1879-1940).

Segundo essa concepção:

  • a burguesia dos países dependentes é incapaz de realizar plenamente suas tarefas democráticas;

  • cabe ao proletariado dirigir a luta democrática e transformá-la em Revolução Socialista;

  • a revolução possui caráter internacional.

Moreno incorpora ainda o conceito leninista de situação revolucionária, articulando fatores objetivos e subjetivos.


Revoluções objetivas e o debate estratégico

Uma das contribuições mais debatidas do morenismo refere-se às chamadas revoluções objetivas.

Segundo essa elaboração, determinados processos históricos podem ultrapassar os limites inicialmente previstos por suas direções políticas, impulsionados pela profundidade da crise capitalista e pela mobilização das massas.

A discussão torna-se particularmente relevante diante das experiências da China, Cuba, Nicarágua e outros processos do pós-guerra (1945).

Todavia, existe uma importante crítica dentro da própria tradição trotskista, que é a de que processos dirigidos por burocracias ou direções pequeno-burguesas não poderiam conduzir à emancipação dos trabalhadores.

No que é importante destacar que ao firmar pé no conceito de independência de classe e na formulação de que a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores, Marx deixa claro que processos revolucionários, dirigidos por setores estranhos à classe trabalhadora, não podem conduzir os trabalhadores à revolução.

Essa tensão teórica constitui um dos principais debates estratégicos do marxismo contemporâneo.


A situação revolucionária

A tradição de Lenin, Trotsky e Moreno compreende a situação revolucionária como uma conjuntura específica na qual a tomada do poder se torna uma possibilidade concreta.

Concorda-se com os clássicos que a caracterização de situação revolucionária está ligada à possibilidade concreta de tomada do poder. Nessa perspectiva, uma situação revolucionária pressupõe:

  • crise da classe dominante;

  • incapacidade do velho regime de governar como antes;

  • radicalização das massas;

  • disposição revolucionária do proletariado;

  • crise do aparelho estatal;

  • existência de uma direção revolucionária.

Por outro lado, se essa possibilidade não está dada pela ausência de uma direção revolucionária, não há situação revolucionária porque a tarefa principal será construir a direção necessária e ausente.


REVOLUÇÃO, DIREÇÃO E TOMADA DO PODER


O debate entre objetividade e subjetividade percorre toda a tradição marxista.

Mas, o real é que as revoluções sociais surgem das crises estruturais do capitalismo. Entretanto, seu desfecho depende da luta política concreta entre as classes.

Nesse sentido, Trotsky afirmava, no Programa de Transição, que a crise histórica da humanidade reduzia-se à crise da direção revolucionária.

Em consonância com Trotsky, aponta-se que os fatores subjetivos se tornaram os mais objetivos de todos para a abertura de processos revolucionários, que coloquem a questão do poder na ordem do dia, enquanto consciência, organização e direção revolucionárias passaram a ser determinações fundamentais.

Ao se perceber que a experiência histórica demonstra que explosões sociais, greves gerais e insurreições podem ser derrotadas ou desviadas caso não exista uma organização política capaz de disputar a direção do processo.


A REALIDADE CONTEMPORÂNEA DA LUTA DE CLASSES


A nova morfologia do proletariado

O capitalismo contemporâneo transformou profundamente a composição da classe trabalhadora. Isto porque ao proletariado industrial tradicional somaram-se:

  • trabalhadores de aplicativos;

  • terceirizados;

  • trabalhadores de plataformas digitais;

  • setor logístico;

  • trabalhadores remotos;

  • amplos segmentos precarizados do setor de serviços.

Aponta-se que essa heterogeneidade dificulta as formas clássicas de organização sindical, mas não elimina a centralidade do trabalho na produção do valor.


Imperialismo, crise sistêmica e explosões sociais

A crise contemporânea do capitalismo apresenta múltiplas dimensões:

  • crise econômica;

  • crise ambiental;

  • guerras imperialistas;

  • concentração extrema da riqueza;

  • crescimento da extrema-direita;

  • deslegitimação das democracias liberais.

Esses elementos produzem frequentes processos de mobilização de massas em diferentes continentes.

Entretanto, a ausência de organizações revolucionárias com influência de massas frequentemente permite que tais processos sejam absorvidos pelas instituições do próprio regime capitalista.


As nações oprimidas e as tarefas da revolução

Nos países dependentes e periféricos, a articulação entre exploração capitalista e dominação imperialista mantém atual a teoria da revolução permanente; cuja experiência latino-americana demonstra que as tarefas democráticas, nacionais e sociais permanecem profundamente vinculadas à luta contra o imperialismo.

Nesse sentido, as reflexões contemporâneas, sobre a Bolívia, apontam nessa direção ao defender formas transitórias de governo dos trabalhadores e dos povos originários, articuladas à construção de organismos de democracia direta e de auto-organização popular.


QUADRO COMPARATIVO ENTRE MARX E MORENO


Categoria

Karl Marx

Nahuel Moreno

Motor da História

Luta de classes

Luta de classes e crise do imperialismo

Classe Revolucionária

Proletariado

Classe trabalhadora organizada

Revolução

Resultado das contradições do capital

Processo permanente e internacional

Estado

Deve ser destruído

Deve ser destruído e substituído por um governo dos trabalhadores

Partido

Organização política do proletariado

Instrumento decisivo da tomada do poder

Internacionalismo

União internacional dos trabalhadores

Construção de uma direção revolucionária mundial

Problema central

Exploração capitalista

Crise de direção do proletariado 


CONSIDERAÇÕES FINAIS


A análise comparativa demonstra que Marx e Moreno compartilham um núcleo teórico comum, sobre a luta de classes como fundamento da história, a centralidade do proletariado como sujeito revolucionário e a necessidade da destruição do Estado burguês.

Entretanto, as diferenças residem sobretudo no desenvolvimento histórico da teoria revolucionária diante das experiências do século XX e das novas formas assumidas pelo capitalismo.

Enquanto Marx estabeleceu os fundamentos científicos da revolução proletária. Moreno procurou atualizar essa tradição diante do imperialismo, das revoluções do pós-guerra e do problema da crise de direção revolucionária.

No século XXI, a classe trabalhadora apresenta uma configuração distinta daquela observada por Marx no século XVIII, marcada pela fragmentação, pela uberização e pela precarização do trabalho. Contudo, permanece sendo a classe responsável pela produção da riqueza social e, potencialmente, a única capaz de superar o modo de produção capitalista.

Isto porque as condições objetivas da crise capitalista continuam produzindo convulsões sociais e processos de ruptura. Entretanto, a conversão dessas crises em Revoluções Socialistas permanece vinculada aos fatores subjetivos, como consciência de classe, auto-organização, independência política e construção de uma direção revolucionária.

Nessa perspectiva, a reflexão conjunta entre Marx e Moreno permanece relevante para compreender os dilemas estratégicos das lutas sociais contemporâneas e o problema histórico da emancipação da classe trabalhadora.


REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


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SÁENZ, Roberto. O Marxismo e a Transição Socialista. Buenos Aires: Izquierda. Disponível em: <https://izquierdaweb.com/wp-content/uploads/2024/06/El-Marxismo-y-la-Transicion-Socialista-Roberto-Saenz-PDF.pdf>. Acesso em: <06/06/2026>.

TROTSKY, Leon. A Revolução Permanente. São Paulo: Sundermann. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1930/permanente/revolucao-permanente.pdf>. Acesso em: <06/06/2026>.

________. Programa de Transição. São Paulo: Sundermann. Disponível em: <https://www.marxists.org/portugues/trotsky/1938/programa/programa.pdf>. Acesso em: <06/06/2026>.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)

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