O amor como laço do afeto de alegria na plenitude da potência em Espinosa

O amor como laço do afeto de alegria na plenitude da potência em Espinosa

Luiz Antonio Sypriano¹


Resumo

O presente artigo analisa o conceito de amor na Filosofia de Baruch Espinosa (1632-1677), especialmente a partir da articulação entre afeto, alegria, conatus e potência. Na Ética, o amor não é definido como sentimento moral, ideal romântico ou mandamento religioso, mas como “alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior”. Essa definição permite compreender o amor como um laço afetivo pelo qual o sujeito associa o aumento de sua potência de existir a algo ou alguém que aparece como causa dessa expansão. O artigo sustenta que, em Espinosa, o amor pode permanecer no nível passivo, quando dependente de causas externas imaginadas confusamente, ou elevar-se à dimensão ativa, quando mediado por ideias adequadas, pela razão e pelo conhecimento da Natureza. Nesse percurso, o amor atinge sua forma mais elevada no amor intellectualis Dei, isto é, no amor intelectual de Deus ou da Natureza, entendido como alegria ativa fundada na compreensão da ordem necessária do real, da Natureza e suas Leis.


Palavras-chave: Espinosa; amor; alegria; conatus; potência; amor intelectual de Deus.


Introdução

Em Espinosa, o amor não é compreendido como sentimento moral, escolha livre da vontade, ideal romântico ou obediência a um mandamento religioso. O amor é um afeto, isto é, uma modificação do corpo e da mente que expressa uma variação da potência de existir. Na Ética, os afetos são definidos como afecções (que são as marcas, os rastros ou as modificações que o mundo externo deixa em nosso corpo ao longo de nossos encontros, seja pela digestão de um alimento, um som ouvido ou um toque) do corpo pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, favorecida ou impedida, juntamente com as ideias dessas afecções.

Por isso, compreender o amor em Espinosa exige partir de três categorias fundamentais: conatus, alegria e potência. Todo ser, enquanto modo da Natureza, esforça-se para perseverar em seu ser. Esse esforço não é uma escolha moral, mas uma tendência ontológica: cada coisa busca conservar-se, afirmar-se e ampliar sua capacidade de existir. Quando esse esforço é favorecido, experimentamos alegria (é a transição para uma potência maior); quando é bloqueado, experimentamos tristeza (é a transição para uma potência menor). Por conseguinte o amor nasce precisamente quando essa alegria é acompanhada da ideia de uma causa exterior (ou causa transitiva; um fator externo que age sobre um ser finito, determinando-o a mudar, a existir de uma certa maneira ou a ser destruído).


O conatus e a dinâmica da potência

A base da teoria espinosana dos afetos é o princípio segundo o qual cada coisa se esforça, tanto quanto pode, para perseverar em seu ser. Esse esforço é o conatus. Posto que o ser humano, portanto, não é movido por uma alma separada do corpo nem por uma vontade soberana e indeterminada, mas por uma dinâmica natural de autopreservação e expansão da potência.

Espinosa rompe com uma leitura moralista dos afetos, ao apontar que amor, ódio, desejo, alegria e tristeza não são, em si mesmos, pecados, vícios ou virtudes abstratas; mas, acontecimentos naturais, que devem ser compreendidos por suas causas. Por isso, na Parte III da Ética, Espinosa afirma que tratará as ações e os desejos humanos segundo a mesma ordem racional com que se tratam linhas, planos e corpos.

Assim, o ser humano não ama porque simplesmente decide amar por livre-arbítrio (que é uma ilusão humana gerada pela ignorância). Ele ama porque algo, alguém, uma ideia, uma prática, uma comunidade ou uma forma de vida aumenta sua potência de existir. Portanto, o amor é o efeito de uma composição entre corpos, ideias e afetos.


Alegria como passagem a uma maior perfeição

A alegria, em Espinosa, não é mero prazer psicológico ou satisfação momentânea. Ela é uma passagem, de uma perfeição menor para uma perfeição maior. Isso significa que a alegria indica aumento de realidade, aumento de força, aumento da capacidade de agir e pensar.

Assim, quando algo nos alegra, nosso corpo se torna mais apto a agir e nossa mente mais apta a compreender. Por isso, a alegria possui, assim, uma dimensão ontológica e ética. Ontológica porque expressa aumento da potência de existir; ética porque indica uma relação que favorece a vida, a ação e a liberdade (consiste em compreendermos a Natureza e a nós mesmos, transformando nossas ideias inadequadas em ideias adequadas).

Daí decorre uma consequência decisiva: aquilo que aumenta nossa potência tende a ser buscado, conservado e mantido presente. Por isso é que a mente se esforça para imaginar aquilo que favorece a potência de agir do corpo. Em que, na alegria, portanto, tende a conservar sua causa, que está na Natureza. E é desse vínculo entre aumento de potência e causa exterior é que nasce o amor.


O amor como alegria acompanhada da ideia de causa exterior

A definição espinosana é precisa: o amor é alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior. Essa formulação é decisiva porque retira o amor do campo da idealização moral e o insere no campo da causalidade afetiva.

Por isto é que o amor não é simplesmente alegria; mas a alegria ligada a uma causa externa. Amo aquilo que imagino, compreendo ou sinto como causa do aumento da minha potência. Quando uma pessoa, uma obra, uma luta, uma amizade, uma comunidade ou uma ideia amplia minha capacidade de existir, pensar e agir, a mente associa essa alegria ao que aparece como sua causa. Portanto, esse vínculo é o amor.

Por isso, amar é desejar conservar presente aquilo que aumenta nossa potência; ao qual Espinosa afirma que quem ama se esforça para ter e conservar presente o objeto amado. Por que o amor é, nesse sentido, um laço de presença: queremos permanecer junto daquilo que nos torna mais vivos, mais fortes e mais capazes.

Por outro lado, o ódio é a tristeza (quando algo exterior diminui nossa potência de agir) acompanhada da ideia de uma causa exterior. 


Amor passivo, dependência e instabilidade

O amor, enquanto afeto de alegria, pode existir em diferentes graus. No nível mais comum, ele aparece como paixão, isto é, como afeto passivo. Isso ocorre quando o sujeito atribui sua alegria exclusivamente a uma causa exterior, sem compreender adequadamente as condições que produzem esse afeto.

Nesse caso, o amor pode converter-se em dependência, ciúme, medo, submissão ou sofrimento. Isto porque a causa exterior é instável: muda, desaparece, frustra expectativas, escapa ao controle do sujeito. Por isso, o amor passivo pode transformar-se rapidamente em tristeza ou ódio. Na qual a própria Ética observa que o amor e o desejo podem tornar-se excessivos quando submetidos à força das paixões.

O problema, portanto, não está no amor enquanto alegria, mas na sua passividade. Quando o amor se apoia apenas na imaginação confusa, ele se prende ao objeto amado como se este fosse fonte absoluta da própria potência. Desse modo, o sujeito permanece dependente da exterioridade.


Amor ativo e plenitude da potência

O amor ativo nasce quando a alegria é acompanhada de maior compreensão. Quer-se dizer que quanto mais o sujeito compreende seus afetos, suas causas e sua inserção na ordem da Natureza, menos é arrastado por paixões confusas. Daí é que Espinosa afirma que uma paixão deixa de ser paixão quando formamos dela uma ideia clara e distinta.

Aqui aparece a plenitude da potência: amar não como carência, posse ou dependência, mas como expansão da força de existir; isto porque o amor ativo não aprisiona; amplia; não enfraquece; fortalece; não reduz o outro a objeto de necessidade; mas, compõe com ele uma relação que aumenta a potência comum.

Por isso, a pergunta espinosana sobre o amor não seria: “este amor corresponde a uma norma moral externa?”. Mas, a pergunta seria: este amor aumenta ou diminui minha potência de existir? Se aumenta a capacidade de pensar, agir, criar, compreender e viver, trata-se de um bom encontro; por outro lado, se produz servidão, medo e impotência, trata-se de uma relação triste, ainda que seja chamada de amor.


Deus sive Natura e o amor intelectual de Deus

A forma mais elevada do amor em Espinosa é o amor intellectualis Dei, o amor intelectual de Deus ou Natureza. Contudo, “Deus” em Espinosa não significa um Deus pessoal, transcendente e moralizador. Mas, a fórmula Deus sive Natura indica Deus, ou seja, a Natureza, que na metafísica espinosana, identifica Deus à substância infinita, à totalidade necessária do real.

Portanto, o amor intelectual de Deus nasce do conhecimento adequado e, em sua forma mais elevada, do terceiro gênero de conhecimento, isto é, da compreensão intuitiva das coisas em sua relação necessária com a Natureza. Segundo algumas análises, esse terceiro gênero de conhecimento permite experimentar um amor que participa do amor infinito de Deus por si mesmo.

Assim, esse amor não é paixão religiosa; mas, é alegria racional e intuitiva. Quando a mente compreende a si mesma, os outros e o mundo como expressões da mesma Natureza infinita. Nesse ponto, amor, conhecimento, alegria e liberdade convergem. Posto que amar Deus, em Espinosa, é alegrar-se na compreensão da totalidade natural da qual fazemos parte.


Amor e liberdade

Em Espinosa, liberdade não é livre-arbítrio. Ser livre não é escolher arbitrariamente entre alternativas, mas agir segundo a necessidade da própria natureza, guiado por ideias adequadas. Posto que a liberdade é potência compreendida.

Por isso, o amor mais livre é aquele que nasce do conhecimento adequado. Porque, quanto mais compreendo as causas dos meus afetos, menos sou dominado por eles. Sendo que o amor, em sua plenitude, não é cegueira afetiva, mas lucidez; não é perda de si, mas aumento da potência de ser; não é submissão à exterioridade, mas participação ativa na ordem da Natureza.

Nesse sentido, a plenitude do amor não está na posse do objeto amado; todavia, está na ampliação da potência comum. Pois, amar é participar de uma composição que aumenta a vida; é experimentar uma alegria que não reduz o sujeito à dependência, mas o conduz a uma existência mais ativa, consciente e livre.


Considerações Finais

A partir das pesquisas, aponta-se que a Filosofia de Espinosa permite pensar o amor de modo profundamente materialista, ético e afirmativo. Compreende-se que o amor não é falta, pecado, ideal abstrato ou mandamento exterior; mas, uma experiência de potência.

É possível afirmar que amamos aquilo que nos alegra porque aumenta nossa capacidade de existir. Entretanto, o amor mais elevado não é aquele que nos prende a uma causa exterior instável, mas aquele que nos conduz à compreensão de nós mesmos, dos outros e da Natureza como expressões de uma mesma realidade.

Assim, o amor, enquanto laço do afeto de alegria, atinge sua plenitude quando deixa de ser paixão de dependência e se torna potência ativa de vida, pensamento, liberdade e comunhão com a totalidade natural. Em termos espinosanos, aponta-se que amar plenamente é alegrar-se no aumento da potência de existir, compreendendo que toda alegria verdadeira é expansão da vida na Natureza.


Referência Bibliográfica

AYALON, Noal. Love and Essence in Spinoza’s Ethics. Manuscrito, Campinas, 2021.

NADLER, Steven. Baruch Spinoza. Stanford Encyclopedia of Philosophy, 2001.

SPINOZA, Baruch. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

_______. Ethics. Wikisource. Partes III, IV e V.

STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Spinoza on the Emotions. Stanford University.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)

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