Reflexão sobre o texto "Odeio os indiferentes", de Antonio Gramsci, a partir da temática de que a Educação não é mercadoria, mas o despertar para o sonho de uma outra Escola possível
Luiz Antonio Sypriano¹
Introdução
A leitura de "Odeio os indiferentes", de Antonio Gramsci (1891-1937), pode ser compreendida como uma profunda reflexão sobre a relação entre educação, consciência crítica, responsabilidade histórica e participação política. Quando articulada com a célebre afirmação de Gramsci - "Estudem, porque precisaremos de toda a inteligência de vocês" -, o texto revela que a transformação social depende não apenas da indignação, mas da formação intelectual e moral dos sujeitos.
A educação como arma contra a indiferença
Para Gramsci, a educação jamais é um processo neutro. Ela constitui um instrumento de formação da consciência capaz de romper com o conformismo e com o senso comum produzido pelas estruturas de poder.
A frase "Estudem, porque precisaremos de toda a inteligência de vocês", no texto de Gramsci, expressa a convicção de que a luta política exige conhecimento, capacidade analítica e compreensão crítica da realidade. Por conseguinte, não basta desejar uma sociedade melhor; é necessário compreender os mecanismos econômicos, políticos e culturais que reproduzem as desigualdades.
Nesse sentido, a educação não é privilégio de uma elite, mas um direito coletivo e uma necessidade histórica. Por isso é que o estudo torna-se uma forma de resistência à manipulação ideológica e à naturalização das injustiças.
A crítica à neutralidade
O eixo central de "Odeio os indiferentes" é a recusa da neutralidade política.
Com isso, Gramsci afirma que "Viver quer dizer ser partidário". Essa afirmação não significa adesão cega a um partido político, mas o reconhecimento de que ninguém está fora da história. Isto porque todo indivíduo participa, consciente ou inconscientemente, da construção da sociedade.
Sendo aquele/a que se declara indiferente, acaba permitindo que outros decidam por ele/a. Pois a omissão não elimina a responsabilidade; pelo contrário, torna-se uma forma passiva de colaboração com a manutenção das estruturas existentes.
Sendo assim, a indiferença aparece, então, como:
abulia (falta de vontade);
parasitismo social;
covardia moral;
renúncia à cidadania.
Posto que a História é construída pelos seres humanos.
E, um dos aspectos mais importantes do texto é a crítica à ideia de fatalidade histórica.
Desta forma, Gramsci rejeita a concepção de que os acontecimentos sociais sejam fruto do destino ou de forças naturais inevitáveis. Para ele, a História é resultado das ações e também das omissões humanas.
Seu argumento está presente quando escreve que "O que acontece não acontece porque alguns querem que aconteça, mas porque a massa dos homens abdica da sua vontade"; por isso o autor destaca que a passividade das maiorias permite que pequenos grupos organizados conduzam os destinos da coletividade.
Em síntese, a aparente inevitabilidade dos acontecimentos é, na verdade, consequência da ausência de participação popular.
Educação e hegemonia cultural
A reflexão sobre o texto citado dialoga diretamente com um dos conceitos mais conhecidos do pensamento gramsciano, que é a hegemonia cultural.
Segundo Gramsci, as classes dominantes não exercem seu poder apenas pela força econômica ou estatal, mas também pela capacidade de produzir valores, crenças e formas de pensar que são aceitas como naturais pela sociedade.
Por isso, a educação possui papel estratégico. Porque ela deve formar sujeitos capazes de:
interpretar criticamente a realidade;
questionar o senso comum;
compreender as relações de poder;
construir novas formas de organização social;
participar conscientemente da vida pública.
Posto que a luta política é, simultaneamente, uma luta pedagógica e cultural.
O intelectual e a responsabilidade histórica
A famosa recomendação de Gramsci aos jovens de que "Estudem, porque precisaremos de toda a inteligência de vocês. Agitem-se, porque precisaremos de todo o entusiasmo de vocês. Organizem-se, porque precisaremos de toda a força de vocês." expressa a unidade entre três dimensões fundamentais, para:
Estudar: desenvolver consciência crítica.
Agitar-se: não aceitar passivamente as injustiças.
Organizar-se: transformar a indignação em ação coletiva.
Nesse horizonte, o intelectual não é um especialista isolado, mas alguém comprometido com a vida social e com a construção de uma nova consciência coletiva.
A atualidade do texto
Embora tenha sido escrito em 1917, "Odeio os indiferentes" permanece atual porque aborda problemas permanentes do regime de produção capitalista e das relações políticas contemporâneas.
Daí que a reflexão pode ser relacionada a fenômenos como:
apatia política;
desinteresse pela participação cidadã;
desinformação;
naturalização das desigualdades;
delegação completa das decisões públicas a pequenos grupos organizados.
Por isso que Gramsci recorda que direitos sociais, democracia e justiça não são resultados automáticos da História, mas são conquistas que dependem da participação consciente dos cidadãos.
Educação não é mercadoria: uma outra escola possível
Articulando o texto com a temática "Educação não é mercadoria: o despertar para o sonho de uma outra escola possível", percebe-se que Gramsci concebe a escola como espaço de emancipação humana.
Nesta concepção de uma escola comprometida apenas com a adaptação ao mercado, tende a formar indivíduos tecnicamente treinados, mas politicamente passivos.
Já uma escola democrática popular e crítica, busca formar sujeitos capazes de:
pensar autonomamente;
compreender a sociedade em que vivem;
exercer a cidadania ativa;
participar das decisões coletivas;
transformar a realidade histórica.
E a educação, nessa perspectiva, deixa de ser simples treinamento para o trabalho e converte-se em instrumento de liberdade e construção da dignidade humana.
Consideração Final
"Odeio os indiferentes" é, ao mesmo tempo, uma denúncia e um chamado à ação política. Por isso é que Gramsci afirma que a História não é feita apenas pelos grandes líderes ou pelos grupos dominantes, mas também pelas escolhas cotidianas de milhões de pessoas.
Em sua defesa do estudo como forma de emancipação, sintetiza a convicção de que a inteligência crítica é condição indispensável para a transformação social.
Assim, a máxima gramsciana permanece profundamente atual, no que se refere ao imperativo de que "Estudem, porque precisaremos de toda a inteligência de vocês."
Pois, ela expressa a ideia de que uma sociedade mais justa depende da formação de cidadãos capazes de superar a indiferença, assumir responsabilidades históricas e compreender que a educação é um direito universal e uma poderosa ferramenta de construção de uma nova cultura política, fundada na participação, na solidariedade e na emancipação humana.
Referência Bibliográfica
GRAMSCI, Antonio. Odeio os Indiferentes. Disponível em: <https://pcb.org.br/portal2/667>. Acesso em: <11/06/2026>.
¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)
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