O USO EXTENSIVO DE TELAS PELOS ESTUDANTES DA EDUCAÇÃO BÁSICA, GERANDO COMORBIDADES E OS IMPACTOS NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM
Luiz Antonio Sypriano¹
Resumo
O presente artigo analisa o uso extensivo de telas por estudantes da Educação Básica e suas implicações para a saúde física, psíquica, cognitiva e para o desempenho escolar. Parte-se da compreensão de que a tecnologia digital não é, em si mesma, prejudicial ao processo educativo, podendo constituir importante mediação pedagógica quando utilizada de forma planejada, crítica e orientada. O problema emerge quando o uso de smartphones, redes sociais, jogos, vídeos curtos e plataformas digitais assume caráter compulsivo, prolongado e noturno, interferindo no sono, na atenção, na memória, na saúde mental, na socialização e na disposição para os estudos. A partir de pesquisas recentes e de relatos jornalísticos sobre dependência digital, discute-se a relação entre uso problemático de telas, ansiedade, depressão, privação de sono, sedentarismo, fadiga ocular, dores corporais, procrastinação acadêmica e queda do rendimento escolar. E, portanto, conclui-se que o fenômeno deve ser tratado como questão pedagógica, sanitária, familiar e social, exigindo ações articuladas entre escola, família, Estado e políticas públicas de proteção à infância e à adolescência.
Palavras-chave: uso de telas; Educação Básica; dependência digital; saúde mental; aprendizagem; sono; desempenho escolar.
Introdução
O uso extensivo de telas por crianças e adolescentes tornou-se uma das marcas mais visíveis da vida contemporânea. Pelo fato de que smartphones, tablets, computadores, jogos digitais, redes sociais e plataformas de vídeo ocupam parte significativa do cotidiano dos estudantes da Educação Básica. Constata-se que a digitalização da vida social, intensificada nos últimos anos, alterou profundamente as formas de comunicação, lazer, estudo, interação familiar e relação com o conhecimento.
Enquanto que, no campo educacional, a tecnologia pode favorecer pesquisas, ampliar o acesso à informação, diversificar metodologias, democratizar materiais didáticos e enriquecer práticas pedagógicas. No entanto, quando o uso das telas se torna excessivo, compulsivo, desregulado e noturno, ele passa a produzir efeitos negativos sobre o desenvolvimento físico, psíquico e cognitivo dos estudantes.
Por exemplo, na reportagem “‘Eu ficava até 14h por dia no celular. Estou fazendo terapia para combater meu vício’” apresenta o caso de Marios, personal trainer em Londres, que relata ter passado até 14 horas por dia diante do celular, especialmente no Instagram. Segundo ele, o telefone funcionava como uma espécie de “droga” sempre disponível no bolso, piscando, apitando e convocando uma nova dose de atenção. A reportagem também indica que centros de tratamento de dependência têm recebido mais pessoas com uso descontrolado do telefone, embora o “vício em telefone” ainda não seja classificado oficialmente como diagnóstico específico nos manuais internacionais de saúde mental.
Esse exemplo permite compreender um fenômeno mais amplo: a transformação do dispositivo digital em mecanismo permanente de captura da atenção. Já na escola, esse processo aparece sob a forma de sonolência, desatenção, irritabilidade, indisciplina, ansiedade, dificuldade de leitura, baixa concentração e queda no desempenho acadêmico.
Uso extensivo de telas e dependência digital
O problema do uso de telas não pode ser reduzido apenas à quantidade de horas diante dos dispositivos. É necessário considerar o tipo de uso, o horário, a finalidade, o grau de controle do estudante e os impactos concretos sobre sua vida. Isto porque há diferença entre usar a tecnologia para estudar, pesquisar, escrever, produzir conhecimento ou assistir a uma aula e permanecer horas consumindo vídeos curtos, jogos, redes sociais e notificações contínuas.
Entretanto, o uso extensivo torna-se problemático quando o estudante perde o controle sobre o tempo de tela, sentem ansiedade quando está longe do aparelho, utiliza o celular durante a madrugada, abandona tarefas escolares, reduz o convívio presencial e passa a depender da tela para lidar com tédio, solidão, angústia ou frustração.
Nesse sentido, a dependência digital aproxima-se de outras dependências comportamentais, pois envolve mecanismos de recompensa imediata, repetição compulsiva, tolerância, abstinência e prejuízo funcional. O grupo Internet and Technology Addicts Anonymous, inspirado nos Alcoólicos Anônimos, define-se como uma irmandade mundial de 12 passos voltada a pessoas que desejam parar o uso compulsivo da internet e da tecnologia, incluindo redes sociais, smartphones, streaming, jogos, notícias e outras práticas digitais problemáticas.
Posto que o estudante submetido a esse ciclo passa a viver sob constante solicitação externa. Pois, a cada notificação, curtida, mensagem ou novo vídeo, há uma promessa de recompensa rápida. Nesse sentido, a consequência pedagógica é grave: o estudo, que exige demora, silêncio, elaboração, leitura, escrita e concentração, passa a parecer lento, cansativo e pouco atraente diante da velocidade das plataformas digitais.
As comorbidades decorrentes do uso excessivo de telas
O uso extensivo de telas está associado a diferentes comorbidades físicas, emocionais e cognitivas. Essas comorbidades não aparecem de forma isolada, mas como uma rede de efeitos que atinge diretamente a vida escolar dos estudantes.
Distúrbios do sono
Uma das consequências mais graves é a privação do sono. Quando crianças e adolescentes, que permanecem no celular durante a noite, especialmente em redes sociais, jogos, vídeos e mensagens, atrasam o horário de dormir e reduzem a qualidade do descanso. Nesse caso, a exposição à luz das telas, somada à excitação emocional das interações digitais, interfere no ciclo circadiano e dificulta o início do sono.
Em pesquisas, como a da revisão sistemática publicada em Sleep Medicine Reviews, identificou associação entre uso de mídias digitais, menor duração do sono, pior qualidade do descanso, uso noturno de celular, sonolência diurna e atraso no horário de dormir entre adolescentes mais velhos e jovens adultos.
Por conseguinte, na escola, a privação do sono compromete a atenção, a memória, o humor e a disposição para aprender. Enquanto o estudante que passa a madrugada conectado chega à sala de aula cansado, irritado, disperso e biologicamente indisponível para acompanhar o processo de ensino-aprendizagem.
Ansiedade, depressão e sofrimento psíquico
O uso problemático de smartphones também está associado a sintomas de ansiedade e depressão. Uma meta-análise com 27 estudos e mais de 120 mil participantes encontrou associação moderada e consistente entre uso problemático de smartphones e sintomas de ansiedade e depressão.
Posto que as redes sociais intensificam processos de comparação social, busca por validação, medo de exclusão, dependência de curtidas e exposição permanente à vida dos outros. Para adolescentes em processo de formação da identidade, isso pode produzir baixa autoestima, insegurança, isolamento, sofrimento emocional e maior vulnerabilidade psíquica.
No cotidiano escolar, tais sintomas podem aparecer como apatia, choro, agressividade, isolamento, crises de ansiedade, dificuldade de relacionamento, baixa participação e perda de interesse pelos estudos.
Hiperestimulação e dificuldade de atenção
O uso excessivo de telas, especialmente de vídeos curtos, jogos e redes sociais, estimula respostas rápidas, fragmentadas e imediatas. Que afetam o estudante, que se acostuma a uma sequência de estímulos velozes, recompensas instantâneas e mudanças constantes de foco.
Isso não significa afirmar que as telas “causam” TDAH de modo direto e simplista. O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é uma condição complexa, multifatorial e clínica. Entretanto, a cultura digital hiperestimulante pode agravar sintomas de desatenção, impulsividade, inquietação e baixa tolerância ao esforço cognitivo prolongado.
Ao contrário desses comportamentos, a sala de aula exige outro regime de atenção: escuta, leitura, escrita, espera, interpretação e raciocínio abstrato. Mas, quando o estudante se habitua à gratificação imediata das telas, o estudo passa a parecer excessivamente lento e frustrante.
Sedentarismo, obesidade e problemas físicos
O tempo excessivo diante das telas também reduz o tempo dedicado a atividades físicas, brincadeiras, esportes, convivência presencial e experiências ao ar livre. Essa substituição favorece o sedentarismo, o ganho de peso, alterações metabólicas e menor disposição corporal.
Além disso, o uso prolongado de celulares e computadores pode causar fadiga ocular, ressecamento dos olhos, visão turva, dores de cabeça, dores cervicais, dores nos ombros e problemas posturais. Além da chamada “síndrome da visão computacional” e o chamado “pescoço de texto” são manifestações físicas de um corpo submetido por longos períodos à postura curvada e à fixação visual em telas.
Esses problemas repercutem nos estudos porque provocam cansaço, dor, desconforto e redução da capacidade de permanência em atividades escolares.
Impactos no processo de ensino-aprendizagem
As comorbidades associadas ao uso extensivo de telas produzem impactos diretos sobre o rendimento escolar. O problema não é apenas a perda de tempo, mas a transformação das condições subjetivas e cognitivas necessárias para aprender.
Prejuízo da memória
O sono é fundamental para a consolidação da memória. Durante o repouso, o cérebro organiza, processa e fixa informações adquiridas ao longo do dia. Quando o estudante dorme pouco ou dorme mal, sua capacidade de reter conteúdos diminui.
Assim, mesmo presente na sala de aula, o estudante privado de sono tende a esquecer mais rapidamente o que foi explicado, apresenta dificuldade em recuperar informações e tem menor desempenho em avaliações.
Fragmentação da atenção
A alternância constante entre mensagens, vídeos, músicas, redes sociais, jogos e tarefas escolares produz uma atenção fragmentada. A chamada multitarefa é, em grande parte, ilusória. O cérebro não se aprofunda em várias tarefas complexas ao mesmo tempo; ele alterna rapidamente entre elas, com perda de qualidade, aumento de erros e maior fadiga mental.
Na escola, isso aparece como dificuldade para ler textos longos, interpretar enunciados, acompanhar explicações, resolver problemas, escrever respostas completas e concluir atividades.
Procrastinação acadêmica
As plataformas digitais são desenhadas para capturar a atenção pelo maior tempo possível, como as curtidas, notificações, rolagem infinita e vídeos automáticos que produzem recompensas rápidas. Por outro lado, o estudo, que exige esforço, disciplina e resultados de médio ou longo prazo.
Por isso, muitos estudantes adiam tarefas, deixam atividades incompletas, não estudam para avaliações e substituem o tempo de aprendizagem por consumo digital contínuo. Por sua vez, a escola passa a competir com dispositivos e plataformas muito mais eficazes na captura imediata do desejo.
Queda no desempenho escolar
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada na JAMA Pediatrics analisou estudos sobre crianças e adolescentes e encontrou associação inversa entre algumas atividades de tela, especialmente televisão e videogames, e desempenho acadêmico, com impacto mais forte entre adolescentes do que entre crianças.
Por isso, é importante destacar que nem todo uso de telas prejudica a aprendizagem. Isto porque o efeito depende do conteúdo, da finalidade, do tempo, da mediação pedagógica e do contexto familiar. Posto que telas podem ser ferramentas educativas. Entretanto, o problema central é o uso recreativo excessivo, compulsivo, noturno e sem regulação.
Escola, família e políticas públicas
O enfrentamento do uso extensivo de telas não pode ser atribuído apenas ao estudante. Trata-se de um fenômeno social, tecnológico, econômico e cultural. Tendo em vista que as plataformas digitais são organizadas para capturar atenção, produzir engajamento e prolongar o tempo de permanência dos usuários.
Nesse sentido, a família tem papel decisivo na regulação do uso, especialmente no período noturno. Posto que dormir com o celular no quarto, receber notificações de madrugada e ter acesso ilimitado às redes sociais são fatores que dificultam qualquer rotina saudável.
Enquanto a escola, por sua vez, precisa trabalhar a educação digital crítica. Isso significa discutir com os estudantes o funcionamento dos algoritmos, a economia da atenção, os efeitos do uso noturno de telas, a importância do sono, da leitura, da concentração e da convivência presencial.
Já a Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda evitar telas antes dos 2 anos, limitar o uso a 1 hora diária entre 2 e 5 anos, a 1 ou 2 horas entre 6 e 10 anos e a 2 ou 3 horas entre 11 e 17 anos, sempre evitando que crianças e adolescentes passem a noite jogando ou usando telas.
Entre as medidas possíveis, destacam-se: retirar telas de 1 a 2 horas antes de dormir; não permitir celular no quarto durante a noite; usar modo “não perturbe” nos horários de estudo; estabelecer blocos de concentração; estimular leitura, escrita manual, esporte, convivência presencial e atividades culturais; além de acompanhar sinais de sofrimento psíquico.
Considerações Finais
O uso extensivo de telas pelos estudantes da Educação Básica constitui um problema complexo, situado entre saúde pública, pedagogia, cultura digital e organização familiar. Posto que suas consequências aparecem em comorbidades como privação do sono, ansiedade, depressão, sedentarismo, fadiga ocular, dores corporais, impulsividade e dificuldade de atenção.
Essas comorbidades impactam diretamente o processo de ensino-aprendizagem, pois prejudicam a memória, reduzem a concentração, aumentam a procrastinação, enfraquecem a leitura, dificultam o raciocínio abstrato e comprometem o rendimento escolar.
Nesse sentido, o desafio não é negar a tecnologia, mas recolocá-la em seu devido lugar. Se quer dizer que as telas devem ser instrumentos de formação, pesquisa, comunicação e produção de conhecimento, e não mecanismos de dependência, isolamento e captura permanente da atenção.
Por conseguinte, uma educação comprometida com o desenvolvimento integral dos estudantes precisa enfrentar criticamente o uso excessivo de telas, articulando escola, família, saúde pública e políticas de proteção à infância e à adolescência. Mas, sem essa articulação, a escola continuará recebendo estudantes cansados, ansiosos, dispersos e desmotivados, enquanto a indústria digital seguirá disputando, minuto a minuto, a atenção que deveria estar disponível para a aprendizagem, a convivência e a formação humana.
Referência Bibliográfica
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¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política)
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