Reflexão sobre o conto “A árvore de Natal na casa de Cristo”, de Fiódor Dostoiévski, a partir da temática da Educação não é mercadoria: o despertar para o sonho de uma outra escola possível

 Reflexão sobre o conto “A árvore de Natal na casa de Cristo”, de Fiódor Dostoiévski, a partir da temática da Educação não é mercadoria: o despertar para o sonho de uma outra escola possível

Luiz Antonio Sypriano¹


Introdução

O conto de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) apresenta uma das mais profundas denúncias literárias da desigualdade social, da indiferença humana e da exclusão das crianças pobres. Embora escrito no século XIX, seu conteúdo permanece atual diante das contradições das sociedades contemporâneas, marcadas pela concentração da riqueza e pela negação de direitos fundamentais. Lido sob a perspectiva da temática "Educação não é mercadoria: o despertar para o sonho de uma outra escola possível", o texto revela uma crítica radical à lógica que transforma a infância em objeto descartável e os direitos sociais em privilégios de poucos.


A criança invisível e a exclusão educacional

O menino protagonista representa milhões de crianças que vivem à margem da sociedade. Ele não possui casa digna, alimentação, proteção familiar ou acesso à escola. Sua existência é ignorada pelas autoridades e pela população. O policial "finge que não vê", os ricos o expulsam e a cidade continua sua rotina de consumo e festividade.

Essa invisibilidade social também pode ser compreendida como invisibilidade educacional. Em muitas sociedades, a escola deixa de ser um espaço de emancipação para reproduzir as desigualdades existentes. Crianças pobres, negras, indígenas, periféricas ou com deficiência frequentemente encontram instituições incapazes de acolher suas necessidades concretas.

A narrativa nos leva a perguntar:

  • Quantas crianças ainda chegam à escola com fome?

  • Quantas abandonam os estudos porque precisam trabalhar?

  • Quantas são tratadas como números em avaliações padronizadas?

  • Quantas permanecem invisíveis para um sistema que privilegia resultados estatísticos em detrimento da formação integral humana?

Nesse sentido, o menino de Dostoiévski simboliza todos aqueles que foram excluídos do direito de aprender.


A mercantilização da educação

O contraste entre o menino faminto e as crianças ricas que brincam diante da árvore de Natal evidencia uma sociedade profundamente desigual. Ainda mais, expõe duas infâncias, uma protegida e outra condenada à sobrevivência.

Por conseguinte, quando a educação é tratada como mercadoria, essa divisão tende a se aprofundar. Nela, o conhecimento passa a ser um produto, a escola transforma-se em empresa, enquanto os estudantes em clientes e os professores em executores de metas produtivistas.

Sob essa lógica:

  • a aprendizagem é reduzida a índices e rankings;

  • o sucesso escolar torna-se privilégio daqueles que possuem melhores condições materiais;

  • a formação crítica cede espaço ao treinamento para o “mercado de trabalho”;

  • a solidariedade é substituída pela competição, valorando-se a meritocracia.

Quando o conto demonstra que uma sociedade organizada apenas pelo lucro produz crianças descartáveis. Por isso, constata-se, que a morte do menino é a consequência extrema de uma ordem social que naturaliza a desigualdade.


Uma outra escola é possível

A "Árvore de Natal de Cristo" possui um significado profundamente simbólico. Pois ela representa um mundo no qual todas as crianças são acolhidas, respeitadas e reconhecidas em sua dignidade humana.

Enfim, se a literatura constrói esse espaço como uma esperança transcendente, a educação crítica pode transformá-lo em um projeto histórico e concreto, imanente.

Quando se afirma que uma outra escola é possível, refere-se àquela que:

  • compreende a educação como direito universal e não como mercadoria;

  • acolhe as diferenças sociais, culturais e humanas;

  • combate a fome, a exclusão e todas as formas de discriminação;

  • valoriza a formação ética, política e intelectual dos estudantes;

  • constrói relações baseadas na cooperação e no respeito, e não na competição;

  • reconhece que nenhum processo de aprendizagem é possível quando a sobrevivência está ameaçada.

Nessa perspectiva, ensinar não significa apenas transmitir conteúdos, mas afirmar que toda criança possui direito à existência plena; ao mesmo tempo, que o conhecimento apreendido, sirva para a transformação da sociedade.


O despertar do sonho

O "sonho" presente na temática não é uma fantasia alienante. Trata-se da capacidade humana de imaginar e construir uma realidade diferente da existente.

Na pedagogia crítica, inspirada em autores como Paulo Freire, busca-se afirmar que a educação deve despertar a consciência dos sujeitos sobre as estruturas de opressão e fortalecer sua capacidade de transformá-las. Pois, para Freire, a esperança não é a espera passiva, mas ação coletiva para transformar a realidade do presente.

Nesse sentido, o conto de Dostoiévski funciona como um chamado ético à consciência crítica e à ação transformadora. Pelo fato de que o verdadeiro escândalo não é apenas a morte da criança, mas o fato de que toda a sociedade tenha aceitado sua exclusão como algo normal.

Para isso, despertar para uma outra escola possível significa recusar essa naturalização.


Consideração Final

A narrativa de A árvore de Natal na casa de Cristo denuncia uma sociedade que permite que uma criança morra de fome e frio enquanto vitrines exibem abundância e luxo. Interpretada à luz da defesa de que a educação não é mercadoria, o texto de  Dostoiévski revela que não pode existir uma escola verdadeiramente democrática em uma sociedade que transforma direitos em privilégios.

Portanto, o conto nos convida a compreender que a educação deve ser um espaço de humanização, solidariedade e emancipação. A partir dele pode-se afirmar que uma outra escola é possível, sendo aquela em que nenhuma criança seja invisível, em que o conhecimento seja um bem comum e em que a dignidade humana prevaleça sobre a lógica do mercado.

Entretanto, a pergunta que Dostoiévski deixa para o leitor continua atual: quantas crianças ainda precisam encontrar sua "árvore de Natal" apenas no sonho, porque a sociedade lhes negou o direito de viver, aprender e esperar?


Referência Bibliográfica

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. A árvore de Natal na casa de Cristo. Disponível em: <https://andersonsandes.com.br/a-arvore-de-natal-na-casa-de-cristo-fiodor-dostoievski/>. Acesso em: <10/06/2026>. 


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)

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