Educação não é Mercadoria: o Despertar da Consciência Crítica em O Operário em Construção, de Vinícius de Moraes

 Educação não é Mercadoria: o Despertar da Consciência Crítica em O Operário em Construção, de Vinícius de Moraes

Luiz Antonio Sypriano¹


Introdução

A partir da temática "Educação não é mercadoria: uma outra educação é possível", o poema O Operário em Construção, de Vinícius de Moraes (1913-1980), pode ser compreendido como uma poderosa metáfora do processo educativo emancipador. Mais do que narrar a trajetória de um trabalhador, a obra apresenta o nascimento de uma consciência crítica, capaz de romper com a alienação e transformar a realidade social.


Educação e Consciência de Classe: do fazer mecânico ao pensar crítico

No início do poema, o operário trabalha sem compreender o significado de sua própria atividade. Ele, apenas, constrói casas, edifícios, igrejas e cidades, mas não percebe que é o verdadeiro criador da riqueza social. Pois sua existência é marcada pela repetição, pela obediência e pela ausência de reflexão.

Essa condição descrita do trabalhador pode ser comparada a uma educação reduzida à lógica do mercado, em que estudantes são preparados apenas para executar tarefas e atender às demandas produtivas do capitalismo. Nesse modelo, a escola deixa de formar sujeitos históricos para produzir mão de obra adaptada às exigências econômicas, que não nos faltam exemplos na contemporaneidade.

Porém, quando o operário descobre que "a casa que faz sendo sua liberdade era a sua escravidão", inicia-se um processo educativo profundo, na media em que ele aprende a interpretar o mundo e a reconhecer seu próprio papel na história.

Exemplo esse que é a essência de uma educação libertadora. Neste caso, educar não significa apenas transmitir conteúdos, mas desenvolver a capacidade de compreender criticamente a realidade, identificar as relações de poder e atuar conscientemente para transformá-las.

Nesse sentido, a educação deixa de ser mercadoria e passa a ser um direito humano e um instrumento de emancipação social.


A construção do sujeito crítico: uma outra educação é possível

O título do poema possui um significado profundamente simbólico. Cujo sujeito, o operário, não está apenas construindo um edifício; está construindo a si próprio.

Em que a verdadeira educação também é um processo permanente de autoconstrução. Pois, cada experiência, cada leitura e cada reflexão contribuem para que o indivíduo deixe de ser objeto das circunstâncias, para se tornar sujeito da própria história.

Enquanto a escola, comprometida com a formação humana integral, não se limita a ensinar técnicas ou competências instrumentais. Ela busca desenvolver:

  • autonomia intelectual;

  • pensamento crítico;

  • consciência ética;

  • participação política;

  • solidariedade e responsabilidade coletiva.

Essa é uma perspectiva que se aproxima da concepção em que a educação deve despertar nos indivíduos humano a capacidade de perguntar, duvidar e reinventar o mundo, e, por conseguinte, romper com a mera adaptação às estruturas existentes.


A alegoria religiosa e a crítica à mercantilização

Um dos momentos mais significativos do poema ocorre quando o patrão conduz o operário ao alto do edifício e lhe oferece riquezas e poder em troca de sua submissão - não só individual -, mas de toda a classe trabalhadora.

Em que a cena remete à tentação de Cristo no deserto; mas, no poema, assume um sentido político e social. Quando o trabalhador compreende que aquilo que lhe é oferecido já lhe pertence, pois foi produzido por seu trabalho.

Sua resposta sintetiza a tomada de consciência: "Não podes dar-me o que é meu."

Essa passagem pode ser relacionada à crítica contemporânea da mercantilização da educação. Quando o conhecimento é tratado como produto, a escola transforma-se em empresa, os estudantes em consumidores e os professores em operadores de sistemas de avaliação e produtividade.

A despeito da realidade contemporânea de opressão, o poema ensina que aquilo que é produzido coletivamente não pode ser apropriado por poucos. Da mesma forma, o saber acumulado pela humanidade não deveria ser transformado em privilégio ou mercadoria, mas constituir patrimônio comum da sociedade.


Alienação e emancipação: o papel da escola

O conflito de classe se estabelece entre o operário e o patrão, que representa o choque entre duas concepções de sociedade.

De um lado, a manutenção da ignorância como forma de dominação. De outro, a educação como processo de libertação.

Por isso que o patrão teme o trabalhador que pensa, porque sabe que a consciência rompe a submissão.

Da mesma forma que os sistemas educacionais, excessivamente burocratizados, padronizados e subordinados às exigências do mercado, tendem a privilegiar a memorização e a conformidade, reduzindo os espaços da criatividade, da crítica e da participação democrática.

Por outro lado, uma outra educação possível exige superar essa lógica e compreender a escola como espaço de formação cidadã, produção cultural e construção da autonomia, ao mesmo tempo, da apropriação do conhecimento científico, historicamente produzido pela humanidade.


A força do coletivo e a pedagogia crítica-social

O desfecho do poema revela que a emancipação individual encontra seu sentido pleno na ação coletiva.

Quando o operário percebe que sua força não reside apenas em sua consciência pessoal, mas na união com os demais trabalhadores. Daí que a transformação social nasce do reconhecimento de que ninguém constrói o mundo sozinho.

Essa mensagem possui enorme relevância para a educação.

Isto porque, aprender não é um ato isolado. Resulta que o conhecimento se constrói no diálogo, na cooperação e na experiência compartilhada. Uma escola democrática fortalece valores como:

  • solidariedade;

  • respeito às diferenças;

  • participação coletiva;

  • justiça social;

  • compromisso com o bem comum.

Enquanto a educação deixa, assim, de formar indivíduos competitivos para formar sujeitos capazes de atuar coletivamente na construção de uma sociedade mais humana.


Considerações Finais

Pode-se compreender que O Operário em Construção permanece atual, porque apresenta a educação como um processo de despertar da consciência.

Enquanto que o operário simboliza todos aqueles que passam da alienação à compreensão crítica do mundo. E sua trajetória demonstra que a verdadeira riqueza não está na posse dos bens, mas na capacidade humana de produzi-los e de reconhecer seu valor histórico.

À luz da temática "Educação não é mercadoria: uma outra educação é possível", o poema afirma que a escola deve ser um espaço de emancipação e não de submissão; de formação integral e não de simples treinamento para o mercado; de construção da cidadania e não da passividade.

Assim como o operário descobre que é o verdadeiro construtor do mundo, a educação libertadora permite que cada estudante descubra que também é construtor da História.

Disto resulta que uma outra educação é possível porque, antes de formar trabalhadores para o sistema econômico, ela forma seres humanos capazes de pensar, criar, resistir e transformar a realidade em que vivem.


Referência Bibliográfica


MORAES, Vinícius. O Operário em Construção. Disponível em: <https://www.viniciusdemoraes.com.br/br/poesia/texto/224/o-operario-em-construcao>. Acesso em: <12/06/2026>.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)


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