Santa Catarina sendo aprisionada pelo fundamentalismo religioso, bolsonarismo e apropriação privada da política

 Santa Catarina sendo aprisionada pelo fundamentalismo religioso, bolsonarismo e apropriação privada da política

Luiz Antonio Sypriano¹


Santa Catarina, um estado situado na Região Sul do Brasil, tornou-se um dos principais redutos eleitorais e ideológicos do bolsonarismo. Nesse território, consolidou-se uma articulação entre setores empresariais, lideranças políticas "conservadoras", grupos religiosos fundamentalistas e agentes interessados na exploração privada do Estado. Essa aliança transformou o discurso da moralidade, da família, da religião e dos chamados “bons costumes” em instrumento de controle social e de mobilização eleitoral.

A imagem de Santa Catarina como um “ninho de cobras do bolsonarismo” pode ser compreendida como metáfora de um ambiente político no qual se reproduzem discursos autoritários, antidemocráticos, intolerantes e profundamente hostis aos direitos sociais; não percebido por uma grande maioria da população. Entretanto, essa caracterização não deve ser estendida indistintamente a toda a população catarinense, pois o estado também abriga trabalhadores, movimentos sociais, sindicatos, organizações populares e grupos políticos que resistem ao avanço da extrema direita.

Já o fundamentalismo religioso desempenha papel central nesse processo; ao utiliza-se da fé, que poderia constituir uma experiência de solidariedade, acolhimento e busca de justiça, é frequentemente manipulada por lideranças que transformam os púlpitos e as comunidades religiosas em espaços de propaganda política; através da exploração do medo, da culpa e do sentimento de ameaça, cria-se a ideia de que os valores religiosos estariam sendo destruídos por "inimigos" imaginários, como professores, movimentos feministas, organizações de trabalhadores, defensores dos direitos humanos e grupos socialmente marginalizados.

Enquanto a população é mobilizada para combater falsas ameaças morais, questões concretas — como baixos salários, precarização do trabalho, concentração da propriedade, destruição ambiental, desigualdade social e privatização dos serviços públicos — são colocadas em segundo plano. Posto que a moralidade proclamada funciona, assim, como uma cortina ideológica que oculta interesses econômicos e vantagens privadas.

O bolsonarismo catarinense não representa somente uma escolha eleitoral ou uma preferência individual. Ele expressa um projeto de poder sustentado pela união entre autoritarismo político, fundamentalismo religioso e interesses empresariais. Sua ideologia utiliza-se do nome de Deus, da pátria, da família e da liberdade; quando determinados grupos dominantes procuram controlar instituições públicas, enfraquecer direitos trabalhistas, atacar a educação crítica e transferir recursos coletivos para setores privados.

Sua contradição fundamental está no fato de que aqueles que se apresentam como defensores da honestidade e da moralidade frequentemente apoiam práticas políticas orientadas pelo favorecimento econômico, pelo clientelismo e pela apropriação privada do fundo público. Para tanto, utilizam-se da religião que torna-se, nesse contexto, uma mercadoria eleitoral, e a moralidade passa a ser aplicada seletivamente com severidade contra os pobres, as mulheres, os trabalhadores e as minorias, mas flexível diante dos privilégios dos ricos e poderosos.

Assim, superar esse aprisionamento ideológico exige fortalecer a educação pública, o pensamento crítico, a organização sindical e os movimentos populares. Também requer disputar o significado da própria fé, recuperando suas dimensões de solidariedade, justiça social e defesa da dignidade humana.

Conclama-se que a população catarinense não está condenada ao bolsonarismo. Posto que a transformação social depende da capacidade coletiva de revelar os interesses econômicos, escondidos sob os discursos religiosos e moralistas, para a reconstrução de uma consciência democrática e comprometida com os direitos da classe trabalhadora.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política). 

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