VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES DAS ESCOLAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA: A DESTRUIÇÃO DA FIGURA DO MESTRE E A CRISE ESTRUTURAL DA ESCOLA PÚBLICA

 VIOLÊNCIA CONTRA PROFESSORES DAS ESCOLAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO BÁSICA: A DESTRUIÇÃO DA FIGURA DO MESTRE E A CRISE ESTRUTURAL DA ESCOLA PÚBLICA

Luiz Antonio Sypriano¹


Resumo

O presente artigo analisa as violências sofridas por professores e professoras das escolas públicas de Educação Básica, compreendendo-as como expressão de uma crise estrutural da educação brasileira. Parte-se da constatação de que agressões físicas, ameaças, ofensas verbais, perseguições ideológicas, assédio institucional, precarização do trabalho e adoecimento psíquico vêm sendo naturalizados no cotidiano escolar, especialmente nas redes públicas. O estudo articula dados de pesquisas recentes, documentos institucionais e relatos do cotidiano docente, com destaque para a realidade do Paraná, onde professores têm registrado boletins de ocorrência em razão de ameaças e agressões sofridas no ambiente escolar. Defende-se que a violência contra professores não é um problema meramente disciplinar, individual ou corporativo, mas um problema social grave, vinculado à desvalorização profissional, à precarização da escola pública, à substituição da autoridade pedagógica por plataformas digitais e metodologias esvaziadas, à fragilização dos vínculos comunitários e à cultura contemporânea do ódio. O artigo sustenta que a raiz dessa violência está também na destruição da figura do mestre, isto é, na perda do reconhecimento social do professor como trabalhador intelectual, autoridade pedagógica e sujeito central do processo formativo. Conclui-se que não há projeto educativo sem mestres e que o enfrentamento da violência contra professores exige valorização profissional, reconstrução da autoridade docente, apoio institucional, equipes multiprofissionais, responsabilização jurídica dos agressores e defesa intransigente da escola pública como espaço de formação humana, crítica e emancipadora.


Palavras-chave: violência escolar; professores; escola pública; autoridade docente; precarização; Educação Básica.


Introdução

A violência contra professores e professoras das escolas públicas brasileiras tornou-se uma das manifestações mais graves da crise contemporânea da educação. O que antes poderia ser interpretado como episódio isolado de indisciplina ou conflito escolar passou a assumir a forma de fenômeno recorrente, sistemático e estrutural. Ameaças, agressões físicas, insultos, humilhações, perseguições virtuais, desautorização pedagógica, assédio institucional e adoecimento mental passaram a compor o cotidiano de muitos trabalhadores da educação.

No estado do Paraná, relatos de professores indicam a naturalização crescente dessa violência. Em conversas informais, delegados de polícia têm reconhecido o aumento expressivo de boletins de ocorrência registrados por docentes vítimas de agressões e ameaças. Professores relatam receber, quase diariamente, notícias de colegas ameaçados, agredidos e humilhados em diferentes regiões do estado. Casos como o de uma pedagoga violentamente agredida por uma adolescente ou de uma professora ameaçada de morte por estudante revelam que a violência escolar ultrapassou o limite da indisciplina e alcançou a esfera da criminalidade e da violação direta da dignidade humana.

Entretanto, tão grave quanto a violência em si é sua naturalização. Com certeza, a indiferença das autoridades, o silêncio institucional, a ausência de protocolos efetivos de proteção e o conformismo de parte da própria categoria revelam um processo de banalização da violência contra o professor. Em virtude de que essa banalização indica que a escola pública vem sendo convertida em espaço de contenção social, onde o docente, desprovido de apoio humano, material, jurídico e pedagógico, é obrigado a gerir conflitos que expressam problemas sociais muito mais amplos.

A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), ao divulgar estudo do Observatório do Estado Social Brasileiro, caracteriza a violência contra professores como uma “epidemia silenciosa” que ameaça a educação pública. Segundo a entidade, esses episódios não podem ser lidos como ocorrências isoladas, mas como parte de um padrão estrutural produzido pelas condições concretas do sistema educacional brasileiro.

Diante disso, este artigo tem como objetivo analisar as violências sofridas pelos professores das escolas públicas de Educação Básica, compreendendo-as como resultado da precarização da escola pública, da desvalorização profissional, da destruição da autoridade docente e da crise social que atravessa a juventude trabalhadora. A tese central defendida é a de que a violência contra professores não é apenas um problema de segurança escolar, mas expressão de um projeto político de desconfiguração da função docente e de destruição da figura do mestre.


A violência contra professores como fenômeno estrutural

A violência contra professores não pode ser compreendida apenas como resultado da ação individual de estudantes considerados “problemáticos”. Embora existam condutas individuais que precisam ser responsabilizadas, o fenômeno é mais amplo. Ele envolve determinações sociais, econômicas, culturais, institucionais e políticas.

Nas escolas públicas, a violência se manifesta em diferentes níveis. Há a violência direta, expressa em agressões físicas, ameaças, empurrões, socos, arremesso de objetos e intimidação. Há a violência verbal e psicológica, expressa em xingamentos, deboche, humilhação, ofensas, injúrias e ameaças de morte. Há a violência simbólica, marcada pela desvalorização da palavra docente, pela perda de autoridade pedagógica e pela destruição da imagem social do professor. Há também a violência institucional, praticada pelo próprio Estado quando submete o professor a salários baixos, contratos precários, metas abusivas, superlotação das salas, ausência de apoio multiprofissional, assédio moral e plataformas que retiram sua autonomia intelectual.

A Lei nº 14.811/2024 instituiu medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais ou similares, além de alterar dispositivos legais relacionados ao enfrentamento do bullying e do cyberbullying. Embora voltada prioritariamente à proteção de crianças e adolescentes, a lei reconhece a escola como espaço vulnerável a práticas sistemáticas de intimidação, humilhação e violência, o que também impacta diretamente o trabalho dos profissionais da educação.

Mas, a violência escolar, portanto, não atinge apenas estudantes. Ela atinge também os trabalhadores que sustentam cotidianamente a escola. Quando um professor é ameaçado, quando uma professora é agredida, quando uma pedagoga é violentada dentro do espaço escolar, não ocorre apenas uma violação individual. Posto que o próprio processo educativo é atingido, pois a aula depende de condições mínimas de segurança, respeito e reconhecimento da autoridade pedagógica.


Tipologias da violência sofrida pelos docentes

A violência contra professores assume formas diversas e combinadas. Sua complexidade exige uma classificação que permita compreender suas manifestações mais recorrentes.

A primeira forma é a violência física. Trata-se de agressões corporais diretas, como socos, tapas, empurrões, chutes, arremesso de objetos, tentativas de ataque e ameaças com instrumentos capazes de ferir. Essa forma de violência costuma ganhar maior visibilidade pública, pois deixa marcas imediatas e pode gerar boletins de ocorrência, processos disciplinares ou judiciais.

A segunda forma é a violência verbal e psicológica. Ela aparece nos xingamentos, insultos, ameaças, humilhações, intimidações e deboches. Muitas vezes, essa é a forma mais cotidiana de violência. Por não deixar marcas físicas visíveis, tende a ser minimizada pelas direções escolares, pelas famílias, pelos órgãos gestores e, às vezes, pelos próprios educadores. No entanto, sua repetição cotidiana produz medo, ansiedade, perda da autoestima profissional, insegurança e adoecimento.

A terceira forma é a violência moral e simbólica. Ela ocorre quando o professor é desautorizado como sujeito do conhecimento. Essa violência aparece quando sua palavra não tem validade, quando sua cobrança pedagógica é tratada como abuso, quando sua autoridade é confundida com autoritarismo ou quando sua função é reduzida a “cuidar”, “entreter”, “mediar conflitos” ou “alimentar plataformas”. Nessa forma de violência, o professor perde sua condição de mestre.

A quarta forma é a violência institucional. Essa é uma das mais profundas e naturalizadas. Ocorre quando o Estado não oferece condições adequadas de trabalho, quando não paga o Piso Nacional do Magistério, quando impõe metas inalcançáveis, quando adota plataformas digitais como substitutas da mediação pedagógica, quando precariza contratos, quando desconsidera o adoecimento docente e quando abandona o professor diante de ameaças e agressões. Nesse sentido, o desrespeito aos direitos trabalhistas e salariais também é uma forma de violência contra a categoria.

A quinta forma é a violência digital e ideológica. Ela aparece em gravações não autorizadas de aulas, exposição de professores nas redes sociais, linchamentos virtuais, perseguições políticas, acusações infundadas de “doutrinação” e patrulhamento de conteúdos ligados a direitos humanos, diversidade, ciência, História, Filosofia, gênero, raça e democracia. Pesquisa divulgada pela Agência Brasil apontou que episódios de violência e censura têm afetado professores brasileiros, especialmente quando abordam temas socialmente sensíveis.

Essas diferentes formas de violência não atuam separadamente. Ao contrário, frequentemente se combinam. Um professor ameaçado por um estudante pode, ao mesmo tempo, ser desamparado pela gestão, culpabilizado pela família, exposto nas redes sociais e pressionado pela secretaria de educação por resultados em avaliações externas. A violência, portanto, constitui uma totalidade.


Dados de pesquisas e evidências recentes

Pesquisas recentes indicam que a violência contra professores é um problema nacional. Estudo divulgado pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, com repercussão pela CNTE, afirma que a violência contra docentes da Educação Básica se tornou uma epidemia, produzida por condições estruturais do sistema educacional brasileiro. A pesquisa associa o fenômeno à precarização do trabalho, à desvalorização profissional, à ausência de apoio institucional e à fragilização da autoridade docente.

A Fundacentro, instituição vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, tem fortalecido o debate sobre saúde dos professores, indicando que as evidências científicas apontam para um quadro geral de precariedade e adoecimento no trabalho docente. Em 2025, a instituição destacou que os estudos recentes revelam cenário preocupante quanto às condições de trabalho e à saúde dos profissionais da educação.

Concomitante, o adoecimento docente também aparece em estudos relacionados à síndrome de burnout. Pesquisa publicada nos Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, analisou fatores associados à síndrome de burnout em professores, contribuindo para consolidar o tema como questão de saúde pública e de saúde do trabalhador.

Já no campo da violência extrema, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública vem acompanhando os ataques contra escolas brasileiras. Relatórios e análises recentes indicam que os ataques de violência extrema às escolas se intensificaram entre 2022 e 2023, exigindo respostas públicas articuladas, monitoramento e políticas de prevenção. O Fórum também destaca que a violência escolar se articula a fenômenos como bullying, discursos de ódio, radicalização, misoginia, racismo e circulação de conteúdos violentos em ambientes digitais.

Esses dados evidenciam que a violência contra professores não é um problema menor, nem uma questão restrita ao interior da sala de aula. Ela expressa uma crise da escola como instituição social, atravessada pela precarização do trabalho, pela crise de autoridade, pela cultura digital do ódio e pela ausência de políticas públicas eficazes de proteção.


O caso do Paraná e a naturalização da violência

No Paraná, a violência contra professores vem sendo percebida por muitos educadores como fenômeno crescente. O relato de que delegacias estariam recebendo uma “epidemia” de boletins de ocorrência registrados por professores e professoras vítimas de violência escolar revela uma situação alarmante. Ainda que tal informação precise ser sistematizada em dados oficiais, sua recorrência no cotidiano docente é politicamente significativa.

A agressão física contra uma pedagoga por uma adolescente e a ameaça de morte dirigida a uma professora por outro estudante exemplificam um ambiente escolar em que a autoridade docente se encontra fragilizada. Mais grave ainda é o fato de esses episódios serem frequentemente tratados como “casos pontuais”, “problemas de comportamento” ou “situações de indisciplina”, quando, na verdade, constituem violações graves da integridade física, moral e psíquica de trabalhadores da educação.

A naturalização da violência no Paraná está relacionada à forma como a escola pública vem sendo administrada. Na qual, sua política educacional centrada em plataformas, controle burocrático, resultados quantitativos, avaliações externas e projetos vazios tende a deslocar o foco da formação humana para a gestão de indicadores. Nessa lógica, o professor deixa de ser reconhecido como mestre e passa a ser tratado como operador de sistemas, fiscal de frequência, cuidador de estudantes e executor de tarefas administrativas.

Essa desconfiguração profissional produz efeitos devastadores. Sem reconhecimento, sem autoridade, sem tempo para planejamento, sem apoio especializado e sem respaldo diante de conflitos, o professor é lançado sozinho em uma sala de aula marcada por desigualdade social, privação cultural, sofrimento psíquico, uso abusivo de telas, desorganização familiar e ausência de perspectivas para parte significativa da juventude.

A violência contra professores, nesse contexto, não é acidente. Ela é sintoma de uma escola pública abandonada, precarizada e convertida em espaço de administração da crise social.


A destruição da figura do mestre

A tese central deste artigo é que as raízes da violência contra professores estão fortemente ligadas à destruição da figura do mestre. O mestre não é apenas aquele que transmite conteúdos. É aquele que introduz o estudante no mundo da cultura, da linguagem, do pensamento, da ciência, da ética, da memória histórica e da vida coletiva. É aquele que exerce uma autoridade pedagógica fundada no conhecimento, na responsabilidade e na mediação formativa.

Sendo assim, a destruição da figura do mestre ocorre quando a sociedade deixa de reconhecer o professor como autoridade intelectual. Por conseguinte, o professor passa a ser visto como empregado subalterno, prestador de serviço, cuidador, animador, tutor de plataforma ou mero executor de metodologias padronizadas. Com isso, sua palavra perde peso, sua presença perde centralidade e sua exigência pedagógica passa a ser interpretada como incômodo.

Essa destruição também é reforçada por discursos pedagógicos mal compreendidos que colocam o estudante como “protagonista” de modo abstrato, sem garantir as condições reais para que ele se aproprie do conhecimento. Se o estudante é chamado de “protagonista”, por outro lado, muitas vezes, não domina a leitura, a escrita, a argumentação, a concentração, a escuta e a disciplina intelectual necessárias para compreender o próprio mundo. Sem o mestre, esse estudante não se emancipa; torna-se mais vulnerável ao mercado, às redes sociais, ao ressentimento, à violência e à manipulação ideológica.

Quando a autoridade do mestre é destruída, a sala de aula se converte em espaço instável. A cobrança pedagógica passa a ser recusada como agressão. A correção é interpretada como ofensa. A exigência de estudo é percebida como violência. E o professor que insiste em ensinar, corrigir, orientar e responsabilizar passa a ser odiado justamente porque se recusa a aderir à lógica da permissividade e do esvaziamento.

Por isso, os professores mais atacados muitas vezes são aqueles que ainda tentam educar. São aqueles que assumem posição responsável diante da formação dos estudantes. São aqueles que não aceitam transformar a escola em espaço de mera convivência, entretenimento ou contenção social.


Relações de amizade, licenciosidade e perda da autoridade pedagógica

Em ambientes escolares hostis, muitos professores, para sobreviver, passam a estabelecer com os estudantes relações marcadas pela informalidade, pela amizade e pela tolerância excessiva. Essa atitude não deve ser explicada como falha moral individual do professor, mas como mecanismo de defesa diante de uma instituição que o abandona.

Quando o professor não recebe apoio da direção, da pedagogia, da secretaria, das famílias e do Estado, ele tende a buscar formas de reduzir o conflito imediato. Uma dessas formas é evitar cobranças, flexibilizar regras, tolerar comportamentos inadequados e tentar criar vínculos de amizade com os estudantes. Porém, quando a relação pedagógica se dissolve em relação horizontalizada de convivência, instala-se a confusão entre respeito e permissividade.

Reconhece-se que a escola não é uma reunião de amigos. A relação entre professor e estudante deve ser humana, respeitosa, ética e afetiva, mas não pode abandonar sua assimetria pedagógica. O professor ocupa uma função formativa. O estudante está em processo de formação. A igualdade entre ambos é uma igualdade de dignidade humana, não de função pedagógica.

Quando essa distinção desaparece, o estudante passa a tratar o professor como se fosse seu igual no interior da instituição escolar. Não aceita cobranças, não reconhece limites, exige tratamento de amigo e reage com hostilidade quando encontra um docente que sustenta sua posição de mestre. Nesses casos, a violência emerge, então, como recusa da mediação pedagógica.


Plataformas, metodologias vazias e mercado educacional

A violência contra professores também precisa ser compreendida no interior da expansão do mercado educacional. Nas últimas décadas, políticas educacionais inspiradas pela lógica empresarial passaram a impor às escolas públicas um conjunto de plataformas digitais, sistemas de controle, apostilas, avaliações padronizadas, metas, rankings e projetos de baixa densidade formativa.

Essa lógica retira do professor sua autonomia intelectual. O docente deixa de planejar a partir da realidade concreta de seus estudantes e passa a seguir roteiros impostos por sistemas externos. A aula é substituída por tarefas. O pensamento é substituído por preenchimento de plataformas. A formação é substituída por indicadores. A pedagogia é substituída por gestão.

O resultado é o esvaziamento da escola como espaço de conhecimento. Estudantes são obrigados a frequentar uma instituição que, muitas vezes, ensina pouco, exige pouco, escuta pouco e oferece poucas condições reais de formação. O vazio pedagógico abre espaço para o conflito. Onde não há conhecimento vivo, mediação intelectual, projeto coletivo e autoridade reconhecida, cresce a indisciplina, a hostilidade e a violência.

A violência contra professores, portanto, também é produzida pela mercantilização da educação. O mercado educacional destrói a centralidade do mestre porque precisa transformar a educação em produto, plataforma, pacote, dado e serviço. Nesse processo, o professor é desprofissionalizado. Sua experiência é descartada. Seu saber é substituído por sistemas. Sua autoridade é corroída. Sua presença se torna incômoda para uma educação reduzida à lógica do controle.


Discurso de ódio, redes sociais e radicalização juvenil

Outro elemento central da violência escolar contemporânea é a cultura digital do ódio. Redes sociais, fóruns, vídeos, grupos fechados e algoritmos de recomendação podem alimentar misoginia, racismo, humilhação pública, culto à violência, desprezo pela escola e radicalização de adolescentes.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública tem destacado que episódios de violência extrema nas escolas exigem respostas públicas e monitoramento, especialmente diante da intensificação dos ataques entre 2022 e 2023. As análises do Fórum relacionam o problema a fenômenos como bullying, violência extrema e desafios para a proteção das escolas brasileiras.

Esse aspecto é fundamental porque muitas violências que explodem dentro da escola são alimentadas fora dela. O estudante que ameaça um professor pode estar atravessado por discursos de ódio consumidos nas redes. A estudante que agride uma pedagoga pode estar inserida em um contexto de sofrimento psíquico, desregulação emocional e ausência de mediação familiar. Grupos virtuais podem estimular ataques, humilhações, gravações clandestinas e campanhas contra professores.

As plataformas digitais não são neutras. Elas organizam afetos, capturam a atenção, intensificam ressentimentos e, em certos casos, oferecem repertórios simbólicos para a violência. Crianças e adolescentes, por estarem em processo de formação de identidade, são especialmente vulneráveis a essas dinâmicas. Assim, a violência contra professores precisa ser analisada também como parte da crise da cultura digital contemporânea.


Adoecimento docente e abandono da profissão

A violência contra professores produz efeitos profundos sobre a saúde física e mental da categoria. O medo permanente, a exposição a ameaças, a humilhação cotidiana, a ausência de apoio institucional e a sobrecarga de trabalho resultam em ansiedade, depressão, síndrome de burnout, distúrbios do sono, irritabilidade, esgotamento emocional, afastamentos médicos e abandono da carreira.

A Fundacentro tem apontado que as evidências científicas indicam um quadro geral de precariedade e adoecimento no trabalho docente. Estudos sobre burnout em professores também demonstram que o sofrimento docente está vinculado às condições de trabalho, à sobrecarga emocional e às exigências da profissão.

Esse adoecimento não é individual. Ele é socialmente produzido. O professor não adoece porque é fraco, incapaz ou despreparado. Adoece porque é submetido a condições de trabalho cada vez mais desumanizadoras. Adoece porque precisa ensinar sem condições de ensino. Adoece porque é responsabilizado por problemas que pertencem ao Estado, à sociedade, às famílias, às políticas públicas e ao próprio modelo econômico.

O adoecimento docente também atinge a escola. Quando professores se afastam, as redes públicas perdem profissionais experientes. Quando docentes abandonam a carreira, os estudantes perdem referências. Quando a profissão se torna insuportável, a formação das novas gerações é comprometida. Assim, a violência contra professores não destrói apenas indivíduos; destrói a própria escola pública.


Violência contra professores é crime e também violência institucional

A afirmação “violência contra professores é crime” deve ser reafirmada com força. Ameaça, lesão corporal, injúria, difamação, calúnia, perseguição, dano ao patrimônio e agressão física são condutas que devem ser registradas, apuradas e responsabilizadas. A escola não pode ser território de impunidade.

No entanto, é preciso ampliar a compreensão. A violência contra professores não é apenas a agressão cometida por estudantes ou familiares. Ela também ocorre quando prefeitos, governadores e gestores públicos descumprem direitos da categoria, recusam-se a pagar o Piso Nacional do Magistério, precarizam contratos, superlotam salas, negam atendimento especializado, impõem metas abusivas e deixam os docentes sem proteção.

Nesse sentido, o não pagamento do piso salarial, a precarização das condições de trabalho e o desrespeito à carreira docente constituem formas de violência institucional. O professor é atacado não apenas pelo estudante que ameaça, mas também pelo Estado que o abandona. É atacado pelo agressor direto e pela política pública que naturaliza sua desvalorização.

Responsabilizar os agressores é necessário. Mas responsabilizar apenas o estudante ou a família é insuficiente. É preciso responsabilizar também as políticas educacionais que transformam a escola em espaço de colapso e o professor em alvo.


Caminhos para o enfrentamento

O enfrentamento da violência contra professores exige medidas estruturais e imediatas. Em primeiro lugar, é necessário criar protocolos claros de proteção aos profissionais da educação. Toda ameaça, agressão ou intimidação deve gerar registro, acompanhamento, comunicação formal, proteção da vítima e responsabilização dos envolvidos.

Em segundo lugar, é indispensável garantir assistência jurídica e psicológica aos professores vítimas de violência. O docente não pode ser deixado sozinho após uma ameaça ou agressão. A rede de ensino deve oferecer acolhimento, orientação, apoio técnico e proteção institucional.

Em terceiro lugar, é urgente ampliar equipes multiprofissionais nas escolas. Psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, mediadores de conflito, profissionais de apoio e serviços de proteção social são indispensáveis. A escola não pode enfrentar sozinha os efeitos da miséria, da violência doméstica, da radicalização digital, da fome, da privação de sono, da dependência de telas e do sofrimento psíquico dos estudantes.

Em quarto lugar, é necessário reduzir a superlotação das salas de aula. Não há mediação pedagógica efetiva em turmas superlotadas. A quantidade excessiva de estudantes por sala intensifica conflitos, dificulta o acompanhamento individual, aumenta o desgaste docente e compromete a aprendizagem.

Em quinto lugar, é preciso reconstruir a autoridade pedagógica do professor. Isso exige valorização salarial, carreira digna, formação continuada crítica, autonomia intelectual, tempo de planejamento, respeito institucional e reconhecimento público da função docente. Autoridade pedagógica não é autoritarismo. É condição para que a aula exista.

Em sexto lugar, é necessário enfrentar a cultura digital do ódio. A escola precisa desenvolver educação midiática crítica, discutir discurso de ódio, cyberbullying, misoginia, racismo, violência simbólica e radicalização. Mas isso não pode ser imposto como mais uma tarefa burocrática ao professor. Deve ser política pública articulada, com recursos, formação e apoio.

Por fim, é necessário defender a escola pública contra sua mercantilização. A substituição do professor por plataformas, a imposição de metodologias vazias e o esvaziamento da aula como espaço de pensamento são fatores que aprofundam a crise. Defender o professor é defender a escola como espaço de conhecimento, cultura, ciência, ética e emancipação.


Considerações Finais

A violência contra professores das escolas públicas de Educação Básica é uma das expressões mais graves da crise educacional brasileira. Ela não pode ser reduzida a casos isolados, conflitos interpessoais ou problemas de disciplina. Trata-se de fenômeno estrutural, produzido pela combinação entre precarização do trabalho docente, desvalorização profissional, destruição da autoridade pedagógica, abandono institucional, cultura digital do ódio, desigualdade social e mercantilização da educação.

No Paraná, os relatos de ameaças, agressões e boletins de ocorrência registrados por professores indicam que a violência contra docentes vem sendo naturalizada. Essa naturalização é inaceitável. Quando uma professora é ameaçada de morte, quando uma pedagoga é espancada, quando um professor é humilhado diariamente, a sociedade inteira fracassa em sua tarefa de proteger a escola pública.

A tese defendida neste artigo é que as raízes da violência contra professores estão profundamente ligadas à destruição da figura do mestre. Ao retirar do professor sua autoridade, sua autonomia, seu reconhecimento e sua função intelectual, o Estado e o mercado educacional contribuem para transformar a escola em espaço de vazio pedagógico e conflito permanente.

Não há projeto educativo sem mestres. Não há escola pública democrática sem professores respeitados. Não há formação humana sem autoridade pedagógica. Não há emancipação sem conhecimento. Defender os professores, portanto, não é corporativismo. É defender a própria possibilidade de educação.

Dizer “chega” à violência contra professores é afirmar que a escola pública não pode ser depósito social, laboratório de plataformas, espaço de abandono ou território de medo. A escola pública deve ser lugar de formação, pensamento, cultura, ciência, arte, convivência ética e emancipação humana. Para isso, é necessário proteger, valorizar e reconhecer aqueles que tornam a escola possível: os professores e as professoras.


Referência Bibliográfica

AGÊNCIA BRASIL. Violência e censura afetam professores brasileiros. Empresa Brasil de Comunicação, 2025.

BRASIL. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Institui medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais ou similares e altera dispositivos legais. Brasília, DF: Presidência da República, 2024.

CNTE. Violência contra professores: a epidemia silenciosa que ameaça a educação pública. Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação, 2025.

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Entre o bullying e a violência extrema: evidências e desafios para as escolas brasileiras. Fonte Segura, 2026.

___________________________________________. Interrupções do calendário escolar por violência crescem entre 2021 e 2023. Fonte Segura, 2025.

FUNDACENTRO. Fundacentro fortalece debate sobre saúde dos professores. Ministério do Trabalho e Emprego, 2025.

______________. Especialistas discutem trabalho e saúde dos docentes. Ministério do Trabalho e Emprego, 2023.

OBSERVATÓRIO DO ESTADO SOCIAL BRASILEIRO. Razões da epidemia de violência contra professoras e professores do ensino básico brasileiro. Pesquisa/E-book, 2025.

CARLOTTO, Mary Sandra. Síndrome de burnout e fatores associados: um estudo epidemiológico com professores. Cadernos de Saúde Pública, Fundação Oswaldo Cruz, 2006.


¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política).

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