A Amizade em Tempos de Individualismo e Redes Sociais Contraposta à Filosofia de Aristóteles e Kant
Luiz Antonio Sypriano¹
A amizade ocupa um lugar importante na reflexão ética de Aristóteles (384-322 a.C.) e de Immanuel Kant (1724-1804), embora cada filósofo a compreenda a partir de fundamentos distintos. Haja vista que em Aristóteles, ela está diretamente relacionada à vida virtuosa e à realização humana; enquanto em Kant, deve permanecer submetida às exigências universais da moral, do dever e do respeito à dignidade de todas as pessoas.
Portanto, para Aristóteles, exposto especialmente nos livros VIII e IX da Ética a Nicômaco, a amizade é indispensável à vida boa. Segundo o filósofo, ninguém escolheria viver sem amigos, ainda que possuísse todos os demais bens. Posto que a amizade não é, portanto, um elemento secundário da existência humana, mas uma condição importante para a eudaimonia, isto é, para uma vida plenamente realizada.
Por isso que Aristóteles estabelece ainda uma relação profunda entre amizade e justiça. Porque, onde existe a verdadeira amizade, a necessidade de recorrer constantemente às regras da justiça tende a diminuir, pois os amigos desejam espontaneamente o bem uns dos outros. Tendo em vista que a amizade favorece a reciprocidade, a solidariedade e a concórdia, contribuindo para a própria coesão da comunidade política. Nesse sentido, ela funciona como uma força contrária ao egoísmo, pois impede que o interesse individual seja o único critério orientador da ação.
Entretanto, Aristóteles diferencia três formas de amizade. A primeira é a amizade fundada na utilidade, na qual as pessoas se aproximam pelos benefícios que podem obter uma da outra. Quando desaparece a vantagem, geralmente desaparece também o vínculo. A segunda é a amizade fundada no prazer, caracterizada pelo gosto da companhia, pela diversão e pelas emoções compartilhadas; que também tende a ser passageira, pois os prazeres e interesses pessoais podem mudar.
Acima dessas formas encontra-se a amizade segundo a virtude, considerada por Aristóteles a forma mais elevada. Nela, cada pessoa deseja o bem da outra não por aquilo que pode receber em troca, mas pelo valor do amigo enquanto pessoa. Nela, trata-se de uma relação baseada na reciprocidade, no caráter, na convivência e no reconhecimento mútuo. Visto que o verdadeiro amigo torna-se, na expressão aristotélica, uma espécie de “outro eu”.
Em Kant, por sua vez, a amizade é concebida de maneira diferente. Na Metafísica dos Costumes, especialmente na Doutrina da Virtude, ela aparece como um ideal de união entre amor e respeito mútuos. Sendo que o amor aproxima as pessoas e estimula a benevolência; e o respeito preserva a autonomia, a dignidade e os limites de cada indivíduo.
Por conseguinte, para Kant, nenhuma amizade particular pode justificar o abandono dos princípios universais da moralidade. Isto porque, o fato de alguém ser nosso amigo não autoriza que lhe concedamos privilégios injustos ou que tratemos outras pessoas como moralmente inferiores. Tendo em vista que o dever moral não pode depender das preferências pessoais, pois todos os seres humanos devem ser reconhecidos como fins em si mesmos.
Por isso, surge, assim, uma tensão característica da concepção kantiana; isso porque a amizade exige proximidade, confiança e abertura, mas também necessita de limites que preservem a autonomia e o respeito entre os indivíduos. Por sua vez, uma amizade moralmente válida não pode transformar-se em favoritismo capaz de contrariar a justiça ou o dever.
Sendo assim, a diferença central entre os dois filósofos está, portanto, no lugar atribuído à amizade dentro da ética. Para Aristóteles, a amizade virtuosa é parte constitutiva da vida boa e também um elemento essencial para a harmonia da comunidade; enquanto, para Kant, a amizade possui grande valor moral e humano, mas deve estar sempre subordinada aos princípios universais do dever e do respeito.
Em síntese, Aristóteles enfatiza a virtude, a reciprocidade e o florescimento humano, enquanto Kant destaca a autonomia, o dever e a universalidade moral. Porém, em ambos, a verdadeira amizade ultrapassa o simples interesse pessoal, isso porque ela exige reconhecer o outro como alguém dotado de valor próprio, digno de consideração e respeito.
¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.)
Comentários
Postar um comentário