Análise de Conjuntura do Processo Eleitoral Brasileiro: a Disputa de Dois Projetos Antagônicos
Luiz Antonio Sypriano¹
O processo eleitoral brasileiro de 2026 ocorre em uma conjuntura marcada pela polarização política, pela crise das instituições liberais, pela disputa em torno dos fundos públicos e pela intensificação dos conflitos sociais. Embora estejam oficialmente registradas 12 candidaturas à Presidência da República, sendo que a eleição para presidente encontra-se fortemente concentrada em torno de dois grandes campos políticos, representados principalmente pelas candidaturas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Numa data, para o primeiro turno, que está marcado para 4 de outubro de 2026, e num eventual segundo turno, ocorrerá em 25 de outubro.
Essa polarização, entretanto, não deve ser compreendida simplesmente como uma disputa entre duas personalidades. O que está colocado diante da sociedade brasileira é uma disputa entre projetos distintos de organização do Estado, da economia, das relações de trabalho, das políticas sociais e da inserção internacional do Brasil.
A eleição como disputa de projetos sociais
As eleições, nas sociedades capitalistas, não ocorrem sem um interesse econômico, principalmente sob a pressão imperialista. Mas, elas expressam, ainda que de forma mediada e contraditória, por conflitos existentes entre classes, frações de classe, grupos econômicos e setores sociais.
Isto porque, o que está em jogo é o fato do Estado administrar enormes parcelas da riqueza social por meio do orçamento público, dos fundos previdenciários, dos bancos públicos, das empresas estatais, das políticas tributárias, dos investimentos e das compras governamentais. Portanto, “conquistar” o governo significa também “conquistar” a capacidade de intervenção sobre a distribuição do Fundo Público.
Pois é justamente nesse terreno que a eleição de 2026 adquire importância estratégica para os interesses liberais capitalistas.
E disto resulta que a questão fundamental não é somente quem ocupará a Presidência da República, mas quem pagará pela crise, quem receberá os recursos públicos, quais direitos serão preservados ou reduzidos e quais interesses econômicos orientarão a ação estatal.
Por conseguinte, analisa-se que, sob uma perspectiva crítica, a política eleitoral precisa ser compreendida também como disputa pelo direcionamento da riqueza social, produzida pela classe trabalhadora, para fins de interesses privados.
O campo da direita e da extrema direita
Um dos polos principais da disputa eleitoral articula setores conservadores, liberais e da extrema direita. No plano partidário, o PL e o Novo aparecem entre as legendas posicionadas mais à direita, segundo levantamento baseado em votações parlamentares, alianças, frentes, migrações partidárias e financiamento eleitoral.
Nesse campo convivem componentes distintos, como o conservadorismo moral, neoliberalismo econômico, fortalecimento das forças repressivas do Estado, redução das políticas sociais universais, privatizações, desregulamentação econômica e maior abertura de áreas estratégicas aos interesses privados.
Já a experiência brasileira recente demonstrou que a combinação entre autoritarismo político e liberalização econômica não constitui uma contradição necessária. Ao contrário, pelo fato de que políticas de retirada de direitos trabalhistas, privatização e redução do Estado social podem exigir formas crescentemente autoritárias de administração dos conflitos produzidos pela desigualdade.
No cenário de 2026, Flávio Bolsonaro (PL), tornou-se a principal representação eleitoral desse campo. Pesquisas recentes mostram uma disputa bastante apertada com Lula. Cujo levantamento Datafolha, realizado entre 8 e 10 de setembro, indicou, num eventual segundo turno, 46% para Lula e 44% para Flávio Bolsonaro, configurando empate técnico. Outro levantamento, BTG/Nexus, também encontrou empate técnico, com 46% para Flávio e 45% para Lula.
Esses números demonstram que a extrema direita e a direita radical não desapareceram da sociedade brasileira; mas, permanecem como força eleitoral de massas, trazidas, principalmente, pelo fundamentalismo religioso.
O projeto representado pelo campo governista
No polo oposto encontra-se o campo liderado por Lula (PT), composto por forças de esquerda, centro-esquerda e setores liberais democráticos.
Esse campo apresenta diferenças substantivas em relação ao bolsonarismo, particularmente na defesa das instituições democráticas, das políticas sociais, do salário mínimo, do papel regulador do Estado, dos investimentos públicos e de uma política externa relativamente mais autônoma.
Na política internacional, por exemplo, existem divergências bastante nítidas. Enquanto Lula defende maior participação brasileira nos BRICS, relações com o Sul Global, multilateralismo e maior autonomia diante dos Estados Unidos. Já Flávio Bolsonaro, por sua vez, tem defendido aproximação estratégica com os Estados Unidos, inclusive posições críticas à permanência brasileira nos BRICS.
Essa diferença possui implicações econômicas relevantes, sobretudo diante da crescente disputa internacional por mercados, tecnologias, energia e minerais estratégicos.
Entretanto, uma análise crítica não deve transformar essa oposição concreta em uma idealização do projeto governista.
Visto que o campo liderado pelo PT continua operando dentro dos limites estruturais da sociedade capitalista brasileira e das instituições do Estado burguês. Cuja conciliação com setores empresariais, o poder do capital financeiro, as limitações fiscais e as alianças parlamentares condicionam profundamente sua capacidade de realizar transformações estruturais.
Por isso, do ponto de vista da esquerda socialista, defender direitos democráticos e sociais diante da extrema direita não significa renunciar à independência política da classe trabalhadora.
A contradição fundamental: democracia política e poder econômico
A conjuntura de 2026 evidencia uma das contradições centrais da democracia brasileira. Pelo fato de que, formalmente, mais de 158 milhões de pessoas estão aptas a escolher seus representantes. Contudo, a igualdade jurídica do voto convive com uma profunda desigualdade econômica.
Posto que grandes empresários, bancos, conglomerados de comunicação, plataformas digitais e grupos econômicos, assim como as instituições religiosas, possuem capacidade incomparavelmente superior à do trabalhador comum para influenciar o debate político.
Por isso, democracia política e democracia econômica não são necessariamente equivalentes. Visto que o trabalhador possui um voto; enquanto o capital possui propriedade, recursos financeiros, meios de comunicação, capacidade de investimento, influência institucional e poder econômico.
Diante disso, a eleição ocorre dentro dessa correlação desigual.
A dimensão de classe aparece também nas pesquisas
Os levantamentos eleitorais revelam diferenças sociais importantes. Quando no Datafolha divulgado em setembro, Lula apresentava 47% entre eleitores com renda de até dois salários mínimos, diante de 27% de Flávio Bolsonaro. Enquanto nas faixas superiores de renda pesquisadas, a relação se invertia, com vantagem do candidato do PL.
Esses dados não autorizam uma interpretação mecânica segundo a qual cada classe vota automaticamente segundo seus interesses econômicos. Posto que ideologia, religião, valores morais, redes sociais, identidade política, território e experiências individuais interferem profundamente na formação do voto.
Mas, a existência desse recorte socioeconômico, demonstra que a disputa eleitoral também possui uma dimensão material e de classe. Sendo que uma das grandes contradições da conjuntura reside justamente no fato de parcelas da própria classe trabalhadora aderirem a programas econômicos que podem significar redução de direitos sociais e trabalhistas.
Essa situação demonstra que a consciência política não nasce automaticamente da posição ocupada pelo indivíduo no processo produtivo. Pelo contrário, ela é objeto permanente de disputa.
Redes digitais e disputa pela consciência
As eleições contemporâneas também se transformaram profundamente devido ao poder das plataformas digitais.
Visto que o debate político ocorre cada vez mais sob mecanismos algorítmicos que favorecem conteúdos emocionalmente mobilizadores, simplificações, polarizações, campanhas de desinformação e produção industrial de mensagens. Nesse sentido, a batalha eleitoral, portanto, não acontece somente nas ruas, sindicatos, partidos, escolas, igrejas ou meios tradicionais de comunicação.
Mas, ela ocorre também dentro de plataformas privadas controladas por grandes corporações transnacionais. Pois, nesse ambiente, medo, ressentimento e indignação podem ser convertidos em mercadoria política.
Assim, a formação da consciência social passa a ser cada vez mais disputada por estruturas tecnológicas cujo funcionamento permanece em grande medida subordinado aos interesses econômicos das próprias plataformas.
Outros Projetos Políticos
Apesar da forte polarização eleitoral, seria incorreto concluir que existem somente dois projetos políticos no Brasil.
Pois, as eleições de 2026 possuem candidaturas situadas à esquerda do próprio governo Lula. O TSE confirmou, entre outras, as candidaturas de Samara Martins (UP), Hertz Dias (PSTU) e Edmilson Costa (PCB).
Esse dado é politicamente importante.
Isto porque a polarização eleitoral não elimina a existência de alternativas socialistas que questionam tanto a extrema direita quanto os limites da conciliação de classes.
Portanto, pode-se falar na existência de dois grandes polos eleitorais, mas não de apenas dois projetos históricos possíveis para a sociedade brasileira.
Há também um terceiro campo estratégico, que é o da construção de uma alternativa independente da classe trabalhadora, capaz de ultrapassar os limites da administração progressista do capitalismo.
Fundo Público: o centro material da disputa
Por trás de muitos discursos aparentemente abstratos - como os de liberdade, eficiência, segurança, responsabilidade fiscal, empreendedorismo ou modernização -, encontra-se uma questão concreta, que se trata de quem se apropriará da riqueza produzida socialmente?
Pelo fato de que o Fundo Público ocupa posição central nessa disputa. Que, de um lado, são os recursos destinados à educação, saúde, previdência, universidades, infraestrutura, ciência, habitação e políticas sociais; de outro, são os que concorrem permanentemente com despesas financeiras, subsídios empresariais, renúncias fiscais, contratos privados e pagamento dos juros da dívida.
Desta forma, a eleição também decide quais dessas prioridades receberão maior peso. Por essa razão, os trabalhadores precisam analisar os programas eleitorais, não apenas pelas promessas apresentadas, mas por perguntas muito concretas, quais sejam: Quem financiará o Estado? Quem receberá seus recursos? Quem será tributado? Quem terá direitos ampliados? Quem sofrerá cortes? Quais setores econômicos serão protegidos? Quais serviços permanecerão públicos?
Essas questões permitem ultrapassar a aparência personalizada da disputa eleitoral, e atingir o centro ideológico e, por sua vez, político, de cada uma das candidaturas.
A tarefa política da classe trabalhadora
A polarização coloca uma tarefa complexa diante dos trabalhadores. Se, de um lado, existe a necessidade concreta de enfrentar projetos autoritários, privatizantes e regressivos em matéria de direitos sociais. De outro, existe a necessidade de preservar a autonomia política dos trabalhadores diante de governos de conciliação com setores do capital.
Essas duas tarefas não precisam ser consideradas contraditórias. Tendo em vista que se pode combater a extrema direita sem abandonar a luta por um programa próprio da classe trabalhadora.
Ao mesmo tempo que se pode defender as liberdades democráticas sem transformar as instituições liberais no horizonte final da emancipação humana.
E, também, pode-se impedir retrocessos sem abandonar a perspectiva de transformação estrutural da sociedade.
Para tanto, a questão estratégica consiste justamente em construir força social independente nos locais de trabalho, movimentos populares, sindicatos, escolas, universidades e organizações políticas.
Conclusão
As eleições brasileiras de 2026 condensam conflitos profundos acumulados pela sociedade brasileira.
Tendo em vista que a disputa eleitoral predominante apresenta dois campos claramente diferenciados. De um lado, um projeto de direita e extrema direita que combina liberalização econômica, conservadorismo político, fortalecimento do aparato repressivo e maior alinhamento com determinadas frações do capital nacional e internacional. De outro, um campo democrático-progressista que preserva maior espaço para políticas sociais, atuação econômica do Estado, direitos trabalhistas e uma política externa relativamente mais autônoma.
Afirma-se que essas diferenças são concretas e possuem consequências diretas para a vida da população, tendo em vista os Projetos eleitorais de sociedades, antagônicos, em disputa.
Entretanto, a perspectiva da classe trabalhadora não pode se limitar à escolha entre diferentes formas de administração da ordem existente. Posto que o desafio histórico permanece maior, que é o de construir uma alternativa política capaz de enfrentar simultaneamente o autoritarismo, o neoliberalismo, a privatização do Estado e a própria concentração capitalista da riqueza.
Mesmo que a eleição, portanto, constitua um momento importante da luta política, porém não se trata de seu ponto final.
Visto que o conflito fundamental continuará existindo depois das urnas. Nesse antagonismo social daqueles que vivem da apropriação privada da riqueza; e, de outro, a maioria social que produz essa riqueza por meio do trabalho, que vivem na miséria social.
Nesse sentido, a tarefa estratégica consiste em transformar a resistência eleitoral à extrema direita em organização permanente, consciência de classe e construção de um projeto político pela classe trabalhadora, capaz não somente de administrar o Estado existente, mas de disputar os fundamentos econômicos e sociais que reproduzem a desigualdade brasileira.
Nesse sentido, a verdadeira questão colocada nas eleições de 2026, portanto, não é apenas quem governará o Brasil, mas para quem o Brasil será governado.
¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política).
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