Escola Pública e Conhecimento Científico: A Contradição entre Formação Humana e Precarização do Trabalho
Luiz Antonio Sypriano¹
A função precípua da Escola Pública é a de realizar a Educação Escolar mediante a socialização dos conhecimentos científicos, filosóficos, artísticos e culturais produzidos e acumulados historicamente pela humanidade. Por isto a Escola constitui, portanto, um espaço institucional singular de mediação entre o estudante e o conhecimento sistematizado, possibilitando que as novas gerações ultrapassem os limites da experiência imediata e do senso comum e se apropriem dos instrumentos intelectuais necessários à compreensão crítica da realidade.
Sob a perspectiva da Pedagogia Histórico-Crítica, essa função assume especial importância para os filhos e filhas da classe trabalhadora. Apresenta a formulação de que se o conhecimento científico constitui um patrimônio histórico da humanidade, sua democratização não pode permanecer restrita à classe economicamente dominante. Por sua vez, a Escola Pública deve garantir o acesso às ciências, à filosofia, às artes e às formas mais desenvolvidas da cultura humana, criando condições para a elevação intelectual e cultural dos estudantes.
Entretanto, verifica-se uma profunda contradição entre essa função institucional e as condições concretas oferecidas para sua realização. Visto que a precarização material da Escola Pública manifesta-se em prédios deteriorados, salas superlotadas, bibliotecas insuficientes ou desatualizadas, ausência de laboratórios, deficiências tecnológicas e escassez de recursos didático-pedagógicos. Posto que quando as condições elementares para ensinar e aprender são degradadas, a própria possibilidade de realização do trabalho educativo é comprometida.
Enquanto essa precarização também alcança o trabalho e a formação docente. Com a expansão de processos formativos aligeirados, muitas vezes orientados por uma concepção meramente instrumental da licenciatura, tende a reduzir o espaço destinado à formação científica, filosófica, histórica e pedagógica aprofundada. Paralelamente a esses, estão os baixos salários, intensificação das jornadas, contratos temporários, multiplicação das tarefas burocráticas e redução do tempo destinado ao estudo e ao planejamento, que contribuem para a desvalorização e a proletarização do trabalho docente. Quando se exige cada vez mais do professor, por outro lado se restringem às condições materiais e intelectuais necessárias à realização de um ensino rigoroso.
Percebe-se que a crise escolar é agravada por outro fenômeno característico da sociedade contemporânea: o avanço do negacionismo científico. A exemplos de discursos antivacina, teorias conspiratórias, revisionismos históricos, desinformação digital e outras formas de irracionalismo, que colocam opiniões particulares no mesmo nível do conhecimento produzido mediante investigação, argumentação, comprovação e crítica científica. O problema ultrapassa, portanto, uma simples atitude individual de determinados estudantes. Tendo em vista que existe um ambiente cultural e ideológico no qual a autoridade do conhecimento científico é continuamente questionada.
Nesse contexto, parte do alunado pode desenvolver verdadeira aversão ao esforço intelectual exigido pelo conhecimento sistematizado. Visto que a imediaticidade das redes digitais, a circulação de informações fragmentárias e a valorização da opinião instantânea entram em conflito com os tempos próprios da aprendizagem no ler, interpretar, comparar, formular hipóteses, argumentar, pesquisar, errar, revisar e construir conceitos. Enquanto que a Escola Pública passa, assim, a enfrentar uma sociedade que simultaneamente proclama viver na “sociedade do conhecimento”, mas que produz mecanismos culturais que desvalorizam o próprio conhecimento científico.
Essa contradição relaciona-se também às transformações do mundo do trabalho. Com a reestruturação produtiva, o neoliberalismo e a expansão do capitalismo digital de plataformas, produziram novas formas de precarização do trabalho, como a da chamada uberização do trabalho. Nesse contexto, uma parcela significativa dos trabalhadores é incorporada a atividades fragmentadas, instáveis e subordinadas a comandos algorítmicos, nas quais o controle sobre o processo produtivo permanece externo ao trabalhador.
Mas, isso não significa que a economia contemporânea tenha deixado de necessitar de conhecimento científico. Ao contrário, visto que os setores tecnologicamente mais avançados concentram enormes quantidades de ciência e tecnologia. A contradição está no fato de que o conhecimento se concentra cada vez mais no sistema produtivo enquanto muitos trabalhadores são privados do domínio desse mesmo conhecimento. Enquanto que, para uma ampla parcela da juventude trabalhadora, reservam-se tarefas operacionais, repetitivas, precarizadas ou mediadas por plataformas, nas quais se exige adaptação, disponibilidade, cumprimento de metas e disciplina comportamental muito mais do que autonomia intelectual sobre o processo de trabalho.
Nesse sentido, o próprio currículo escolar sofre pressões para abandonar uma concepção de formação humana ampla em favor de um utilitarismo educacional. Sendo que os conteúdos científicos, filosóficos, históricos e artísticos estão perdendo espaço para discursos centrados exclusivamente em competências, empregabilidade, empreendedorismo individual, flexibilidade e habilidades socioemocionais. Assim, o risco é transformar a educação escolar em simples preparação para a adaptação às condições precárias existentes, em vez de proporcionar instrumentos intelectuais para compreendê-las e transformá-las.
Forma-se, assim, um circuito contraditório, com a precarização da escola dificulta o ensino; o aligeiramento da formação docente enfraquece as condições teóricas do trabalho pedagógico; o negacionismo deslegitima socialmente a ciência; o esvaziamento curricular reduz o acesso aos conhecimentos sistematizados; e a precarização do trabalho transmite às novas gerações a percepção de que um estudo científico aprofundado seria dispensável à sobrevivência imediata.
Importante salientar que a relação entre precarização social, uberização e irracionalismo político também merece destaque. Conforme apontam análises contemporâneas sobre a crise social, a insegurança permanente produzida pelo trabalho precário, pelo desemprego e pela deterioração das condições de vida, cria terreno favorável ao ressentimento, ao medo e às explicações simplificadoras da realidade. Nesse ambiente, discursos conspiratórios e anticientíficos encontram maior capacidade de circulação. Dessa forma, a crise do conhecimento não pode ser compreendida isoladamente da crise material das sociedades contemporâneas.
Por isso, defender a função institucional da Escola Pública significa muito mais do que defender técnicas pedagógicas ou novas metodologias. Significa afirmar que a educação escolar deve assegurar às novas gerações o direito de apropriar-se do patrimônio intelectual construído pela humanidade. Particularmente para a classe trabalhadora, o acesso ao conhecimento científico representa a possibilidade de compreender processos naturais, sociais, econômicos e políticos que, de outra maneira, aparecem como forças incompreensíveis e inevitáveis.
Na qual a tarefa fundamental da Escola Pública permanece, portanto, a de ensinar. Quer-se dizer que ensinar com profundidade, rigor e mediação pedagógica; ensinar ciência contra o obscurantismo; história contra o apagamento da memória; filosofia contra o conformismo do senso comum; arte contra o empobrecimento cultural. Por conseguinte, isso requer professores com sólida formação, carreira valorizada, tempo de estudo e planejamento, infraestrutura adequada e currículos comprometidos com a formação intelectual.
Mas, a contradição central da Escola Pública contemporânea encontra-se justamente aqui: quanto mais a sociedade necessita do conhecimento científico para compreender um mundo tecnologicamente complexo, mais amplos setores da população são afastados da apropriação crítica desse conhecimento. Posto que o capital incorpora ciência às máquinas, aos algoritmos e aos sistemas produtivos, mas não necessariamente necessita que todos os trabalhadores compreendam os conhecimentos incorporados nesses processos.
Nesse cenário, recuperar a função precípua da Escola Pública torna-se uma questão social decisiva. Deve-se lutar contra sua redução a espaço de contenção social, treinamento comportamental ou preparação mínima para um mercado precarizado; assim, é necessário reafirmá-la como instituição de socialização do conhecimento científico historicamente produzido pela humanidade.
Visto assim, a defesa da Escola Pública é, por isso, inseparável da defesa da ciência, da valorização do trabalho docente e de uma formação humana ampla. Em oposição ao negacionismo, ao obscurantismo, ao utilitarismo educacional e à precarização do trabalho, cabe à escola possibilitar que o estudante ultrapasse a aparência imediata dos fenômenos e desenvolva capacidade conceitual para compreender suas determinações históricas.
Em síntese, uma sociedade que nega aos trabalhadores o domínio do conhecimento científico não apenas empobrece sua escola, mas restringe sua própria possibilidade de emancipação humana. Ao defender a função institucional da Escola Pública, significa lutar para que o conhecimento produzido coletivamente pela humanidade seja também coletivamente apropriado —, não como privilégio, mercadoria ou instrumento exclusivo de valorização do capital, mas como patrimônio universal e condição para a compreensão e transformação consciente da realidade.
¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política).
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