A Industrialização da Desinformação e a Manipulação da Consciência Social pelas Fazendas de Robôs e Influenciadores Digitais
Luiz Antonio Sypriano¹
As chamadas “fazendas de robôs” — redes automatizadas ou coordenadas de perfis falsos nas plataformas digitais — tornaram-se instrumentos relevantes de manipulação da informação e da opinião pública. Seu funcionamento baseia-se na produção e reprodução massiva de mensagens, notícias falsas, conteúdos descontextualizados e interpretações distorcidas, criando artificialmente a impressão de que determinada ideia é amplamente aceita pela sociedade.
Esses mecanismos exploram a própria lógica das plataformas digitais. Na lógica de que quanto maior o número de curtidas, compartilhamentos, comentários e visualizações, maior tende a ser a circulação de determinado conteúdo. Assim, uma informação falsa repetida milhares de vezes pode adquirir aparência de verdade. Daí, forma-se uma espécie de realidade fabricada, na qual o cidadão passa a interpretar acontecimentos políticos, científicos ou sociais a partir de conteúdos previamente selecionados e impulsionados por redes coordenadas.
Ainda mais, com os chamados influenciadores digitais, podem ampliar ainda mais esse processo. Pois, quando transformados em intermediários de discursos políticos, econômicos ou ideológicos, alguns apresentam opiniões, propagandas ou desinformação como se fossem relatos espontâneos, experiências pessoais ou informações imparciais. Com isso, uma relação de confiança, construída com seus seguidores, funciona, então, como uma espécie de certificação social da mensagem, dificultando a percepção de seus interesses e de suas estratégias de persuasão.
Esse fenômeno produz aquilo que pode ser denominado industrialização da desinformação. Quando não se trata apenas de indivíduos que ocasionalmente divulgam informações incorretas, mas de sistemas capazes de produzir, impulsionar e repetir determinadas narrativas em grande escala. Dessa maneira, a repetição ocupa o lugar da demonstração, a emoção substitui a argumentação racional e a popularidade aparente passa a valer mais do que a verificação dos fatos.
Então, a consequência política e social é profunda. Isto porque parte da população pode tomar decisões, formar opiniões e até orientar seu voto com base em uma percepção artificialmente construída da realidade. Surgem medo, ressentimento, indignação e preconceitos, que tornam-se recursos particularmente eficientes, porque provocam respostas rápidas e favorecem o compartilhamento impulsivo. Nessa situação, a esfera pública deixa, assim, de ser apenas um espaço de confronto racional entre argumentos e passa também a constituir um território de disputa pela atenção e pela formação das consciências, alienadas.
Nesse contexto, combater a desinformação não significa restringir a liberdade de expressão, mas fortalecer a educação crítica e a alfabetização midiática e digital. Para tanto, será necessário ensinar a população a identificar fontes, distinguir opinião de informação, verificar autoria e contexto, reconhecer conteúdos patrocinados ou coordenados e desconfiar daquilo que se apresenta como “consenso” simplesmente porque aparece repetidamente nas redes.
Em síntese, as “fazendas de robôs”, associadas aos mecanismos algorítmicos das plataformas e à influência de determinados produtores de conteúdo, podem transformar a mentira repetida em aparência de verdade. Posto que o problema ultrapassa a tecnologia, quando envolve poder econômico, poder político e disputa pela formação da consciência social. Em uma sociedade democrática, portanto, o acesso ao conhecimento, à educação crítica e à informação verificável constitui uma defesa fundamental contra a manipulação das consciências.
¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política).
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