As Figuras Grotescas do Poder das Nações e o Avanço da Antipolítica Mundial
Luiz Antonio Sypriano¹
A política contemporânea tem sido ocupada por figuras grotescas que transformam o espaço público em palco de agressividade, intolerância, espetáculo midiático e culto à personalidade. Na qual, em lugar do debate racional, da construção coletiva e da defesa do bem comum, essas “lideranças” políticas mobilizam o medo, o ressentimento social, o nacionalismo extremado, a desinformação e a fabricação permanente de inimigos.
Como a do ditador Donald Trump, que representa uma das expressões mais agressivas desse fenômeno. Isto porque sua política está vinculada à reafirmação da supremacia econômica, militar e geopolítica do imperialismo estadunidense, apresentando-se na defesa dos interesses nacionais do capital. Por sua vez, reafirma uma linguagem autoritária, a intimidação dos adversários e a transformação da política em espetáculo, que contribuem para enfraquecer as instituições democráticas e naturalizar práticas de força, perseguição e exclusão.
Já no Brasil, encontra-se a figura de Jair Bolsonaro, quando consolidou uma versão particular desta antipolítica estadunidense. Embora tenha construído sua trajetória durante décadas dentro das instituições, apresentou-se como “inimigo” do sistema político e como representante de uma suposta renovação nacional. Posto que o seu discurso foi marcado pelo autoritarismo, pelo militarismo, pelo anticomunismo, pelo desprezo aos direitos humanos, pela hostilidade à ciência, à educação pública, à imprensa e aos movimentos sociais.
Sua ideologia, a do bolsonarismo, transformou a violência verbal, o preconceito e a negação da realidade em instrumentos permanentes de mobilização política. No qual alimentou a nostalgia da ditadura militar, exaltou torturadores, atacou as instituições democráticas e difundiu a ideia de que os adversários políticos deveriam ser tratados como inimigos a serem eliminados. Ao mesmo tempo, defende os interesses empresariais, financeiros, militares, religiosos e do agronegócio como se fossem os interesses de toda a população brasileira.
Sob uma aparência de “rebeldia” contra a chamada “velha política”, o bolsonarismo reproduziu práticas tradicionais de poder, alianças parlamentares, privilégios familiares, favorecimento de grupos econômicos e utilização privada das instituições públicas. Por conseguinte, a sua antipolítica não significou o desaparecimento da política, mas a adoção de uma política autoritária, regressiva e profundamente vinculada à manutenção das desigualdades sociais.
Enquanto na Argentina, aparece Javier Milei, que também se apresenta como inimigo da chamada “casta política”, embora governe utilizando as instituições do próprio Estado. Traz um discurso agressivo contra os direitos sociais, os serviços públicos, as universidades e as organizações dos trabalhadores; que transforma o desmonte estatal e a submissão ao capital financeiro, em uma suposta rebeldia contra o sistema social.
Outro é Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia, que representa uma política fortemente marcada pela comunicação espetacular, pela personalização do poder e pela inserção de seu país nas disputas geopolíticas internacionais.
Entretanto, sua atuação deve ser compreendida no contexto da invasão russa e da guerra que destrói territórios, desloca populações e submete os trabalhadores aos interesses militares e econômicos das grandes potências. Sua política é a do alinhamento da Ucrânia com os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), e, ao mesmo tempo, promover uma política de base ideológica nazifascista.
Apesar das diferenças históricas, nacionais e ideológicas, essas figuras compartilham determinados elementos, como a da substituição de projetos coletivos por personalidades supostamente salvadoras; o desprezo pelas mediações democráticas; a transformação dos adversários em inimigos absolutos; o uso sistemático da mentira e da provocação; a exploração dos ressentimentos sociais; e a apresentação dos interesses das classes dominantes como se fossem interesses de toda a sociedade.
Entende-se que a antipolítica, defendida por esses personagens, não significa ausência de política. Ao contrário, constitui uma política concreta destinada a ocultar a luta de classes, desmobilizar a classe trabalhadora, enfraquecer a participação popular e ampliar o domínio do capital sobre o Estado. Enquanto a população é mobilizada por guerras culturais ideológicas, discursos moralistas, preconceitos e espetáculos midiáticos, as decisões econômicas fundamentais continuam sendo tomadas em benefício dos grandes grupos empresariais, financeiros, militares e do agronegócio.
Essas figuras grotescas, que abundam na política mundial, não surgem por acaso. Elas são produtos de sociedades atravessadas pelo antagonismo social, pela desigualdade, pela insegurança social, pela concentração da riqueza, pela crise das instituições e pela manipulação das consciências. Se apresentam-se como rupturas com a velha ordem, mas, na realidade, aprofundam suas estruturas de exploração, violência e dominação.
Trump, Bolsonaro, Milei e outras lideranças semelhantes convertem a vulgaridade moral em método político, o ressentimento ético em programa de governo e a ignorância cognitiva em identidade coletiva. Por trás de suas performances aparentemente antissistêmicas, encontra-se a defesa de uma ordem social profundamente desigual, na qual os direitos da classe trabalhadora são reduzidos, os serviços públicos são desmontados e o Estado é colocado a serviço da acumulação privada do capital.
Diante desse cenário, torna-se necessário recuperar a política como atividade coletiva, crítica e transformadora. Enquanto a verdadeira superação da antipolítica não ocorrerá pela substituição de um líder autoritário por outro, mas pela organização consciente da classe trabalhadora, pela participação popular, pela defesa das liberdades democráticas e pela construção de um projeto internacionalista comprometido com a soberania dos povos, a justiça social e a emancipação humana.
¹ (Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política).
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