ANÁLISE CRÍTICA DA MORAL DO REBANHO EM FRIEDRICH NIETZSCHE E A HEGEMONIA POLÍTICA CONSERVADORA NO PARANÁ
Luiz Antonio Sypriano¹
Resumo
O presente artigo analisa o conceito de “moral do rebanho”, desenvolvido por Friedrich Nietzsche, articulando-o com a teoria social de Karl Marx, Antonio Gramsci e Louis Althusser, com o objetivo de interpretar a conjuntura política contemporânea do Paraná. Argumenta-se que a hegemonia conservadora no estado se sustenta por meio de uma combinação entre dominação material e produção ideológica, na qual a moralidade funciona como mecanismo de adesão subjetiva. A partir de uma abordagem teórico-analítica, demonstra-se que a moral do rebanho, quando articulada com os conceitos de ideologia, hegemonia e aparelhos ideológicos de Estado, permite compreender a reprodução de uma ordem social na qual parcelas da população aderem a projetos políticos que favorecem interesses econômicos dominantes. Conclui-se que a integração entre Nietzsche e a tradição marxista amplia a capacidade explicativa dos fenômenos contemporâneos de dominação.
Palavras-chave: moral do rebanho; hegemonia; ideologia; Nietzsche; Marx; Gramsci; Althusser; Paraná.
Introdução
A análise das formas contemporâneas de dominação política exige a articulação entre diferentes matrizes teóricas. Na Filosofia de Friedrich Nietzsche fornece os instrumentos para compreender a dimensão moral e subjetiva da obediência social, enquanto a tradição marxista, representada por Karl Marx, Antonio Gramsci e Louis Althusser, permite analisar as bases materiais e ideológicas da dominação.
No contexto do Paraná, marcado pela hegemonia de forças conservadoras, pela centralidade do agronegócio e pela influência de discursos moralistas, observa-se uma forma complexa de dominação que combina coerção, consenso e adesão subjetiva.
Por conseguinte, o objetivo deste artigo é investigar como a moral do rebanho pode ser articulada com os conceitos de ideologia e hegemonia para explicar a adesão social a projetos políticos que reproduzem desigualdades estruturais.
A conjuntura política do Paraná: conservadorismo, religião e economia
O estado do Paraná apresenta características históricas e estruturais que favorecem a consolidação de uma cultura política conservadora. Entre esses elementos, destacam-se:
A forte presença de valores tradicionais ligados à religião;
A valorização da ordem, da disciplina e da ética do trabalho;
A influência econômica do agronegócio e de setores empresariais;
A predominância eleitoral de forças políticas de direita.
Confirma-se através dos dados eleitorais recentes que evidenciam a continuidade dessa hegemonia, com ampla votação em candidaturas conservadoras tanto em eleições estaduais quanto nacionais. Paralelamente a isso, a estrutura econômica do estado, fortemente vinculada à produção agroindustrial e à exportação, reforça a centralidade de interesses empresariais na formulação de políticas públicas que lhes beneficiam, materializada nos últimos governos de Richa e Ratinho Jr.
Nesse contexto, a moral conservadora atua como elemento de coesão social, sendo mobilizada politicamente para legitimar projetos econômicos que favorecem a concentração de renda e a flexibilização de direitos sociais.
Moralismo conservador e interesses econômicos: a construção da hegemonia
Parte-se do pressuposto de que a articulação entre moralidade e economia constitui um dos elementos centrais da análise. No caso do Paraná, observa-se que as agendas econômicas, favoráveis a setores empresariais, são frequentemente apresentadas por meio de discursos morais.
Constata-se que essa mediação ideológica permite que políticas de desregulamentação, privatização e flexibilização de direitos sejam aceitas por parcelas da população que, em termos materiais, podem ser prejudicadas por tais medidas. Nesse sentido, a adesão ocorre porque o debate econômico é deslocado para o campo moral, onde valores como família, religião e ordem assumem centralidade.
Assim, a hegemonia política não se sustenta apenas pela força institucional, mas pela capacidade de produzir “consenso” e de alinhar subjetivamente a população aos interesses dominantes. Percebe-se que se trata de um processo no qual o “rebanho” passa a defender os interesses do “pastor” como se fossem seus próprios interesses.
A moral do rebanho e a figura do “pastor” em Nietzsche
A crítica de Friedrich Nietzsche (1844-1900) à moral ocidental, especialmente desenvolvida em obras como Genealogia da Moral (1887), centra-se na oposição entre moral dos senhores e moral dos escravos. Sendo que a chamada “moral do rebanho” corresponde a uma forma derivada da moral dos escravos, caracterizada pela valorização da igualdade, da humildade e da submissão, em detrimento da afirmação individual e da criação de valores próprios.
Segundo Nietzsche, essa moral emerge do ressentimento, entendido como a incapacidade de agir diretamente sobre a realidade, sendo substituído por uma reinterpretação moral que transforma fraqueza em virtude. Nesse processo, o indivíduo passa a buscar segurança na coletividade de massa, rejeitando o diferente e temendo a autonomia.
Por sua vez, a figura do “pastor”, frequentemente associado ao sacerdote ascético, desempenha papel central nesse sistema moral. Em que o pastor organiza o rebanho, administra seus medos e ressentimentos e mantém sua dependência, oferecendo explicações simplificadas e promessas de redenção. Entretanto, embora Nietzsche se refira principalmente ao contexto religioso, essa categoria pode ser ampliada para compreender lideranças políticas contemporâneas que operam por meio da manipulação moral e afetiva.
Moral do rebanho, ressentimento e dominação ideológica
Assim, a aplicação do conceito de moral do rebanho ao caso paranaense, permite compreender como a adesão política se constrói não apenas pela coerção, mas pela internalização de valores. Em que a população, inserida em um contexto de insegurança social e econômica, tende a buscar estabilidade em discursos que oferecem certezas morais e identidades coletivas; mas, principalmente, nos senhores garantidores de proventos.
Já o ressentimento, por sua vez, desempenha papel fundamental nesse processo. Em vez de se dirigir às estruturas de poder econômico, o rebanho é redirecionado contra grupos sociais percebidos como ameaças — movimentos sociais, universidades, minorias e correntes progressistas. Uma dinâmica que contribui para a construção de inimigos simbólicos e para a consolidação de uma identidade conservadora, na massa social.
Nesse cenário, as lideranças políticas atuam como “pastores”, organizando o discurso moral e orientando a ação coletiva. Além disso, elas transformam questões estruturais em conflitos morais, simplificando a realidade e mobilizando afetos como medo, indignação e pertencimento.
Limites da abordagem nietzschiana
Apesar de sua relevância, a aplicação da teoria de Friedrich Nietzsche apresenta limites. Isto porque Nietzsche não desenvolveu uma teoria das classes sociais, muito menos uma análise materialista da economia, o que restringe sua capacidade de explicar plenamente as relações estruturais de poder.
Por isso, sua contribuição deve ser compreendida como complementar. Enquanto Nietzsche ilumina os aspectos psicológicos e morais da dominação, outras abordagens são necessárias para analisar as dimensões econômicas, institucionais e históricas da realidade social. É o que se verá.
Marx: ideologia, classe e inversão da realidade
Para Karl Marx (1818-1883), a ideologia constitui um sistema de representações que mascara as relações reais de produção, produzindo uma inversão da realidade. Como afirmam Marx e Engels, “as ideias dominantes são as ideias da classe dominante” (MARX; ENGELS, 2007).
No contexto analisado, a moral do rebanho pode ser compreendida como uma forma específica de ideologia, que se trata de um conjunto de valores que naturaliza a dominação e legitima a ordem existente. Na qual a adesão à discursos conservadores não é apenas um fenômeno moral, mas também um efeito da posição dos indivíduos nas relações de produção.
Assim, a população pode defender interesses que não lhe são próprios porque a realidade social aparece de forma invertida: o que é exploração é percebido como mérito; o que é dominação é interpretado como ordem; o que é desigualdade é justificado como resultado natural.
Gramsci: hegemonia, consenso e direção moral
Para a análise desse contexto, a contribuição de Antonio Gramsci (1891-1937) é fundamental para compreender como a dominação se sustenta por meio do consenso. Para Gramsci, a hegemonia é a capacidade de uma classe de dirigir moral e intelectualmente a sociedade, articulando coerção e consentimento.
No caso do Paraná, a hegemonia conservadora se constrói por meio da articulação entre:
valores religiosos;
discurso moralista;
mídia e redes sociais;
interesses econômicos dominantes.
No que se refere a moral do rebanho, nesse sentido, funciona como base subjetiva da hegemonia; pois ela fornece os valores e afetos que tornam possível a adesão ao projeto dominante. Na qual o rebanho não é apenas dominado; ele consente e participa ativamente da reprodução da ordem.
Althusser: aparelhos ideológicos de Estado e interpelação
Já a teoria de Louis Althusser (1918-1990) aprofunda a compreensão da ideologia ao introduzir o conceito de Aparelhos Ideológicos de Estado (AIEs), como escola, igreja, mídia e família. Esses aparelhos funcionam principalmente por meio da ideologia, produzindo sujeitos que reconhecem a ordem social como legítima.
No contexto paranaense, os AIEs desempenham papel central na produção da moral do rebanho, nos quais:
igrejas difundem valores conservadores;
escolas reproduzem uma formação voltada à adaptação social;
mídias e redes sociais amplificam discursos moralizantes.
Por conseguinte, a interpelação ideológica transforma indivíduos em sujeitos que se reconhecem na ordem existente. Assim, o “rebanho” não é apenas conduzido; ele se reconhece como parte dessa ordem e a defende ativamente.
Síntese teórica: Nietzsche e o marxismo na análise da dominação
A articulação entre Friedrich Nietzsche e a tradição marxista permite uma análise mais completa:
Nietzsche explica como os indivíduos sentem e internalizam a dominação (ressentimento, moral, obediência);
Marx explica por que essa dominação existe (relações de produção e classe);
Gramsci explica como ela se mantém (hegemonia e consenso);
Althusser explica como ela se reproduz (ideologia e aparelhos).
No caso do Paraná, essa síntese revela uma estrutura em que a moral conservadora atua como mediação entre interesses econômicos e adesão popular.
Considerações Finais
A análise neste Artigo demonstrou que a moral do rebanho constitui um elemento fundamental para compreender a hegemonia política conservadora no Paraná. Quando articulada com os conceitos de ideologia, hegemonia e aparelhos ideológicos de Estado, ela revela como a dominação se sustenta não apenas pela força, mas pela adesão subjetiva.
Na qual a população, interpelada por discursos morais e religiosos, internaliza valores que favorecem a reprodução da ordem social, atuando como agente de sua própria dominação. Em que as lideranças políticas hegemônicas e dominantes, por sua vez, operam como “pastores”, organizando afetos e orientando a ação coletiva.
Por sua vez, conclui-se que a integração entre Nietzsche e o marxismo oferece um quadro teórico potente para a análise das formas contemporâneas de poder, evidenciando a necessidade de uma crítica simultaneamente material e ideológica.
Com isso, possibilita e potencializa a capacidade de construção tática e estratégias de transformação social, pela força dos movimentos, de quem ousa lutar pela emancipação humana.
Referência Bibliográfica
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
_____. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
__________. Além do bem e do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
_______. O pobre de direita. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023.
IBGE. Censo Demográfico 2022. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 25 mar. 2026.
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TSE. Resultados eleitorais 2018 e 2022. Disponível em: https://www.tse.jus.br. Acesso em: 25 mar. 2026.
¹(Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia e Filosofia da Educação).
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