A EPISTEMOLOGIA MARXIANA NA PRÁXIS DA ESQUERDA REVOLUCIONÁRIA
Luiz Antonio Sypriano¹
Resumo
O presente artigo aprofunda a epistemologia marxiana a partir de sua relação orgânica com a crítica da economia política, a teoria do Estado e a luta de classes. Para tanto, parte-se da compreensão de que, em Karl Marx, o conhecimento não emerge da abstração idealista, mas da apreensão das determinações concretas da vida social, fundadas no trabalho, nas relações materiais de produção e nas contradições históricas do capital; cujo objetivo é demonstrar que categorias como Estado burguês, ideologia, acumulação privada, impossibilidade de reforma do Estado e revolução social derivam diretamente do método materialista histórico-dialético. Em que , metodologicamente, trata-se de uma pesquisa bibliográfica de caráter teórico, centrada em obras clássicas de Marx e Engels, em diálogo com Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Antonio Gramsci, György Lukács, Louis Althusser e István Mészáros. Nele, argumenta-se que a epistemologia marxiana possui como núcleo a unidade entre objetividade e historicidade, na qual a verdade se verifica na práxis transformadora. Enfim, conclui-se que a crítica ao Estado e às formas ideológicas da sociabilidade capitalista não é apenas política, mas epistemológica, pois a verdade social exige ultrapassar as aparências institucionais e alcançar as bases materiais da dominação.
Palavras-chave: epistemologia marxiana; materialismo histórico; dialética; ideologia; práxis; Estado.
Introdução
Parte-se de que a epistemologia marxiana representa uma das mais profundas rupturas da Filosofia moderna com a tradição idealista. Enquanto a teoria clássica do conhecimento buscava fundamentar a verdade no sujeito, na razão ou em princípios universais abstratos, Marx desloca o problema para o terreno das relações sociais concretas, das condições materiais de produção e da historicidade das formas sociais.
Por conseguinte, esse deslocamento possui consequências decisivas. Quando o conhecimento deixa de ser uma atividade contemplativa e passa a constituir uma forma de apreensão crítica das determinações reais que organizam a sociedade. Assim, compreender o Estado, a ideologia, a exploração e a revolução não significa interpretar conceitos isolados, mas reconstruir o movimento objetivo do capital e das classes sociais.
Isso porque, no interior dessa perspectiva, a formulação do “Manifesto do Partido Comunista” — segundo a qual a história é a história da luta de classes — deve ser entendida como princípio epistemológico. Posto que a luta de classes não é apenas fato histórico, mas método de inteligibilidade do real. Enquanto o Estado moderno, apresentado como universal, revela-se como forma particular de organização do poder burguês; Em que a ideologia, por sua vez, opera na produção de aparências que ocultam a essência das relações sociais.
Sendo assim, o objetivo deste artigo é aprofundar os fundamentos epistemológicos dessas formulações, evidenciando a centralidade do materialismo, da dialética e da práxis na constituição do conhecimento marxiano.
Fundamentos Epistemológicos do Materialismo Histórico
O primeiro movimento da epistemologia marxiana consiste na afirmação da prioridade ontológica da matéria sobre a ideia. Em oposição à tradição idealista, especialmente hegeliana, Marx sustenta que a consciência não determina a vida, mas a vida material determina a consciência.
Essa formulação implica reconhecer que as formas do pensamento — moral, direito, política, religião e filosofia — não possuem autonomia absoluta. Elas são historicamente condicionadas pelo modo como os seres humanos produzem sua existência.
Isto porque a produção da vida material, desta forma, converte-se em fundamento do conhecimento. Posto que o trabalho é a mediação central entre sujeito e objeto, entre natureza e sociedade. Por sua vez, é por meio dele que os seres humanos transformam a natureza e, simultaneamente, transformam a si próprios.
Nesse nexo, a luta entre burguesia e proletariado não se reduz a um conflito moral entre interesses divergentes, mas expressa a contradição estrutural inscrita no próprio modo de produção capitalista. Com isso, é que a epistemologia marxiana busca apreender essa estrutura objetiva.
Estado, Ideologia e Falsa Universalidade
A teoria marxiana do Estado decorre diretamente de sua epistemologia. Quando sustenta que o Estado não pode ser conhecido a partir de sua autoimagem jurídica, constitucional ou moral, mas a partir de sua função real na reprodução das relações de produção.
Quando Marx e Engels afirmam que o Estado moderno é um “comitê para administrar os negócios comuns da burguesia”, realizam um gesto epistemológico radical, ao recusarem a neutralidade e revelarem a essência classista da forma estatal.
Portanto, a ideologia exerce aqui papel decisivo. Pois, ela converte interesses particulares em universalidade abstrata, fazendo com que a ordem burguesa apareça como ordem racional e natural.
Em diálogo com Gramsci, essa dimensão se aprofunda da noção de hegemonia, quando a dominação não se mantém apenas pela força, mas pela produção de consenso. Já em Althusser, os aparelhos ideológicos do Estado demonstram como escola, religião, mídia e direito reproduzem as condições simbólicas da dominação.
Por fim, a epistemologia marxiana não separa conhecimento e crítica ideológica, devido ao fato de estabelecer que conhecer é desmontar as formas de inversão que ocultam a exploração.
A Dialética como Lógica do Real Histórico
Entende-se que o conhecimento, em Marx, é dialético porque o próprio real é contraditório. Assim, o regime capitalista não é uma totalidade homogênea, mas uma estrutura tensionada por antagonismos.
Isto posto, constata-se que a contradição fundamental entre capital e trabalho explica o movimento histórico do sistema, pelos seguintes fatos:
expansão das forças produtivas;
concentração de riqueza;
expropriação do trabalho;
pauperização relativa ou absoluta da classe trabalhadora.
Nesse sentido, essa lógica contraditória permite compreender por que a acumulação privada e a miséria social são processos complementares; na razão do quanto maior a valorização do capital, mais intensa tende a ser a exploração do trabalho.
Com isso, a dialética marxiana supera tanto o empirismo fragmentário quanto o idealismo abstrato. Isto porque o seu objetivo é captar a totalidade concreta em movimento.
Nesse ponto, o diálogo com Lukács é fundamental, ao constatar que a categoria de totalidade torna-se princípio metodológico capaz de apreender as mediações entre economia, política, cultura e consciência.
A Práxis como Critério de Verdade
O núcleo mais radical da epistemologia marxiana reside na categoria de práxis. Ao afirmar que a verdade não se reduz à correspondência lógica entre conceito e objeto, mas encontra seu critério na capacidade de intervir materialmente na realidade.
Encontra-se respaldo, em Marx, na famosa Tese sobre Feuerbach que sintetiza esse princípio: não basta interpretar o mundo, é preciso transformá-lo.
Por conseguinte, a práxis é a unidade de vários elementos, quais sejam:
elaboração teórica;
consciência histórica;
ação coletiva;
transformação das condições materiais.
Por isso, a crítica marxiana ao reformismo não é apenas estratégica, mas epistemológica; ao afirmar que a tentativa de modificar a sociedade sem tocar na propriedade privada dos meios de produção, busca preservar a base material da dominação e, portanto, permanece no nível da aparência.
Esse reformismo, em Mészáros, como problema, aparece como crítica às mediações secundárias do capital, isto é, às formas institucionais que absorvem conflitos sem alterar a lógica estrutural da reprodução capitalista.
A impossibilidade epistemológica da neutralidade
Um dos pontos mais relevantes da epistemologia marxiana é a crítica à neutralidade científica abstrata. Sendo assim, a objetividade, em Marx, não significa ausência de posição histórica, mas rigor na apreensão das determinações concretas do real.
A despeito da tese acima, a neutralidade liberal costuma funcionar como forma ideológica, pois toma a perspectiva burguesa como universal. Por outro lado, o método marxiano assume a historicidade do sujeito cognoscente e a centralidade das contradições sociais.
Mas, isso não implica relativismo, pelo contrário, é uma objetividade superior, quando afirma que reconhece o lugar social do conhecimento e o reconstrói criticamente a partir da totalidade histórica.
Considerações Finais
O aprofundamento da epistemologia marxiana demonstra que materialismo, dialética, crítica da ideologia e práxis formam uma unidade orgânica. Além disto, a teoria do Estado, a luta de classes, a acumulação privada e a necessidade da revolução não são simples teses políticas, mas desdobramentos rigorosos de um método de conhecimento.
Isto posto, a verdade social exige ultrapassar a aparência jurídica, moral e institucional, alcançando as determinações materiais da vida social. Porque o Estado burguês, longe de ser mediador neutro, integra a reprodução da dominação de classe.
Assim, conclui-se que a epistemologia marxiana é inseparável de um horizonte transformador, isto porque conhecer é revelar a essência histórica da exploração e, ao mesmo tempo, orienta a práxis revolucionária para a superação da propriedade privada e da sociabilidade capitalista.
Referência Bibliográfica
ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
LUKÁCS, György. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.
_____. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
_____. O Capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
_____. Teses sobre Feuerbach. São Paulo: Boitempo, 2007.
MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2002.
¹(Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia e Filosofia da Educação).
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