IMPERIALISMO EM CRISE E A OFENSIVA DO ESTADOS UNIDOS CONTRA A VENEZUELA: GEOPOLÍTICA, RESISTÊNCIA E DESAFIOS PARA A ESQUERDA RADICAL
IMPERIALISMO EM CRISE E A OFENSIVA DO ESTADOS UNIDOS CONTRA A VENEZUELA:
GEOPOLÍTICA, RESISTÊNCIA E DESAFIOS PARA A ESQUERDA RADICAL
*Luiz Antonio Sypriano
Resumo
O presente artigo analisa a ofensiva imperialista dos Estados Unidos contra a Venezuela no contexto da crise estrutural do capitalismo contemporâneo e da intensificação dos conflitos bélicos internacionais. Partindo da teoria marxista do imperialismo, busca-se compreender a invasão estadunidense como expressão da decadência da hegemonia ocidental, da militarização das relações internacionais e da disputa por recursos estratégicos, como petróleo e minerais. O texto também examina o papel contraditório da esquerda diante da escalada imperialista, destacando a necessidade de uma resposta radical, internacionalista e mobilizadora. Por fim, discute-se a tradição histórica de resistências ao imperialismo e os dilemas internos da Venezuela frente à possibilidade de traições políticas e golpes articulados externamente.
Palavras-chave: Imperialismo; Venezuela; Crise do capitalismo; Marxismo; Anti-imperialismo.
Introdução
O regime capitalista atravessa, no século XXI, uma crise estrutural profunda, marcado pela estagnação econômica, colapso ambiental, intensificação das desigualdades sociais e crescente militarização das relações internacionais. Nesse contexto, as grandes potências recorrem cada vez mais à força bélica como mecanismo de reorganização da hegemonia global. Como as escaladas de conflitos bélicos envolvendo a Rússia na Ucrânia, a China em relação a Taiwan e os Estados Unidos nas Américas Central e do Sul, assim como o Caribe e a África, expressa essa dinâmica de reconfiguração violenta do imperialismo.
Com a Venezuela emerge um dos principais alvos da ofensiva estadunidense na região, dada sua posição geopolítica estratégica e sua vasta reserva de petróleo e minerais raros; esta invasão, com a supressão da soberania venezuelana, incluindo o sequestro político de suas lideranças, inscrevem-se em uma longa tradição de intervenções imperialistas dos EUA nas Américas.
Este artigo, por conseguinte, tem como objetivo analisar criticamente a ofensiva dos Estados Unidos contra a Venezuela à luz da teoria marxista do imperialismo, relacionando-a à crise do capitalismo, à decadência do Ocidente e aos desafios colocados para a esquerda, em especial a esquerda radical.
Imperialismo e Conflitos Bélicos na Atualidade
A teoria marxista do imperialismo, especialmente desenvolvida por Lenin (2012), compreende o imperialismo como uma fase histórica do capitalismo, caracterizada pela concentração do capital, pela dominação do capital financeiro e pela disputa violenta entre potências por mercados, territórios e recursos naturais.
No cenário contemporâneo, essa dinâmica manifesta-se por meio de conflitos armados diretos, guerras híbridas, sanções econômicas e intervenções políticas; como a da ofensiva da Rússia na Ucrânia, a pressão chinesa sobre Taiwan e as ações dos Estados Unidos nas Américas, Caribe e África indicam que a lógica imperialista permanece central na organização do sistema internacional.
Nas Américas Central e do Sul e Caribe, os EUA mantêm uma política histórica de dominação, tratando a região como área de influência exclusiva. Quanto à Venezuela, ao sustentar um projeto político relativamente autônomo e controlar recursos estratégicos, torna-se alvo prioritário dessa política imperial.
Crise do Capitalismo, Colapso do Ocidente e Decadência do EUA
A intensificação da agressividade imperialista está diretamente relacionada à crise estrutural do capitalismo. Conforme analisa Mészáros (2011), trata-se de uma crise que não é apenas cíclica, mas civilizatória, envolvendo limites ecológicos, sociais e políticos do sistema.
Como é demonstrado no Estados Unidos, que vivem uma profunda crise social interna, marcada pelo aumento da pobreza, da violência, do desemprego estrutural e da polarização política. Assim, ao se tornar Incapaz de sustentar sua hegemonia por meio do consenso, o imperialismo estadunidense recorre crescentemente à coerção, à força militar e à violação aberta do direito internacional.
Nesse sentido, a ofensiva contra a Venezuela pode ser interpretada como uma tentativa do governo estadunidense de deslocar para o exterior as contradições internas do capitalismo, reafirmando sua hegemonia por meio da violência.
A Invasão dos EUA à Venezuela e a Violação da Soberania
A invasão estadunidense à Venezuela caracteriza-se como uma ação unilateral, marcada pelo desrespeito às normas do direito internacional e às próprias leis internas dos Estados Unidos, ao passar por cima do Congresso e de instâncias institucionais formais.
Enquanto a política de “ordem pela força”, associada ao governo Trump, revela a disposição do imperialismo em impor governos tutelados, reorganizar administrativamente territórios invadidos e controlar diretamente recursos estratégicos. Demonstra, também, que o interesse central do imperialismo na Venezuela reside no controle de suas reservas de petróleo e minerais, fundamentais para a reprodução do capitalismo global.
Por ter feito o sequestro político do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cília Flores, o Estado Unidos insere-se nessa lógica de destruição da soberania nacional de outros povos e de desarticulação de projetos políticos que desafiam a ordem imperialista, demonstrando a sua força imperialista para o planeta.
Imperialismo, Acordos entre Potências e Zonas de Influência
A hipótese de acordos tácitos ou explícitos entre Estados Unidos, Rússia e China, nos quais cada potência atuaria livremente em suas respectivas zonas de influência, remete à análise clássica de Lenin (2012) sobre a partilha do mundo entre grandes potências.
Nesse contexto, a tolerância seletiva a determinadas agressões internacionais não se fundamenta em princípios humanitários, mas em cálculos estratégicos entre Estados imperialistas. Enquanto as nações periféricas tornam-se, assim, vítimas de uma lógica de dominação que as reduz à condição de objetos da política internacional.
Operação Condor e a Continuidade Histórica da Violência Imperial
A ofensiva atual contra a Venezuela deve ser compreendida como continuidade histórica das práticas imperialistas estadunidenses nas Américas. Advinda da Operação Condor, nas décadas de 1970 e 1980, que foi um esquema de repressão política e vigilância transnacional coordenado pelas ditaduras militares do Cone Sul na América do Sul, constituindo um exemplo emblemático dessa política, ao articular repressão militar, perseguição política, tortura e assassinato de lideranças de esquerda com apoio direto dos EUA.
Embora os métodos se atualizem — incorporando guerras híbridas, sanções econômicas e lawfare —, a lógica permanece a mesma: eliminar projetos políticos que ameaçam a dominação capitalista dependente na região.
A Esquerda, a Crise de Mobilização e a Necessidade de Radicalização
Na conjuntura atual revela-se a fragilidade da esquerda institucional, que se mostra incapaz de mobilizar amplamente as massas diante da escalada imperialista; cuja esquerda da ordem, ao apostar na conciliação, torna-se funcional à reprodução do sistema.
Em contraposição, a esquerda radical sustenta uma política coerente ao denunciar o imperialismo sem ambiguidades, exigir a libertação de Maduro e Cília Flores e defender a soberania venezuelana como parte da luta internacionalista.
Conforme argumenta Harvey (2005), a resistência ao imperialismo exige organização, consciência de classe e enfrentamento direto às estruturas do capital global.
Portanto, o fortalecimento do movimento popular passa por processos firmes de mobilização, politização e clareza ideológica.
Resistências Históricas e Contradições Internas na Venezuela
A História demonstra que o imperialismo não é invencível, ao enfrentaram situações com forças bélicas ao redor do mundo que resultaram em derrotas estratégicas, retiradas sem vitória clara ou fracassos em alcançar objetivos políticos e militares definidos. Uma delas foi a clássica derrota dos Estados Unidos no Vietnã, constituindo um dos exemplos paradigmáticos de que a resistência popular organizada pode superar até mesmo a maior potência militar do mundo.
No caso venezuelano, entretanto, a luta apresenta também contradições internas. Porém, com a ausência de resistência militar imediata, levanta-se questionamentos sobre possíveis traições internas, acordos com setores das forças armadas e a atuação da direita associada ao imperialismo. Ainda assim, o chavismo permanece como força política relevante, capaz de articular resistência e mobilização popular.
Considerações Finais
Com a ofensiva do Estados Unidos contra a Venezuela, expressa a fase mais agressiva de um imperialismo em crise, ao recorrer à violência direta para manter sua hegemonia em um mundo cada vez mais instável.
Sendo assim, defender a soberania venezuelana, denunciar o imperialismo e exigir a libertação de suas lideranças não constitui apenas uma posição política conjuntural, mas parte da luta histórica dos povos contra a dominação capitalista global.
Portanto, a resposta a esse cenário exige uma esquerda radical, internacionalista e organizada, capaz de articular a luta anti-imperialista à crítica estrutural do capitalismo e à construção de alternativas emancipatórias e soberana à Nação.
Referência Bibliográfica
AMIN, Samir. O imperialismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
HARVEY, David. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2005.
LENIN, Vladimir I. O imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Expressão Popular, 2012.
LUXEMBURGO, Rosa. A acumulação do capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985.
MÉSZÁROS, István. Para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2011.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.
*(Professor de Filosofia da Rede Pública do Estado do Paraná)
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