A Crise Hídrica e a Expansão dos Data Centers: Privatização da Água, Inteligência Artificial e Conflitos Socioambientais

A Crise Hídrica e a Expansão dos Data Centers:

Privatização da Água, Inteligência Artificial e Conflitos Socioambientais


*Luiz Antonio Sypriano


Resumo

O presente artigo analisa a relação entre a crise hídrica contemporânea e a expansão dos data centers, com ênfase nos efeitos das políticas neoliberais e dos processos de privatização da água. Argumenta-se que a crescente demanda por infraestrutura digital, intensificada pelo avanço da Inteligência Artificial (IA), aprofunda a mercantilização dos recursos hídricos e desloca a água de seu caráter de bem comum para atender prioritariamente aos interesses do capital tecnológico. A partir de revisão bibliográfica e análise de dados setoriais, o estudo discute a escala do consumo hídrico dos data centers, suas causas estruturais, as soluções tecnológicas propostas e seus limites, bem como os impactos socioambientais decorrentes. Conclui-se que o enfrentamento da crise hídrica exige a reversão de políticas de privatização e a construção de mecanismos democráticos de controle social sobre os recursos naturais.


Palavras-chave: crise hídrica; data centers; privatização da água; neoliberalismo; inteligência artificial.


Abstract

This article analyzes the relationship between the contemporary water crisis and the expansion of data centers, emphasizing the effects of neoliberal policies and water privatization processes. It argues that the growing demand for digital infrastructure, intensified by the advance of Artificial Intelligence (AI), deepens the commodification of water resources and shifts water from its status as a common good to primarily serve the interests of technological capital. Based on a literature review and sectoral data analysis, the study discusses the scale of water consumption by data centers, its structural causes, proposed technological solutions and their limits, as well as the resulting socio-environmental impacts. The paper concludes that addressing the water crisis requires reversing privatization policies and strengthening democratic control over natural resources.


Keywords:

water crisis; data centers; water privatization; neoliberalism; artificial intelligence.


Introdução


A intensificação da crise hídrica em diversas regiões do mundo, em particular no Brasil, têm revelado novas formas de disputa pelo acesso à água. Um dos vetores emergentes desse conflito é a rápida expansão dos data centers — infraestruturas essenciais para a economia digital, a computação em nuvem e, mais recentemente, para o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA). Em um contexto marcado por políticas neoliberais, caracterizadas pelo controle financeiro do Estado e pela privatização de empresas públicas de saneamento e energia, a água, que deveria atender prioritariamente às necessidades básicas da população, passa a ser direcionada para grandes empreendimentos tecnológicos, aprofundando desigualdades socioambientais.


Referencial Teórico: Neoliberalismo e Mercantilização da Água


Os governos de orientação liberal têm promovido, nas últimas décadas, a privatização de serviços públicos essenciais, incluindo o abastecimento e a gestão dos recursos hídricos. Esse processo transforma a água, reconhecida pela Organização das Nações Unidas como um direito humano fundamental, em mercadoria subordinada à lógica do lucro e da competitividade econômica (HARVEY, 2005; SWYNGEDOUW, 2013).

Nesse cenário, grandes corporações — entre elas empresas de tecnologia — passam a ter prioridade no acesso à água, em detrimento do consumo doméstico e das necessidades das populações locais, especialmente em regiões periféricas e vulneráveis. Com a instalação de data centers costuma ser acompanhada de incentivos fiscais, flexibilização ambiental e contratos privilegiados - pelo Estado - de fornecimento de água e energia, frequentemente mediados por empresas privatizadas ou parcerias público-privadas. Por conseguinte, tal dinâmica evidencia a assimetria de poder entre o capital tecnológico e a população trabalhadora, que sofre com racionamentos, aumento de tarifas e precarização do serviço público.


Metodologia


O estudo adota uma abordagem qualitativa, baseada em revisão bibliográfica de literatura acadêmica nacional e internacional sobre crise hídrica, privatização da água e economia política da tecnologia, bem como na análise de dados secundários provenientes de relatórios setoriais, estudos institucionais e publicações especializadas sobre o consumo hídrico de data centers. A análise é orientada por uma perspectiva crítica, inspirada na economia política e nos estudos socioambientais.


Escala e Dinâmica do Consumo Hídrico dos Data Centers


É sabido, pelas evidências e estudos empíricos, que os data centers consomem grandes volumes de água, sobretudo para o resfriamento de servidores de alto desempenho. Já com os centros de médio e grande porte, podem utilizar cerca de 1,9 milhão de litros de água por dia, volume comparável ao de uma piscina olímpica, o que equivale ao consumo diário de milhares de residências (LI et al., 2023).

Com a expansão da IA, este consumo tende a crescer significativamente, que trabalham com modelos de linguagem, processamento de imagens e vídeos e sistemas de aprendizado profundo, que demandam elevada capacidade computacional, gerando calor intenso e ampliando a necessidade de resfriamento.

Estudos indicam que interações com sistemas de IA podem implicar consumo indireto significativo de água, o que, em escala global, representa bilhões de litros diante do uso massivo de plataformas digitais (RENNER; WIESE, 2024).

No Brasil, embora o consumo de água pelos data centers representam cerca de 0,003% do total nacional em 2022, esse percentual é baixo apenas em termos relativos, quando comparado à agricultura (aproximadamente 53%) e à indústria (cerca de 9,4%). Nesse sentido, a tendência de crescimento acelerado do setor tecnológico, contudo, levanta alertas sobre impactos futuros, especialmente em regiões metropolitanas já submetidas ao estresse hídrico.


Razões Estruturais do Alto Consumo


Sabe-se que o principal fator do elevado consumo de água nos data centers é o resfriamento; são chips de processamento de alto desempenho, que geram grandes quantidades de calor, dissipadas por meio de sistemas que utilizam água em torres de resfriamento, nas quais parte significativa do recurso se perde por evaporação.

Além disso, a complexidade crescente dos dados processados — como imagens em alta resolução, vídeos, streaming contínuo e aplicações de IA generativa — aumenta exponencialmente a demanda computacional. Por conseguinte, quanto maior o volume e a complexidade dos dados, maior o consumo energético e, consequentemente, a necessidade, ainda maior, de resfriamento e de água.


Soluções Tecnológicas e seus Limites


Diante das críticas e pressões sociais, empresas do setor têm anunciado soluções para reduzir o impacto hídrico, como sistemas de resfriamento em circuito fechado, uso de água de reuso e projetos experimentais de consumo hídrico zero.

Embora relevantes, essas iniciativas não enfrentam a raiz do problema: o modelo de crescimento ilimitado da economia digital, orientado pelo lucro e pela concentração de poder tecnológico, ainda continua pressionando recursos naturais finitos (FOSTER, 2014).


Impactos Socioambientais e Conflitos Territoriais


Em regiões já afetadas pela escassez hídrica, a instalação de data centers torna-se insustentável do ponto de vista ambiental e social. Há registros de municípios que passaram a questionar ou barrar novos empreendimentos tecnológicos devido ao impacto sobre aquíferos, rios e sistemas de abastecimento.

Pesquisadores e universidades defendem a realização de estudos de impacto ambiental mais rigorosos, que considerem não apenas o consumo direto de água, mas todo o ciclo de vida dos data centers, incluindo energia, emissões de carbono e pressão sobre os recursos locais. Isto porque, devido a fragilidade da fiscalização estatal e a influência poderosa de interesses privados, têm agravado esses conflitos ambientais.


Considerações Finais


Certamente, a crise hídrica, associada à expansão dos data centers, revela uma contradição central do capitalismo contemporâneo. Embora as corporações de tecnologias digitais e a IA sejam frequentemente apresentadas como símbolos de progresso, sua infraestrutura material aprofunda a exploração dos bens comuns e das populações trabalhadoras.

Percebe-se que, tanto a privatização da água como a prioridade concedida ao capital tecnológico, são evidências da necessidade de um debate público sobre soberania hídrica, planejamento democrático e controle social dos recursos naturais.

Isto posto, ao se garantir que a água atenda prioritariamente às necessidades humanas fundamentais, exige-se enfrentar o modelo neoliberal de gestão, reverter processos de privatização e subordinar o desenvolvimento tecnológico a critérios sociais, ambientais e coletivos; e, não à lógica do lucro de poucas corporações globais, que se colocam em prejuízos da grande maioria da população.


Referência Bibliográfica


FOSTER, John Bellamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

HARVEY, David. A brief history of neoliberalism. Oxford: Oxford University Press, 2005.

LI, Y. et al. Water consumption and sustainability challenges of data centers. Journal of Industrial Ecology, v. 27, n. 2, p. 345-358, 2023.

RENNER, S.; WIESE, L. Artificial intelligence and environmental impacts: energy and water use. Environmental Research Letters, v. 19, n. 1, 2024.

SWYNGEDOUW, Erik. Liquid power: contested hydro-modernities in twentieth-century Spain. Cambridge: MIT Press, 2013.


*(Professor de Filosofia da Rede Pública Estadual do Paraná)


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