NACIONALISMO CONTEMPORÂNEO COMO PASTICHE IDEOLÓGICO: UMA ANÁLISE À LUZ DA CRÍTICA MARXIANA

 NACIONALISMO CONTEMPORÂNEO COMO PASTICHE IDEOLÓGICO: UMA ANÁLISE À LUZ DA CRÍTICA MARXIANA

Luiz Antonio Sypriano¹


Resumo

O presente artigo analisa o nacionalismo contemporâneo, especialmente em sua expressão vinculada à extrema-direita, a partir da crítica marxiana da ideologia. Argumenta-se que tal nacionalismo constitui um pastiche, que é uma forma simbólica esvaziada que reproduz elementos históricos do nacionalismo clássico sem seu conteúdo material original. Por meio de uma abordagem teórico-crítica, fundamentada em autores como Karl Marx, Friedrich Engels e Antonio Gramsci, demonstra-se que o nacionalismo contemporâneo atua como mecanismo ideológico de ocultamento das contradições do capitalismo imperialista, com sua nova divisão internacional do trabalho. A análise evidencia como categorias como ideologia, alienação, fetichismo e falsa consciência permitem compreender o papel do nacionalismo na fragmentação da classe trabalhadora, na produção de inimigos sociais e na legitimação de relações de dominação. Conclui-se que esse fenômeno não representa uma alternativa ao capitalismo, mas uma de suas formas de reprodução em tempos de crise em que vive.


Palavras-chave: Nacionalismo; Ideologia; Marxismo; Alienação; Extrema-direita.


Introdução


O ressurgimento do nacionalismo no século XXI, especialmente associado a movimentos de extrema-direita, tem se apresentado como resposta política à crise do capitalismo imperialista. Nos discursos centrados na defesa da pátria, da soberania e da identidade nacional, ganharam força em diversos países, incluindo o Brasil, frequentemente acompanhados de discurso anti-globalista e conservadora.

Entretanto, sob a perspectiva da crítica marxiana, esse fenômeno exige uma análise que ultrapasse sua aparência ideológica. Em vez de representar um projeto autêntico de autodeterminação nacional, o nacionalismo contemporâneo pode ser compreendido como uma forma de ideologia que atua na reprodução das relações de dominação de classe. Nesse sentido, propõe-se a hipótese de que tal nacionalismo constitui um pastiche, ou seja, uma imitação superficial de formas históricas passadas, desprovida de conteúdo material transformador.

Por conseguinte, o objetivo deste artigo é analisar criticamente o nacionalismo contemporâneo à luz das categorias marxianas, evidenciando suas contradições internas, sua função ideológica e seu papel na manutenção da ordem capitalista.


Ideologia e nacionalismo na tradição marxiana


Na tradição marxista, a ideologia não é compreendida como mero erro cognitivo, mas como uma forma socialmente produzida de representação que expressa e legitima relações materiais de dominação. Afirmação n’A ideologia alemã, em que Marx e Engels constatam que as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante.

Nesse contexto, o nacionalismo aparece como uma construção ideológica que universaliza interesses particulares. Posto que, ao invocar a “nação” como unidade homogênea, ele obscurece a divisão fundamental entre classes sociais, apresentando interesses da burguesia como se fossem interesses de toda a sociedade.

Essa operação produz o que Marx denomina de consciência invertida, na qual as relações sociais reais — marcadas pela exploração do trabalho — são mascaradas por narrativas simbólicas. Assim, o conflito entre capital e trabalho é deslocado para antagonismos nacionais, culturais ou identitários, o que faz muito bem a ideologia da pós-modernidade.


O nacionalismo como pastiche anacrônico


O conceito de pastiche permite compreender a forma contemporânea do nacionalismo. Trata-se de uma repetição de elementos simbólicos do passado — como tradições, heróis, valores morais e mitos fundadores — sem a presença das condições históricas que lhes deram origem, tão comum na ideologia do positivismo, constitutiva do estado nacional da nossa república, forças armadas e acadêmicas.

Assim, historicamente, o nacionalismo desempenhou papel relevante na consolidação dos Estados modernos e na formação dos mercados nacionais. Contudo, no contexto atual do imperialismo capitalista e da financeirização do capital, a ideia de soberania nacional absoluta torna-se cada vez mais limitada.

Desta forma, o nacionalismo contemporâneo, ao ignorar essa realidade, assume caráter anacrônico. Pelo fato de que ele encena um passado idealizado como solução para problemas presentes, configurando-se como uma forma de farsa histórica, nos termos da análise de Marx em O 18 Brumário de Luís Bonaparte.


Contradições: soberania, dependência e neoliberalismo


Uma das principais contradições do nacionalismo contemporâneo reside na dissociação entre discurso e prática. Enquanto proclama a defesa da soberania nacional, frequentemente sustenta políticas alinhadas ao neoliberalismo, de privatizações, desregulamentação e abertura econômica subordinada; próprio de nações da periferia do imperialismo, por conseguinte dependente, subdesenvolvida e empobrecida.

Esse fenômeno revela o caráter ideológico do nacionalismo, isto porque mobiliza símbolos patrióticos enquanto reforça estruturas de dependência econômica. Com isso, a soberania defendida torna-se, assim, predominantemente simbólica, não material.

Do ponto de vista marxiano, essa contradição evidencia a primazia das relações econômicas sobre as formas políticas. Em que o nacionalismo, nesse caso, não rompe com o capitalismo, mas se adapta a ele.


Produção de inimigos e fragmentação da classe trabalhadora


Outro elemento central do nacionalismo contemporâneo é a construção de inimigos internos e externos. Nesses, minorias, imigrantes, movimentos sociais e instituições internacionais são frequentemente apresentados como ameaças à nação, principalmente quando não controlados pela classe dominante e seus aparatos e aparelhos hegemônicos.

Por conseguinte, essa estratégia cumpre uma função ideológica fundamental: fragmentar a classe trabalhadora. Pois, ao deslocar o foco da exploração capitalista para conflitos identitários, o nacionalismo impede a formação de uma consciência de classe e enfraquece a solidariedade entre trabalhadores.

Nesse sentido, há convergência com a análise de Gramsci sobre hegemonia, quando o nacionalismo atua como instrumento de direção moral e intelectual, garantindo o consentimento das classes subalternas à ordem dominante.


Fetichismo e alienação no nacionalismo


O nacionalismo contemporâneo também pode ser interpretado a partir das categorias de fetichismo e alienação. Assim como no fetichismo da mercadoria, em que relações sociais aparecem como relações entre coisas, o nacionalismo transforma relações de dominação em símbolos aparentemente neutros.

Enquanto bandeiras, hinos e narrativas patrióticas tornam-se fetiches que ocultam a exploração do trabalho. A despeito dessa dominação, o trabalhador passa a se identificar com a nação abstrata, em vez de reconhecer sua posição concreta nas relações de produção.

Por sua vez, esse processo reforça a alienação, pois distancia os indivíduos de suas condições materiais de existência, substituindo a análise crítica por identificação simbólica.


Indústria cultural e performance ideológica


No contexto contemporâneo, o nacionalismo é amplamente mediado pela indústria cultural e pelas mídias digitais; que se manifesta por meio de imagens, slogans, discursos simplificados e apelos emocionais, transformando-se em produto político de consumo.

Constata-se que essa dimensão performática reforça seu caráter de pastiche. Com isso, o nacionalismo torna-se espetáculo, baseado na repetição de signos e na mobilização de afetos, como medo, ressentimento e nostalgia.

Assim, a política é reduzida a uma performance ideológica que não busca transformar a realidade, mas reproduzir a ordem existente.


Considerações Finais


A análise desenvolvida permite concluir que o nacionalismo contemporâneo de extrema-direita, sob a ótica marxiana, constitui uma forma ideológica de reprodução da dominação de classe. Em que seu caráter de pastiche revela-se na dissociação entre forma simbólica e conteúdo material, bem como na repetição anacrônica de elementos históricos.

Longe de representar um projeto emancipatório, esse nacionalismo atua na ocultação das contradições do capitalismo, na fragmentação da classe trabalhadora e na legitimação de hierarquias sociais. Posto que sua função principal é estabilizar a ordem vigente, deslocando o conflito de classe para antagonismos artificiais.

Em síntese, o nacionalismo contemporâneo não é alternativa ao capitalismo imperialista rentista, mas uma de suas formas ideológicas, operando como instrumento de manutenção da dominação em um contexto de crise estrutural.


Referência Bibliográfica


ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.

ANTUNES, Ricardo. O privilégio da servidão. São Paulo: Boitempo, 2018.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

HARVEY, David. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.

MARX, Karl. O 18 Brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011.

_____, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

_____; ______. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 2005.

PACHUKANIS, Evgeni. Teoria geral do direito e marxismo. São Paulo: Boitempo, 2017.


¹(Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia e Filosofia da Educação).

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