BOLSONARISMO: A DEGRADAÇÃO DA POLÍTICA E A NORMALIZAÇÃO DA IGNORÂNCIA
BOLSONARISMO:
A DEGRADAÇÃO DA POLÍTICA E A NORMALIZAÇÃO DA IGNORÂNCIA
Luiz Antonio Sypriano¹
O bolsonarismo não pode ser compreendido apenas como mais uma vertente do pensamento político brasileiro. Para além disso, trata-se de um fenômeno autoritário e reacionário, cujas raízes ideológicas remontam ao legado da Ditadura Militar (1964–1985), marcado pelo anticomunismo, pelo culto à autoridade, pela intolerância política e pelo desprezo às liberdades democráticas.
Nisso, Jair Bolsonaro (1955–), durante décadas um parlamentar de limitada expressão nacional, foi progressivamente transformado em personagem midiático. Quando sua participação em programas populares, nos quais frequentemente proferia declarações grosseiras, preconceituosas e provocativas, contribuiu para converter a truculência em entretenimento e a vulgaridade em instrumento de identificação popular. Com isso, o que inicialmente parecia motivo de escárnio tornou-se instrumento de projeção política, construído pela mídia a mando de empresários.
Nesse processo, a espetacularização midiática, o ressentimento social, o antipetismo e a disseminação de discursos antissistema favoreceram sua ascensão. Enquanto que intelectuais e propagandistas da extrema direita, entre eles Olavo de Carvalho (1947–2022), contribuíram para conferir sustentação ideológica a esse movimento, frequentemente substituindo a reflexão crítica pelo dogmatismo, pelo conspiracionismo e pela hostilidade ao conhecimento científico.
Por conseguinte, Bolsonaro tornou-se, metaforicamente, uma espécie de Macunaíma do mal, representando uma caricatura grotesca das contradições nacionais, na qual o autoritarismo se apresenta como liberdade, a ignorância como autenticidade e a agressividade como coragem política.
Entretanto, o problema ultrapassa a figura individual de Bolsonaro. Isso porque o fenômeno mais preocupante é a bolsonarização de parcelas da sociedade, expressa na naturalização da intolerância, na glorificação da violência simbólica, na rejeição das evidências científicas e na transformação da ausência de conhecimento em motivo de orgulho.
Nesse contexto, a dissonância cognitiva, conceito desenvolvido por Leon Festinger (1919–1989), oferece uma importante chave interpretativa para compreender como, diante de informações que contradizem convicções profundamente arraigadas, determinados indivíduos procuram desqualificar as evidências, reinterpretar os fatos ou reafirmar suas crenças para preservar a própria identidade política. Esse mecanismo, embora não seja exclusivo do bolsonarismo, ajuda a compreender a resistência de alguns de seus seguidores à crítica racional.
Posto isso, a tragédia política brasileira não consiste simplesmente na ascensão de um personagem autoritário, mas na transformação de suas práticas e valores em uma cultura política socialmente disseminada. Por conseguinte, o bolsonarismo representa uma expressão contemporânea da persistência do autoritarismo brasileiro, potencializada pela indústria da desinformação e pela crise das instituições democráticas, a serviço da ordem dominante, mesmo sustentando um discurso contrário ao sistema.
Por fim, superar esse fenômeno exige mais do que derrotar eleitoralmente suas lideranças. Exige enfrentar suas raízes históricas, sociais e ideológicas, reconstruindo as condições necessárias ao desenvolvimento do pensamento crítico, da consciência histórica e da participação democrática.
Isso porque, quando a ignorância deixa de produzir constrangimento e passa a ser ostentada como virtude, a própria racionalidade política se encontra ameaçada.
¹ Professor e pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia, Filosofia da Educação e Política.
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