SEGMENTOS EVANGÉLICOS BOLSONARISTAS E A POLÍTICA: A ÉTICA DO CRIME ORGANIZADO
Luiz Antonio Sypriano¹
RESUMO
O presente artigo analisa a relação entre segmentos evangélicos bolsonaristas e a política brasileira contemporânea, a partir da hipótese de que parte desse campo religioso foi capturada por uma lógica de acumulação de capital e poder, operando por meio da instrumentalização da fé. Em que denomina-se, aqui, tal racionalidade como ética do crime, compreendida não como prática generalizada de criminalidade, mas como categoria crítica que expressa a legitimação de práticas antiéticas — como clientelismo, captura do Estado, exploração econômica e violência simbólica — sob o manto da moral religiosa. A pesquisa fundamenta-se em referenciais da Sociologia da Religião e da Teoria Crítica, articulando autores como Karl Marx, Antonio Gramsci, Louis Althusser e Achille Mbembe, além de estudos contemporâneos sobre neopentecostalismo, teologia da prosperidade e guerra cultural. Conclui-se que esse fenômeno expressa uma forma sofisticada de dominação de classe, na qual a religião atua como aparelho ideológico, convertendo contradições sociais em adesão política ao capital.
Palavras-chave: Religião e política; Evangélicos; Bolsonarismo; Teologia da prosperidade; Ideologia; Dominação de classe.
INTRODUÇÃO
Parte-se da constatação da crescente presença de segmentos evangélicos na política brasileira, que constitui um dos fenômenos mais relevantes da conjuntura contemporânea. Nas últimas décadas, o campo religioso evangélico deixou de ocupar uma posição periférica e passou a atuar como força política organizada, influenciando eleições, pautas legislativas e disputas ideológicas no interior do Estado.
Entretanto, esse processo não é homogêneo. O universo evangélico brasileiro é marcado por profunda diversidade social, racial e teológica. Quando a maior parte de seus fiéis pertence à classe trabalhadora, composta majoritariamente por mulheres, pessoas negras e moradores de periferias urbanas. Contudo, uma fração específica — alinhada ao bolsonarismo e à extrema direita — consolidou-se como agente político central, articulando conservadorismo moral, neoliberalismo econômico e autoritarismo político.
Este artigo parte da seguinte problemática: em que medida essa fração evangélica bolsonarista opera uma inversão ética, substituindo princípios cristãos por uma racionalidade orientada pela acumulação de capital e pela manutenção do poder?
A hipótese defendida é que se trata de um processo de instrumentalização da fé, no qual a religião funciona como aparelho ideológico de dominação, convertendo a experiência religiosa em mecanismo de controle político e econômico.
REFERENCIAL TEÓRICO
A análise fundamenta-se na tradição marxista e na Teoria Crítica da ideologia. Na qual, Karl Marx, afirma que a religião é compreendida como forma de consciência social que expressa e, ao mesmo tempo, oculta as contradições materiais da sociedade. Longe de ser mera ilusão, ela cumpre função concreta na reprodução das relações sociais dominante, transformando a classe trabalhadora em massa de manobra.
Com Antonio Gramsci, este contribui com o conceito de hegemonia, entendida como a capacidade de uma classe dirigente de obter consenso por meio de aparelhos privados de direção moral e intelectual, entre os quais a religião ocupa papel central.
Já Louis Althusser define a religião como um dos principais aparelhos ideológicos de Estado (AIE), responsável por interpelar os indivíduos como sujeitos e reproduzir as condições de produção de determinado modo de produção antagônico.
No campo contemporâneo, Achille Mbembe contribui para compreender formas de poder que articulam violência, controle territorial e produção de subjetividades, especialmente em contextos periféricos.
A partir desses referenciais, a religião não é analisada como fenômeno puramente espiritual, mas como prática social inserida em relações de poder, produção e dominação.
A INSERÇÃO DOS EVANGÉLICOS NA POLÍTICA BRASILEIRA
A participação evangélica na política brasileira intensifica-se a partir da década de 1980, com a redemocratização, pelo “fim” do regime militar-empresarial (1964-1985). Ao longo das décadas seguintes, consolidou-se a chamada “bancada evangélica”, que passou a atuar de forma organizada no Congresso Nacional.
Esse movimento se fortalece no século XXI, culminando no apoio massivo de lideranças evangélicas ao bolsonarismo, principalmente com a destituição da presidente Dilma Rousseff, em 2016, considerado um golpe político. Tal aliança não se explica apenas por afinidade religiosa, mas por convergência de interesses políticos e econômicos, como, na defesa da propriedade privada, no combate a direitos sociais considerados “ameaças morais” e no acesso a recursos do Estado.
Nesse contexto, a religião passa a operar como mediadora entre o poder político e a base social, transformando comunidades de fé em bases eleitorais disciplinadas, transformando templos em currais eleitorais.
TEOLOGIA DA PROSPERIDADE E ACUMULAÇÃO DE CAPITAL
A teologia da prosperidade constitui o principal fundamento ideológico dessa racionalidade. Nela, a fé é associada ao sucesso material, e a riqueza é interpretada como sinal de bênção divina.
Essa lógica promove uma transformação profunda, em que:
a fé torna-se investimento;
o dízimo converte-se em mecanismo de transferência de renda;
a igreja passa a funcionar como instituição econômica;
o sofrimento social é reinterpretado como falha individual de fé.
Do ponto de vista crítico, trata-se de uma forma de internalização da lógica capitalista no interior da religião; cuja relação com o sagrado assume forma mercantil, e a espiritualidade é subordinada à acumulação.
FUNDAMENTALISMO E GUERRA CULTURAL
O fundamentalismo religioso desempenha papel central na coesão política desses segmentos. Ele opera por meio da construção de inimigos — reais ou imaginários — como estratégia de mobilização social.
Termos como “comunismo”, “ideologia de gênero” e “ameaça à família” são utilizados para produzir medo e reforçar identidades coletivas. Processo esse que desloca o conflito social da esfera econômica para a esfera moral.
Assim, a luta de classes é obscurecida e substituída por uma guerra cultural. Nesse sentido, o trabalhador deixa de reconhecer sua condição material e passa a agir politicamente em defesa de valores que frequentemente sustentam sua própria exploração.
A ÉTICA DO CRIME ORGANIZADO E A CAPTURA DO ESTADO
A noção de ética do crime organizado expressa a contradição entre discurso moral e prática política. Aqui, expressa uma racionalidade na qual os fins — manutenção do poder e acumulação — justificam os meios, mesmo quando estes envolvem práticas antiéticas ou ilícitas, principalmente no que se refere à esfera religiosa.
Com os casos de intermediação religiosa no acesso a verbas públicas, clientelismo e uso político de estruturas religiosas evidenciam essa dinâmica. A facilitação a tudo isso acontece com a ocupação de cargos públicos e, por conseguinte, do acesso ao orçamento estatal, tornam-se instrumentos de fortalecimento institucional de determinados grupos religiosos.
Nesse cenário, o Estado deixa de operar como espaço público universal e passa a ser apropriado por interesses particulares, mediados pela religião.
RELIGIÃO, TERRITÓRIO E VIOLÊNCIA
Em determinadas periferias urbanas, observa-se a articulação entre discurso religioso e controle territorial exercido por grupos armados. Esse fenômeno, por vezes denominado “narcopentecostalismo”, que revela a complexidade das relações entre religião, poder e violência.
Nesses contextos, símbolos religiosos podem ser utilizados para legitimar práticas de dominação territorial, disciplinamento social e repressão cultural, especialmente contra religiões afro-brasileiras.
Por outro lado, é fundamental, contudo, evitar generalizações: tais fenômenos são localizados e não representam o conjunto das igrejas evangélicas.
CONTRADIÇÕES E RESISTÊNCIAS INTERNAS
Apesar da força desses segmentos, o campo evangélico abriga resistências significativas, como as Teologias negras, comunitárias e populares, reafirmando o cristianismo como prática de libertação.
Essas correntes resgatam valores como solidariedade, justiça social e defesa dos oprimidos, contrapondo-se à lógica da prosperidade individual e da acumulação.
Por isso, a existência dessas resistências demonstra que o conflito não é entre religião e política, mas entre projetos distintos de sociedade no interior do próprio campo religioso.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise desenvolvida permite afirmar que os segmentos evangélicos bolsonaristas constituem uma fração específica do campo religioso, marcada pela convergência entre fundamentalismo moral, neoliberalismo econômico e autoritarismo político.
A chamada ética do crime organizado revela-se, em última instância, como expressão da racionalidade do capital: uma lógica que subordina valores éticos à acumulação e ao poder, utilizando a religião como instrumento de legitimação.
Tal fenômeno não pode ser compreendido como desvio individual ou anomalia religiosa, mas como parte de um projeto de dominação de classe, que opera por meio da produção de consenso, da manipulação simbólica e da captura institucional.
Diante disso, torna-se fundamental fortalecer análises críticas e práticas sociais que resgatem o potencial emancipador da religião - Teologia da Libertação -, recolocando-a ao lado dos trabalhadores e dos oprimidos, com vista a sua emancipação.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Rio de Janeiro: Graal, 1985.
GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. São Paulo: Boitempo, 2010.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais: sociologia do novo pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1999.
PIERUCCI, Antônio Flávio. Religião como solvente. São Paulo: EDUSP, 2006.
SOUZA, Jessé. A elite do atraso. Rio de Janeiro: Leya, 2017.
VIEIRA, Henrique. O amor como revolução. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019.
¹(Professor e Pesquisador nas áreas de Educação, Filosofia e Filosofia da Educação).
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